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A respeito das metodologias antropológicas para o estudo cultural

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Iniciaremos este capítulo discorrendo a respeito dos objetivos da Antropologia e das dificuldades dos métodos. Quanto aos objetivos da Antropologia, Boas tenta responder em sua palestra pronunciada em 1932: “Talvez possamos definir melhor o nosso objetivo como uma tentativa de compreender os passos pelos quais o homem tornou-se aquilo que é biológica, psicológica e culturalmente.”[1] Este autor continua nos mostrando quais os dados principais precisamos captar tanto física, psicológica e culturalmente.

Ele continua a afirmar que “o método histórico atingiu uma base mais sólida ao abandonar o principio enganoso de supor conexões onde quer que se encontrem similaridades culturais. O método comparativo, não obstante tudo o que se vem escrevendo e dizendo em seu louvor, tem sido notavelmente estéril em relação a resultados definitivos. Acredito que ele não produzirá frutos enquanto não renunciarmos ao vão propósito de construir uma história sistemática uniforme da evolução da cultura e enquanto não começarmos a fazer nossas comparações sobre bases mais sólidas... até agora temos nos divertido demais com devaneios mais ou menos engenhosos”.[2]

O método mais utilizado na antropologia para o estudo cultural é o método de observação participante, cuja técnica é também denominada de observação participativa. Consiste, resumidamente, em:
a) Definição de cenário de estudo e tema;
b) Registro de documentação já existente sobre o cenário ou tema de estudo (mapas, dados econômicos, gerais, estatísticos, dados públicos, particulares, pesquisas já realizadas, etc);
c) Desenvolvimento de pastas com os principais temas, observados, a serem estudados;
d) Registro dos fatos sociais através da observação participante desenvolvendo as seguintes atividades:
- descrição cartográfica da comunidade, habitações, lugares sagrados ou religiosos, públicos ou privado;
- descrição genealógica (parentesco);
- registro e descrição de entrevistas informais;
- registro através de fotos e/ou filmagens;
- registro de breves biografias;
- registro (e gravação) de mitos, lendas e contos;
- levantamento de dados estatísticos atualizados quanto à população.
e) A participação se dá através da preparação de um cenário para o estudo e compreensão de um fato social.
- escolher o fato social a ser estudado;
- planejar o momento e cenário quando se dará a observação;
- interagir com pessoas locais durante a observação do fato social a fim de recolher impressões, comentários e descrições;
- participar do fato social, quando possível e bem-vindo.

Comparando as descrições de Washington Matthews e Bourke pode-se perceber, em um exemplo isolado de análise antropológica, a fraqueza do método aplicado à divisão de clãs em sociedades totêmicas. Se por um lado Washington detalhou a criação de clãs entre os Navajo a partir de agremiações ao redor de um valor totêmico, Bourke encontrou criações de clãs por divisões funcionais. O método possui grave influência nas conclusões do estudo.

Evans-Pritchard nos fala a respeito do uso de máscaras. Apesar de ser um rito encontrado em diversas etnias com um mesmo pano de fundo religioso, animista por exemplo, as origens provam serem diversas e distintas. Alguns grupos utilizam máscaras a fim de enganar os espíritos quanto à identidade daqueles que as usam. Outros as utilizam personificando um espírito e desta forma o mascarado afugenta outros espíritos. Algumas máscaras são comemorativas e isentas de valor religioso, outras ainda puramente teatrais ou mitológicas. Desta forma podemos concluir que o método comparativo possui a fraqueza da generalização de valores. Fenômenos semelhantes possuem, em diversos casos, origens distintas e, portanto, trazem em si verdades distintas. Cada caso precisa ser analisado separadamente, unicamente, à procura do elemento factual ali presente.

Há diversos métodos historicamente usados para o estudo cultural que podemos dividir, em linhas gerais, em sistema adaptativo e teorias idealistas.

Sistema adaptativo e teorias idealistas

Kessing[3] é o promotor do sistema adaptativo no qual “as culturas são sistemas que servem para adaptar as comunidades humanas aos seus embasamentos biológicos... incluindo organização econômica, agrupamento social, organização política, crenças e práticas religiosas”. Neste sentido há uma tendência para descrever a cultura como a ferramenta usada pela sociedade para manter sua adaptação à natureza, isto é, ao ambiente no qual todos estão inseridos. Esta ferramenta compreende as concretas, físicas, mas também habilidades e formulários da organização.[4]

As chamadas teorias idealistas de cultura, por sua vez, se dividem em diferentes abordagens. A análise componencial é a primeira abordagem, também citada por Laburthe-Tolra e Warnier[5] sob este título, inspirado na lingüística americana e especialmente, segundo eles, na de Bloomfield, discípulo de Sapir. É vista como um sistema cognitivo, ou seja, a cultura é aqui o resultado de modelos criados pelos membros de uma comunidade a partir de seu próprio universo, isto é, a cultura é aprendida. Por exemplo, o padrão de beleza estabelecido. O belo pode ser o alto, ou o magro, ou o gordo. Assim, para Goodenough “cultura é um sistema de conhecimento e consiste em tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para apoderar de maneira aceitável dentro de sua sociedade”.[6] A idéia neste sentido é que a cultura pode ser limitada aos aspectos comunicativos e significativos da vida social. Mais recentemente, a influência de outras ciências cognitivamente orientadas, como a lingüística e psicologia “tendem conduzir a um interesse aumentado nas conexões entre a ‘sociedade’ e a ‘cultura’, entre o interativo-material e o cognitivo-emocional, entre o que os povos fazem e o que pensam e dizem sobre eles”.[7]

O problema que aqui podemos encontrar é que, se cultura for um fenômeno cognitivo estará no mesmo patamar da linguagem, que é aprendida e observável. Este método é falho porque nem tudo é aprendido. O sentido moral existente no homem de forma natural, mesmo sem ensino objetivo, há de existir e ser usado como critério para escolhas e decisões.
A segunda abordagem das teorias idealistas de cultura diz respeito aos sistemas estruturais, cujo promotor é Claude Lévi-Strauss, o qual define cultura como “um sistema simbólico que é a criação acumulativa da mente humana... mito, arte, parentesco e linguagem...”[8]. Ele aqui formula a teoria (amplamente aceita em seu momento no Brasil) da unidade psíquica da humanidade, o que explicaria os paralelismos culturais pois assim o pensamento humano estaria submetido a regras inconscientes, ou seja, um conjunto de princípios que controlam as manifestações empíricas de um grupo. “É antes de tudo um método de investigação daquilo que pode ser o objeto do discurso... consiste em construir um corpus (mitológico, por exemplo) tão completo quanto possível.”[9] Como exemplo podemos pensar nos termos deus em algumas etnias africanas com etnografias escritas que sugerem idéias comuns em povos que nunca poderiam ter se comunicado. No apêndice 2, quando citamos Amowia (O doador do sol) da cultura Ewe, percebe-se que este povo habita uma área frequentemente nublada (a margem do Volta) e o sol é um elemento necessário para as jornadas de pesca. Já Amosu (O doador da chuva) da cultural Frafra que habita o norte árido de Gana está ligado a necessidade do povo de água para o plantio e subsistência. Muitos outros termos para deus e deuses indicam a ligação entre a necessidade objetiva da sociedade e sua religião. Para Lévi-Strauss é a confirmação de uma união psíquica universal.

Sistema simbólico

O Sistema simbólico constitui a última abordagem, desenvolvido nos Estados Unidos da América, especialmente por Geertz e Schneider[10]. Assim, a cultura deve ser considerada “não um complexo de comportamentos concretos mas um conjunto de mecanismos de controle, planos, receitas, regras, instruções para governar o comportamento”[11]. Geertz explica que todo homem é geneticamente capaz para receber um programa, e este programa é a cultura, tornando-se assim uma teoria, semelhante neste aspecto a Lévi-Strauss, de unidade da espécie.

Para tal, Geertz afirma que “todos nós nascemos com o equipamento para vivermos mil vidas, mas ao fim vivemos apenas uma”,[12] ou seja, qualquer criança poderia se adaptar em 1.000 diferentes culturas se para isto dispusesse de tempo e espaço, mas gasta sua existência em uma fatalidade unitária. Para comprovar sua teoria ele afirma que todos nós sabemos o que fazer em determinadas situações, apesar de não sabermos prever o que iremos fazer. A cultura é, assim, um código de símbolos partilhados pelos membros de uma sociedade. Em outras palavras, no que mais nos interessa, o homem dispõe em si de elementos universais e comuns a todos.

Segue adiante, pois, o desenvolvimento de três roteiros. O primeiro de abordagem mais humana e social, que chamamos de Antropos. O segundo é o estudo do homem como ser religioso que chamamos de Pneumatos. O terceiro, Angelos, é o estudo da possibilidade de comunicação do Evangelho com base nas informações das outras duas abordagens. Nestas abordagens sempre agimos categorizando, com os pés no chão, e configurando-os através de perguntas compreensíveis.



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[1] Boas, Franz, Antropologia cultural, Op.Cit.
[2] The aims of anthropological research”, Science, N.S., vol 76. 1932
[3] Keesing, Roger, em seu artigo “Theories of Culture”, 1974
[4] Dicionário Online de Antropologia, Op.Cit.
[5]Laburthe-Tolra e Warnier, Op.Cit.
[6] Citado por Keesing em Theories of Culture, 1974
[7] Dicionário“Online” de Antropologia. Op.Cit.
[8] Lévi-Strauss, Claude.As estruturas elementares do parentesco – O intercâmbio restritivo. Petrópolis: Vozes, 1982.
[9]Laburthe-Tolra e Warnier, Op.Cit.
[10] Geertz, Clifford e Schneider, David.
[11] Laraia, Roque de Barros. Op cit.
[12] Geertz, Clifford. A Interpretações das culturas. Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1989

Última atualização em Seg, 06 de Abril de 2009 04:50

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