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Considerações culturais no aprendizado de língua

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Um dos maiores equívocos no processo do aprendizado de uma nova língua é distinguir tal processo da aquisição cultural. A língua é uma expressão cultural e, desta forma, está revestida de simbolismos, cosmovisão, costumes e história. Aprender uma língua em ambiente de gabinete dificilmente levará alguém ao trânsito livre entre o povo alvo.

É necessário, portanto, que a aquisição cultural caminhe de mãos dadas com a aquisição lingüística.
Entre os Bassari de Gana e Togo, África, a saudação, por exemplo, é sempre ao chegar, seja em uma aldeia ou em uma casa. É necessário saudar pessoa a pessoa, em ordem coordenada (direita para a esquerda) com aperto de mãos e uma variada lista de pergunta se respostas, não menos que 12 por pessoa. Entre os Nawri de Gana a saudação é sempre ao sair. A chegada é tímida e sem destaque, porém a saída é formal. Os que permanecem fazem fila para se despedir de quem sai. Neste momento são dados os presentes ao visitante, narrada importância de sua vinda e assim por diante. Não se gasta menos do que 1 hora por despedida.

Observando os termos lingüísticos utilizados em ambos os cenários veremos que estão diretamente associados à cosmovisão do povo em relação à forma de introdução de uma pessoa ao convívio social. As marcas de introdução, no primeiro caso, são reveladas no início, na chegada. Assim, entre os Bassari logo se sabe se é bem vindo. No segundo caso as marcas são reveladas na saída. Entre os Bassari, portanto, praticamente todas as saudações são construídas utilizando o termo ‘chegada’ (boa chegada, longa chegada, chegada súbita e assim por diante. Já entre os Nawri o termo utilizado em boa parte das saudações é ‘partida’. A cosmovisão, maneira como um povo vê e interpreta o universo à sua volta, é determinante para a compreensão lingüística de uma nova língua. Utilize, portanto, uma metodologia para análise e aquisição cultural desde sua chegada e início de aprendizado lingüístico. No site www.antropos.com.br você encontrará um método de aquisição e análise cultural que denomino Antropos, sendo, porém, mais elaborado e especialmente organizado para quem deseja realizar uma pesquisa etnográfica, etnológica e fenomenológica em determinado grupo.

Teorias antropológicas

Gostaria de resumir algumas teorias antropológicas a fim de destacarmos alguns pensamentos que fazem eco hoje na forma como observamos e interpretamos um povo ou fato social.

No século XIX surge o evolucionismo unilinear, que aplica a teoria da evolução na culturalidade e gera o pressuposto que o homem passaria por estágios de evolução cultural: da selvageria à barbárie, da barbárie à civilização e da civilização ao estado de perfeição relativa. Tais estudos se basearam a partir da observação de culturas ultramarinas, a partir do gabinete e não do campo, de forma distante e pouco aprofundada. São estudos etnocêntricos e comparativos, relegando as etnias minoritárias diferentes graus de primitivismo tendo a cultura européia como ponto de referencia do processo civilizatório. É, desta forma, uma teoria idealista, tendo como ideal o europeu, sua sociedade e tecnologia. Esta teoria criou a plataforma filosófica para o domínio europeu no novo mundo. Esta teoria foi criada dentro do cenário dos escritos e pensamento de Spencer (princípios da biologia 1864) e Tylor (A cultura primitiva 1871) dentre outros.

A publicação de Regras do Método Sociológico, de 1895, propõe que os fatos sociais eram mais complexos do que se imaginaria a princípio. Com Durkheim[1] começam os fenômenos sociais a ser definidos como objetos de investigação socio-antropológica. Juntamente com Mauss, Durkhéim (no final do século XIX) se debruça nas representações primitivas, estudo que culminará na obra Algumas formas primitivas de classificação, publicada em 1901. Com isto se vê inaugurada a “linhagem francesa” no estudo da antropologia.

Franz Boas[2], nos Estados Unidos da América, desenvolve a idéia de que cada cultura tem uma história particular e, portanto a difusão de traços culturais deveria acontecer com freqüência e abrangência. Nasce o Relativismo cultural antropologia inicia a investigação de campo, saindo do gabinete. Boas defende que cada cultura deve ser definida pela sua própria história particular, portanto torna-se necessário estudá-las separadamente com o objetivo de construir sua história.

Surgia o Culturalismo, também conhecido como Particularismo Histórico. Deste movimento surgiria posteriormente a escola antropológica da Cultura e Personalidade. O particularismo histórico questionou o evolucionismo unilinear propondo que cada cultura possui sua historicidade que demanda respeito. São atacadas as comparações idealistas culturais. Advoga também o que seria o protótipo da observação participativa na qual o pesquisador interage com o povo alvo. Desenvolveu o método indutivo (do particular para o geral) contrapondo a antropologia clássica da época, generalista.

A Antropologia Estrutural nasce na década de 40. Lévi-Strauss é o seu grande teórico e defende que existem regras estruturantes das culturas na mente humana. Desta forma estas regras constroem pares de oposição para organizar o sentindo. Ele recorre a duas fontes principais: a corrente psicológica criada por Wundt e o trabalho realizado no campo da linguística, por Saussure, denominado Estruturalismo. Foi também influenciado por Durkheim, Jakobson com a teoria linguística, Kant com o idealismo e Mauss.

O Estruturalismo dá um grande impulso a lingüística de forma geral ao defender que é necessário compreender o padrão mental, de pensamento e comunicação de um povo, a fim de compreender a sua cultura. Nesta época métodos fonológicos passam a ser aplicados para estudos culturais. A finalidade maior é encontrar o que foi chamado de pensamento coletivo pois este aglutinaria impressões e valores de um povo. Valoriza-se o registro (e interpretação) de lendas e mitos.

O Funcionalismo vem se contrapor às teorias da época e propõe a compreensão (e estudo) da cultura a partir de um ciclo de valores que estão interligados. Ou seja, todos os aspectos que definem uma sociedade (língua, atividades de subsistência etc) fazem parte de um todo que pode ser entendido como cultura. Desta forma vemos o nascimento da distinção entre etnografia e etnologia, pressupondo a necessidade de não apenas dissertar as atividades humanas em determinado segmento social mas também compreender a identidade do grupo. Radcliffe-Brown[3] e Evans-Pritchard desenvolveram esta teoria propondo uma nova ramificação que é o funcionalismo estrutural. Defenderam que a estrutura social é o ponto central em uma sociedade e todas as atividades e fatos sociais (valores, religião, organização familiar etc) são desenvolvidos com a finalidade de manter a estrutura social estável. O desequilíbrio desta estrutura social faz com que a sociedade desenvolve outros mecanismos, valores ou atividades que venham a reequilibrá-lo.

O Neo-evolucionismo define que a evolução cultural se dará, basicamente, através da luta do homem contra a natureza, e o domínio deste sobre aquele em relação a subsistência, segurança e bem estar. Steward defendia, porém, que as mudanças ambientais foram as causadoras, principais, das mudanças culturais e prevê que as grandes possíveis mudanças ambientais puderam resultar em mudanças gerais na humanidade. E assim defende ser necessário, ao homem, permanecer com seu instinto de adaptação ao ambiente, o que proverá segurança e sobrevivência.

Na segunda metade do século 20 Clifford Geertz, após Lévi-Strauss, provavelmente foi o antropólogo cujas idéias mais causaram impacto na sociedade. É considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea - a chamada Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa. As teorias simbólicas e hermenêuticas apresentam duas classes antropológicas. A primeira, simbólica, defende a identificação do significado cultural a partir da observação e analise de ritos, mitos, cosmogonias e assim por diante. A segunda, hermenêutica, defende a interpretação destes fatos sociais. A pergunta, para estes, é sempre ‘qual a idéia por trás do fato social’ ?

Observação participante

O método mais utilizado na antropologia para o estudo cultural, porém, é o método de observação participante. Consiste, resumidamente, nos seguintes passos:

a) Definição de cenário de estudo e tema. Pode ser um grupo étnico, um segmento social ou mesmo um fato social.

b) Levantamento e registro de documentação já existente sobre o cenário ou tema de estudo, como mapas, dados econômicos, estatísticos, públicos ou particulares, pesquisas já realizadas etc.

c) Organização de pastas com os principais temas a serem estudados.

d) Registro dos fatos sociais através da observação participante desenvolvendo as seguintes atividades:
- descrição cartográfica da comunidade, habitações, lugares sagrados ou religiosos, públicos ou privados.
- descrição genealógica (parentesco).
- registro e gravação de entrevistas informais.
- Fotos ou filmagens.
- Registro de breves biografias.
- registro (e gravação) de mitos, lendas e contos.
- Levantamento de dados estatísticos atualizados quanto à população.

e) A participação se dá através da preparação de um cenário para o estudo e compreensão de um fato social. Assim você deve:
- Escolher o fato social a ser estudado. Por exemplo, um funeral.
- Planejar o momento e cenário quando se dará a observação.
- Interagir com pessoas locais durante a observação do fato social a fim de recolher impressões, comentários e descrições.
- Participar do fato social, quando aconselhável e bem vindo.

Pritchard nos fala a respeito do uso de máscaras. Apesar de ser um rito encontrado em diversas etnias com um mesmo pano de fundo religioso, animista por exemplo, as origens provam serem diversas e distintas. Alguns grupos utilizam máscaras a fim de enganar os espíritos quanto à identidade daqueles que as usam. Outros as utilizam personificando um espírito e desta forma o mascarado afugenta outros espíritos. Algumas máscaras são comemorativas e isentas de valor religioso, outras ainda puramente teatrais ou mitológicas. Fenômenos semelhantes possuem, em diversos casos, origens distintas e, portanto, trazem em si verdades distintas. Cada caso precisa ser analisado separadamente, unicamente, à procura do elemento factual ali presente.

Abordagens necessárias à compreensão de um fato social

Pensando na análise antropológica de fatos sociais, creio que há 3 abordagens que cooperam para que os entendamos razoavelmente bem. São elas as abordagens analítica, axiomática e a correlativa.

A Abordagem Analítica

Esta abordagem tem início na observação passiva de fatos e fenômenos sociais ou religiosos dentro de um ambiente humano social. Prevê a observação a partir da cultura objetiva, ou seja, utilizando-se os elementos lingüísticos e culturais para coletar a informação de maneira completa, sistematizada e intuitiva. Piazza refere-se à observação como um meio de medição de valores partindo do pressuposto que devemos observar toda experiência que transmita conhecimento. Neste caso o ato de soprar (puhut) a folha de caranã na maloca Hupdah com propósitos de proteção e preservação da moradia torna-se, em si, um fenômeno a ser observado de forma sistemática (procurando paralelismos tanto em outras culturas que cultivam o ‘sopro’ quanto em outros atos de ‘soprar’ na mesma cultura).

A intenção aqui é observá-lo e depois, a partir dele, observar outros fenômenos de ‘sopro’ paralelos e analisar historicamente. Neste caso, vejamos algumas perguntas da abordagem analítica deste fenômeno, como exemplificação: Quem realiza o ato de soprar? Crianças sopram? Pessoas de outra cultura podem soprar? Em que condições a pessoa sopra? Tal ato está associado a uma pessoa ou a uma comunidade? Há um código invisível de ordem e conduta? Quais os resultados esperados? Como é sua dinâmica funcional? Quais os termos lingüísticos que são usados ao redor do ato? Como a comunidade conversa sobre o ato de soprar?

A Abordagem Axiomática

Intenta compreender os reais valores dos elementos sociais ou religiosos no mundo do Aquém e não apenas suas formas de expressão. Portanto um sacrifício pode indicar medo ou proteção e são estes elementos subjetivos, medo ou proteção, a serem estudados na abordagem axiomática.

Voltando ao “sopro” Hupdah, faríamos as seguintes perguntas da abordagem dos valores: Qual a idéia por trás do sopro? A comunidade perde o equilíbrio se não o fizer ? Há manipulação de uma força impessoal ou é uma ato espiritualista, com interação com seres pessoais invisíveis? Há interação de tais forças com o homem? Que ligação há com o benzimento ?

A Abordagem Correlativa

Tem a incumbência de, após analisar e também identificar os valores causadores das práticas sociais e religiosas, ligá-los às perguntas que os levam a existir. Ou seja, descobrir as perguntas sociais que geraram as práticas embutidas com os valores.
Continuemos nossa exemplificação com o “sopro” Hupdah. Neste caso faríamos as seguintes perguntas: Quais as causas sociais que motivam o ato de soprar? Qual é a limitação do ato? O sopro seria uma solução interna para quais problemas?
Estas perguntas já demandam uma etnografia mais extensa. O objetivo aqui é descobrir quais problemas o sopro não responde e quais responde.

Estas três abordagens podem ser aplicadas a qualquer fato social a fim de orientá-lo em sua compreensão.

Adaptação cultural e o aprendizado de línguas

O chamado choque cultural é um fator reacionário que pode inibir o aprendizado de uma nova língua. Nesta fase, se for acentuada, o estudante passa a ter dificuldades de estar e transitar entre o povo. Também não se sente fortalecido emocionalmente o suficiente para aprender a nova língua com alegria. Algumas atitudes colaboram para que você possa tanto se adaptar melhor ao novo contrexto quanto à nova língua. Vão abaixo alguns conselhos.

Não faça de sua moradia um lugar de refúgio.

Portanto transite pela comunidade, esteja (se possível) na casa das pessoas e vizinhos, reúna-se com outros em lugares públicos e freqüente seus ambientes de trabalho. Quando a casa se torna um local de refúgio a tendência do estudante de uma nova língua, que se encontra em ambiente distinto, é criar ali um cenário de exclusão, ausente do povo. Abra as portas de sua casa (respeitando os limites que você precisa de privacidade) para que eles também freqüentem sua habitação.

Controle a visão crítica-comparativa.

Ela pode impedir uma adaptação mais rápida e fácil. Comparar os elementos de vivência (moradia, relacionamento, perfil, alimentação etc) do grupo alvo, ou de seu ambiente, com a sua cidade, casa ou país é um erro fatal que gerará apenas um coração pesado com dificuldade de aproveitar as belas oportunidades de convivência e aprendizado.

Não transforme o seu companheiro em intérprete cultural e lingüístico.

É natural que, se vocês forem casados ou companheiros de estudo desta nova língua um desenvolva mais rapidamente que o outro. Raramente pessoas caminham no mesmo ritmo. Assim, não transforme o seu companheiro de estudo, que estiver um pouco mais a frente ou demonstre mais facilidade, em seu interprete cultural e lingüístico. Tenha suas próprias experiências, cometa seus próprios erros e se relacione diretamente com o povo. Lembre-se que o povo é a melhor fonte de informação, e na coleta desta informação (mesmo que já esteja acessível com o companheiro ao lado) você ganha na interação humana, relacionamento e aprendizado lingüístico.

Ande diariamente dentro da circunferência cultural.

Exponha-se ao povo, cultura e ambiente onde você está inserido na aprendizado de uma nova língua. Planeje que horário você irá sair, diariamente, para andar e estar na circunferência cultural. Este planejamento é importante sobretudo para aqueles que são mais retraídos ou preferem estar em casa. Ao se relacionar com outras pessoas e praticar a língua que está aprendendo saiba que cometerá muitos erros, e são necessários neste processo. Tenha senso de humor.

Mantenha-se aberto a novos costumes e sistemas.

O tempo e a forma irão mudar se você estiver inserido em um povo com grave distinção cultural. E talvez estes dois, tempo e forma, sejam os elementos que mais geram desconforto. Se a forma de transmitir conhecimento é através da repetição, em um ambiente de tempo cíclico por exemplo, acostume-se a ouvir a mesma história 15 vezes por noite. A melhor forma de minimizar o desconforto relacionados ao tempo e forma é a participação.

Adapte-se para que se sinta bem e integrado ao contexto

Adaptar não é criar novos conceitos de diversão, modo de vida, moradia etc, mas transferir seus conceitos formados e encaixá-los na cultura em que você se encontra. Depressão, sentimento de perda, saudades e sentimento de incapacidade nos primeiros meses possivelmente ocorrerão. Em algum nível alguns destes sintomas devem acontecer. Tenha paciência durante este período de adaptação.

Conclusão

Desejo que este estas breves orientações gerais para o aprendizado de língua lhe sirva de estímulo durante o processo. Aprender uma língua é obter a chave cultural para o trânsito entre um povo. Todo o convívio, trabalho e relacionamento que você sonha ter com o povo alvo passará pelo crivo da habilidade linguística. Qualquer mensagem a ser transmitida deve ser avaliada por seu conteúdo e transmissão. Mesmo que o conteúdo seja fidedigno e relevante, sem a devida transmissão haverá distorções e limitações. Em relação ao povo com o qual você trabalhar com liberdade, aprender uma língua é sobretudo um ato de amor.

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[1] Ver Durkheim, E. - Les Formes Élémentaires de la Vie Réligieuse, Paris; P.U.F.; 1968
[2] Ver Boas, Franz, Antropologia Cultural, Ed. Jorge Zahar, 2004
[3] Ver RADCLIFFE-BROWN, A. R. Estrutura e Função nas Sociedades Primitivas. Lisboa: Edições 70, 1989

Última atualização em Seg, 06 de Abril de 2009 04:20

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