Limites, gatilhos e enfermidades

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As enfermidades ou distúrbios emocionais são, sem dúvida, os problemas da nossa geração. Apesar de antigos (já citados por Aristóteles e Platão), ganharam atenção nas últimas décadas pelo desenvolvimento de estudos na área e pela demanda de abordagem e tratamento. Creio ser necessário entendermos o que diferencia os limites, gatilhos e enfermidades de fundo emocional.

Limites. Todos nós possuímos limites na totalidade de nossa composição. São limites físicos, espirituais, psíquicos e emocionais. Ultrapassá-los de forma repetitiva leva a uma posição de esgotamento ou estresse. Para evitarmos isso, é essencial que conheçamos as nossas limitações. Normalmente, vamos além dos pontos divisórios por imposição de trabalho, demanda externa ou pessoal, falta de gerenciamento do tempo e dos momentos de descanso, falta de disciplina e outros fatores comportamentais ou do nosso contexto. Como cada um possui um limite distinto, o modelo ao lado também não nos é determinante, pois pode estar bastante aquém ou além do que seria a nossa linha-limite na vida. Conheci uma missionária em Gana que se estressava profundamente tendo 11 e-mails “acumulados” na caixa postal para responder e falava sobre o assunto durante vários dias. Por outro lado, apesar da sua linha-limite nesta área de interação digital ser aquém dos seus pares, ela poderia viajar durante duas ou três semanas por todo o país mobilizando as mulheres evangélicas, sem dormir duas noites no mesmo lugar e fazendo isso diversas vezes por ano, sem demonstrar exaustão. Somos diferentes e nossos limites também. Precisamos compreendê-los para respeitá-los. Porém, ultrapassar limites não significa, necessariamente, a construção de enfermidades emocionais. Um esgotamento físico ou um estresse pode ser curado simplesmente com descanso ou remanejamento das atividades diárias. Esses tipos de extenuação, porém, podem servir, juntamente com outros mecanismos e fatores, como gatilho para distúrbios de ordem emocional.

Gatilhos. Enfermidades de fundo emocional – como depressão, pânico, transtorno obsessivo compulsivo e outras – são normalmente formadas ao longo da vida e não em um único momento. Diversas possuem causa genética, outras são produzidas a partir de desconstruções e inibições ao longo da caminhada e há, ainda, as que não possuem causa conhecida. Quase todas, porém, revelam-se a partir de gatilhos, os quais podem ser: internos (químicos ou de outra ordem biológica) ou externos – fatos ou situações que ocasionalmente desencadeiam a enfermidade emocional ou acentuam-na quando já existe. Especialistas tendem a aceitar que alguns dos principais gatilhos externos são: (a) a perda de um ente querido; (b) lidar com uma enfermidade crônica, pessoal ou de alguém próximo; (c) estresse/esgotamento; (d) trauma e experiências traumáticas. Um dos gatilhos, portanto, é o estresse/esgotamento, ou seja, o ultrapassar de nossos limites. Tais gatilhos disparam situações psíquicas e emocionais que podem evoluir em enfermidades.

Enfermidades. As enfermidades de fundo emocional são distintas e precisam, assim, de distintas abordagens. Quando possível, desmontar o gatilho já consiste em uma ação inicial importante. Alguns gatilhos são mais práticos em seu “desmonte”, como o esgotamento, para o qual se receitaria descanso e remanejamento das atividades diárias por um bom período. Outros são mais complexos, como traumas que precisam de uma abordagem especializada. Ainda outros dependem de contextos externos ou mesmo de tempo, como a perda de um ente querido. De toda forma é importante, em um primeiro momento, planejar o “desmonte” do gatilho após identificá-lo. Paralelamente, é indicado tratar da enfermidade desenvolvida. Citando as mais comuns, podemos fazer rápida menção sobre as mesmas.

A crise de ansiedade é um transtorno de forte alteração emocional marcado por um súbito (ou paulatino) desiquilíbrio das emoções. A pessoa se vê levada a sentir, agir e reagir em extremos e a “régua” que mede os estímulos externos também é afetada. Situações corriqueiras, como um elogio ou uma crítica, por exemplo, podem ser estímulos para reações emocionais desproporcionais, devido à instabilidade das emoções. Uma simples brincadeira pode ser estímulo suficiente para tirar a pessoa do seu estado de reação natural. Em situações como essas, podem ocorrer as crises de choro, explosões de ira, afastamento do convívio com outros e assim por diante, a depender do perfil e temperamento de cada um. Outro sintoma são os processos mentais. Assuntos que antes eram tratados de forma simplificada começam a se desdobrar na mente em processos quase sempre extremados e tomam muito mais tempo do que normalmente o fariam. A crise de ansiedade é uma enfermidade. Pode ser passageira ou, se prolongada, frequentemente conduz à depressão.

A depressão é marcada inicialmente por episódios de angústia – sem motivo aparente - que passam a perdurar. O profundo e contínuo desânimo em relação a coisas que antes motivavam é outro marcador importante, associado também a reações mais pessoais de acordo com os temperamentos. Alguns se calarão enquanto outros tendem a falar compulsivamente. Alguns demonstrarão tristeza e choro, enquanto outros ficarão agitados e nervosos. Em geral há um evitamento do convívio social. A depressão  tende a levar o indivíduo ao isolamento. A figura mais conhecida é de alguém angustiado que se tranca em um quarto e evita qualquer tipo de interação pessoal. Enquanto a crise de ansiedade parece ser o início de uma enfermidade mais prolongada, a depressão tende a se estabelecer por períodos maiores.

O pânico, ou crise de pânico, é outro transtorno que frequentemente dialoga com a crise de ansiedade e, muitas vezes, com a depressão. É, porém, uma enfermidade que possui autonomia e pode ocorrer separadamente. Crises de pânico podem se aplicar em diversas direções como: pânico de viajar, de passar mal, de algo terrível acontecer, de ficar preso em um local fechado e assim por diante. Muitas vezes, as crises são confundidas com súbitos problemas do coração (dores fortes no tórax), ou problemas respiratórios (dificuldade de respirar), ou ainda um “súbito medo que percorre todo o corpo”. A crise é extremamente limitadora por não conhecer hora nem lugar, além de também desenvolver um efeito agudo, quando já avançado, desencadeando outros distúrbios.

Normalmente, recomendamos em primeiro lugar uma ajuda profissional (psicológica e, quando necessário, psiquiátrica) sem uso de medicamentos, a não ser em casos mais extremos. A terapia com um psicólogo ou psicanalista experiente é um ótimo e necessário passo para se compreender melhor os limites, gatilhos e as enfermidades, além de promover uma ajuda real terapêutica. Os medicamentos (prescritos por um psiquiatra) podem ser de boa ajuda, após um diagnóstico seguro ser concluído e quando necessário. Como qualquer enfermidade, a de ordem emocional precisa de diagnóstico, tratamento e acompanhamento. Um dos primeiros passos, porém, é a consciência da necessidade de se observar algo e buscar ajuda.

Recomendamos dois livros que têm sido úteis para muitas pessoas. O primeiro é “Andando com o tanque vazio”, de Wayne Cordeiro. Esse é um livro precioso de grande ajuda para revisar nossa vida emocional e prática, entender nossos limites e prevenir enfermidades de fundo emocional. O segundo é “12 semanas para mudar a sua vida”, de Augusto Cury. Ele traz uma proposta terapêutica simples, que pode ser lida/feita ao longo de 12 semanas. Têm resultados muito positivos, pois ambos nos conscientizam sobre a necessidade de entendermos nossos limites, respeitá-los e buscar ajuda quando necessário. Há outros livros que nos ajudam a compreender o problema. Um deles é “Não é coisa da sua cabeça”, de Naiara Magalhães. Muito indicado por sua leitura fácil e aplicável. Outro título recomendado é “Depressão e transtornos mentais”, de Paulo Velasco. Há também um clássico que descreve a gravidade e realidade do problema em sua dimensão mais profunda que é “O demônio ao meio dia”, de Andrew Solomon.  Esse é um livro “forte” e talvez não seja recomendado para quem já está em contexto depressivo.

Palestras, livros e conversas com profissionais nos ajudam a baixar a guarda, observar as reais necessidades e compreender os problemas. A partir disto boas portas se abrem.

Bem sabemos que, sobretudo, dependemos da bondade do Senhor. Todos os Seus planos para nossas vidas são planos de amor e Seu desejo é que estejamos bem e saudáveis. A vida devocional é um diferencial na vida de todos e uma necessidade gritante para quem ultrapassa qualquer situação árida na vida, inclusive desafios de ordem emocional. O Senhor e Sua Palavra nos estimulam à paz mesmo em meio ao conflito, nos ensinam o caminho da esperança e nos ajudam a confiar que em Deus estamos seguros. Se há algo que precisa ser priorizado por quem luta com situações de crise emocional é a vida com Deus e a reflexão na Sua Palavra.

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14 de dezembro de 2014

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