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Métodos Antropos

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O método Antropos é composto por 3 abordagens específicas. A primeira que veremos aqui recebe o mesmo nome (Antropos) e possui um foco mais etnográfico. A segunda abordagem chama-se Pneumatos e seu foco é fenomenológico. A terceira chama-se Angelos e possui um foco missiológico.

Veremos que esta primeira abordagem (Antropos) é uma abordagem de pesquisa que utiliza a etnografia em cerca de 70% de sua formulação, a etnologia em cerca de 20% e a fenomenologia em cerca de 10%.

Esta abordagem poderá guiá-lo através de uma pesquisa ordenada de assuntos, selecionados, que possuirão fortes implicações quando no momento da apresentação do evangelho em determinada cultura. No apêndice 2 você encontrará um método de pesquisa sociocultural direcionado especificamente para contextos urbanos. Chamamos tal método de pesquisa Urbanos.

Como ponto fraco, promoverá menos definições acadêmicas segmentadas, porém contribuirá para a compreensão geral do grupo ou fenômeno analisado e proverá instrumentos que poderão ser utilizados pelo acadêmico bem como pelo prático.

Optamos por estudar quatro dimensões para a compreensão de uma cultura, etnográfica e etnologicamente. As dimensões que analisaremos aqui são histórica, ética, étnica e fenomenológica.
A histórica tentará responder à pergunta: quem somos nós?
A ética tratará do questionamento: quais são nossos valores?
A étnica irá responder: como nos organizamos socialmente?
A fenomenológica tentará, de forma incipiente, nos guiar na pergunta: quais são as forças que dominam em nosso meio?

Antes de iniciar a aplicação desta abordagem sugiro que você escolha uma forma de registro (caderno, computador, diário ou outro). Trabalharemos, nestas três abordagens, com questionários direcionadores e a melhor forma de organizá-los é em formato digital em uma pasta de seu computador. Inicie preenchendo o seguinte cabeçalho:

ANTROPOS e PNEUMATOS

Questionário direcionador

Roteiro de pesquisa de identidade sociocultural
Grupo étnico ou segmento social:_______________________________
Família cultural e tronco lingüístico:_____________________________
_________________________________________________________
Localização central da pesquisa:_______________________________
_________________________________________________________
Pesquisador(es):____________________________________________
Consultor(es):______________________________________________
Data e local do início da pesquisa:______________________________
Data e local da presente consultoria (se aplicável):_________________
Instrumentos utilizados para a pesquisa:
( ) Gravador
( ) Computador
( ) Outros:________________________________________________
Nível de fluência lingüística do pesquisador (de 0 a 5) na língua primária do povo:______ Na língua secundária do povo:_______
Uso de intérprete para a coleta de dados? ( ) sim ( ) não
Nome do intérprete_________________________________________
Interação com o povo alvo: ( ) permanente ( ) parcial ( ) visitas
Tempo de interação com o povo alvo até o presente momento (em meses de permanência direta com o povo, em seu ambiente):_____________

Dimensão Histórica

Quando iniciamos nosso trabalho em uma etnia ou segmento social buscamos descobrir as repostas à perguntas chaves cujos elementos são universais. A pergunta que se levanta aqui é quem somos nós? Para respondê-la lançaremos mão de algumas abordagens, aplicáveis em qualquer cultura ou segmento.

Para a Antropologia o ser humano adapta-se a diferentes ambientes e situações a partir de respostas mais culturais do que genéticas. O homem é visto como homem, pela Antropologia, no momento em que a história é capaz de relatar sua capacidade de transmitir conhecimento, crença, lei, moral, costume a seus descendentes e aos seus vizinhos através do aprendizado. Vemos, assim, que a cultura participa da história do homem de tal forma intrínseca que o desenvolvimento da humanidade pode ser considerado o desenvolvimento cultural.

O aperfeiçoamento das ferramentas para subsistência como habitação, plantio, caça, pesca e proteção, além da família se estabelecendo em variadas formas no decorrer do tempo e nos espaços geográficos bem como as valorizações cada vez mais constantes do aspecto simbólico, as artes, a linguagem, os mitos, a religiosidade universal, “tudo isto criou para o homem um novo ambiente ao qual ele foi obrigado a adaptar-se”.
A dimensão histórica possui duas bases principais que aqui chamarei de historicidade cultural e origem universal.

Historicidade cultural – À procura da Persona Alfa

Nosso pressuposto é que os padrões de historicidade, ou seja, como certo grupo observa sua identidade e desenvolvimento, irá gerar a plataforma de compreensão de uma mensagem, qualquer mensagem. Desta forma proponho encontrarmos dois elementos culturais de enorme valor para a comunicação do evangelho de forma viável e inteligível: a Persona Alfa e o Ponto Alfa.

Olhamos para a historicidade cultural como uma área de estudo que tentará traçar a etnologia de um grupo ou segmento em termos de herança histórica que evidencia sua identidade. As áreas de estudo, de forma simplificada, seriam duas.

Inicialmente a identificação do primeiro ser humano, mitológico ou lendário, a quem se atribua a origem da humanidade ou do grupo em particular dentro da historicidade daquele povo. Procuramos aqui o Adão reconhecido por eles. Tenho percebido que este ser possui denominação em grande parte das culturas animistas da África e América do Sul. Nós o chamaremos de Persona Alfa e estudá-lo, dentro da cosmovisão do povo alvo é uma ponte para entendermos as concepções históricas e míticas do grupo quanto à criação, existência humana, propósito, pecado e esperança.

Em segundo lugar precisaremos identificar os descendentes e formação de famílias, clãs e grupos. Normalmente estes assuntos estão envoltos em mitologia e lendas lembrando que mitologias são artifícios literários e mentais para a documentação tradicional de um fato observado sob certa ótica e lendas são criações de eventos novos, não existentes, que guardam em si valores ou resquícios de verdades históricas. Sem conhecermos a cosmovisão de um povo sobre certo aspecto da vida teremos pouquíssima chance de conseguir comunicar um valor, qualquer valor, que lhes soe como crível ou viável. Com isto não estamos defendendo que os personagens e eventos mitológicos de um povo sejam utilizados no processo da evangelização mas sim que sejam observados e estudados a fim de compreendermos os padrões culturais que determinam o sentimento de existir naquele grupo. Sem a compreensão desta avenida, e trato da mesma (com utilização terminológica ou mesmo confronto axiomático), nossa mensagem permanecerá sempre alienígena e distante. Se na cosmovisão Konkomba Kinimbom é o espírito que destrói, podemos utilizar ou não este termo (e compreensão de identidade) para expormos Satanás ao ensinarmos o evangelho. Isto dependerá de um julgamento por critérios que narraremos mais a frente. O importante nesta altura, porém, é observarmos se nesta cultura, Konkomba, por exemplo, há o conceito de espírito destruidor (aquele que veio roubar, matar e destruir) o que nos indicará o grau de simplicidade ou complexidade para expormos este personagem de acordo com a Palavra para o grupo.

Se procurássemos a Persona Alfa entre os Bassaris do Togo encontraríamos Yunii, um ser mitológico e a quem se indica o título de primeiro Bassari, o qual vivia na região de Toran, o centro do universo para o grupo, pois é de onde Yunii veio. A mitologia que cerca Yunii é, portanto, de nosso interesse especialmente seu casamento com as filhas dos homens, impuras, cujos filhos formavam os binaan, primeiro clã Bassari, que até os dias de hoje ordenam as chefias comunitárias. Por causa deste conceito o pecado é percebido como residindo na mulher e sendo transmitido por ela. Crêem que o fracasso do homem reside em seu nascimento, de mulher, e seu casamento, com uma mulher.

Sem estas os homens não pecariam. E assim os Bassari crêem que qualquer motivo de acusação aos homens, devido a seus erros e pecados, é imerecida e injusta visto que nas mulheres reside a impureza. Os 12 principais personagens que são seguidos, em grau de importância, a Yunii, se revezam como guerreiros, heróis e grandes líderes. Seus nomes estão associados a totens, lendas e magia. Boa parte da religiosidade do povo se associa a estes 12, já que são o resumo do que um Bassari considera hoje um ancestral. Seus nomes são dados a fetiches, lugares sagrados e crianças que nascem de forma especial, a quem se crê ter recebido ajuda sobrenatural para nascer ou sobreviver. Cada clã, em particular, possui uma elaboração específica (apesar de muito semelhante à primeira vista) de rituais e cerimônias de nascimento, conservação de poder, transmissão de conhecimento, dispersão e construção de moradia e outros. Para nos atermos a um só exemplo o clã Nabii utiliza sangue de cabra para untar os umbrais das portas a fim de afugentar os espíritos de morte. Já o clã Natii utiliza sangue de aves pois na mitologia distante o reino de Keren, seu ancestral por ligação direta e fundador do clã (mesmo sendo um ser lendário, aparentemente) foi salvo por aves durante um conflito gerando assim uma ação totêmica e também um tabu.

Este estudo, sendo mais êmico, tentará, portanto, identificar a genealogia destes personagens que chamamos de Persona Alfa. A esta personalização estão ligados fatos muito relevantes para a comunicação da mensagem do Evangelho como a queda, dispersão, comunicação com Deus, desejo por reconciliação e expectativa da intervenção divina. O resultado não será válido no objetivo de gerar historicidade, repito, mas sim para compreendermos a forma como um povo se vê em termos de origem e perpetuação da sua espécie, dando-nos a avenida de acesso para uma comunicação que gere entendimento.

Origem universal – A procura do Ponto Alfa

Se na primeira abordagem procurávamos o primeiro ser criado ou surgido, a Persona Alfa, procuramos agora o conceito histórico ou mitológico no grupo para o criador ou força criadora. A origem universal do homem está intrinsecamente ligada à sua religiosidade, também universal e atemporal: “Um certo racionalismo anuncia periodicamente o enfraquecimento de toda a religião, sendo ela tida como ligada à ignorância ou ao sentimentalismo. Mas Durkheim, Weber e Malinowski foram unânimes em pensar que a dimensão religiosa é característica de todas as sociedades passadas, presentes e futuras[1]”.

A tentativa aqui é encontrar um ponto na história, relatada ou mitológica do grupo, quando este crê ter sido sua origem primordial. O momento, fato, pessoa, força, que deu origem à vida humana e universo, associada ao seu grupo ou segmento. Podemos chamar este momento de Ponto Alfa, seja uma pessoa, força ou evento iniciador da criação.

O elemento que procuramos aqui é de fato criacionista. Nas culturas aonde este Ponto Alfa não vem associado a um ser (com nome e história) freqüentemente está ligado a uma força, um momento ou uma conseqüência. Entre os Chakalis no norte de Gana o Ponto Alfa é uma força. Eles a chamam de sutra e freqüentemente se diz que “quando sutra se manifestou todos os insetos daquela parte da terra se transformaram em seres pensantes e começaram a se casar[2]”. A manifestação de sutra foi, aparentemente, única, transformadora e de criação. Sutra não é personificado. É força impessoal, não manipulável e não repetitiva.

Um exemplo de como a Persona Alfa pode nos ajudar a elucidar o Ponto Alfa pode ser observado na cultural Konkomba. A Persona Alfa Konkomba chama-se upapajar, que de fato é um termo genérico e não um nome pessoal, que foi o primeiro homem Konkomba na mitologia da tribo. Ele morava em um lugar muito bonito com sua família. Neste ponto citam a força criadora, Uwumbor, de maneira personificada pois possuía vontade e se comunicava. Este Uwumbor criou a família a partir de upapajar e para alimentá-la, criou também o pacham, que é o céu, azul, acima das nossas cabeças. Este pacham era feito de carne e se posicionava bem baixo, tocando as copas das grandes árvores, de sorte que upapajar podia subir em uma árvore e cortar um pedaço do pacham para cozinhar e alimentar sua família. Era delicioso. Todo dia subia e cortava a carne, trazia, cozinhava para sua família e comiam, sempre agradecendo a Uwumbor por ela. Havia, porém, uma exigência. Que não retirassem do pacham mais do que poderiam usar para um dia. Não poderia haver desperdício. Mas upapajar com muita ganância – até hoje um dos piores erros para os Komkombas é a ganância – subiu certo dia e cortou muito do céu, trazendo e cozinhando muito além do que poderiam comer naquele dia. A carne sobrou em abundância e se estragou.

Uwumbor, decepcionado com upapajar se entristeceu, foi embora e levou consigo o pacham (por isto o céu, azul, é hoje tão alto e distante...) e ninguém mais o viu. Todo o conceito de erro e relacionamento com o divino entre os Konkombas se fundamenta, inicialmente, nesta narrativa. Observá-la nos dá não somente compreensão da cosmovisão do grupo mas também nos ajudará na construção da avenida para uma boa comunicação do evangelho.

O Yunii Bassari, primeiro ser humano existente; a Sutra Chakali, força transformadora que criou o povo; o Uwumbor Konkomba, deus pessoal que se distanciou; dão-nos os elementos iniciais para percebermos o conceito de religiosidade no grupo observado. Enquanto nossa história escrita e ensinada, brasileira, nos indica quem somos e no que devemos crer, de forma semelhante os grupos com os quais trabalharemos tem seu pensamento coletivo de identidade, verdade, religiosidade e sentido de vida definido a partir de seus contos, mitos, lendas e convicções. Entendê-los é o primeiro passo para a comunicação.

O Ponto Alfa, portanto, remete-nos à origem e à força motivadora da origem da vida. Devemos entender que diversas culturas possuem apenas fragmentos deste Ponto Alfa ou o vêem de maneira disforme, incompleta. Muito frequentemente é o necessário para algumas conclusões importantes para nossa comunicação e evangelização.

É Importante repetir que ao observarmos o Ponto Alfa e Persona Alfa em certo grupo, estes não são necessariamente os elementos a serem utilizados para comunicarmos a criação e o Criador. Poderíamos provocar um prejuízo irreparável oferecendo menos que a Palavra. Muito freqüentemente, a compreensão da cosmovisão do povo em relação a este Ponto Alfa e Persona Alfa contribuem para o contrário: evitarmos tais termos na comunicação do evangelho, explicando de forma clara que não há associação direta entre a narrativa bíblica e a narrativa histórica ou mitológica que conhecem. Na evangelização do povo Bassari seria temerário e desconstrutivo a utilização de sutra para representar ou mesmo explicar Deus. Rapidamente um Bassari passaria a identificar Deus como uma força impessoal, desconhecida, que não se repete, portanto distante, e que não se relaciona. Da mesma forma vemos que a ausência do estudo e observação da Persona e Ponto Alfa tem permitido que muitos processos evangelísticos naufraguem em narrativas sincréticas onde o termo utilizado para Deus refere-se, naquela cultura, a um ser freqüentemente aético, não confiável, de relacionamento duvidoso com o homem. A utilização de um termo equivocado e tentativa de sua definição se equivaleria a mostrarmos para um executivo um notebook tentando, após isto, convencê-lo de que, de fato, se trata de outro objeto. O simbolismo determina boa parte da comunicação e assim precisamos observar, estudar, compreender com que símbolos estamos lidando, antes de lhes apresentar a narrativa bíblica.

Questionário direcionador

Persona Alfa (o primeiro criado, pessoa ou grupo)

1. É definida de forma clara na comunidade?
2. Há narrativas, contos, lendas e registro mitológico?
3. É um indivíduo ou uma comunidade?
4. É humano ou espírito?
5. Gerou descendência humana?
6. É um ser moralmente definido? Ético ou aético[3]?
7. Descreva a Persona Alfa a partir das cosmogonias, antropogonias e mitos.

Ponto Alfa (o criador / força criadora ou o momento da criação)

8. É pessoal ou impessoal?
9. Qual o seu nome? (genérico ou particular)
10. Há apelidos ou expressões que o definam?
11. Há presença de teofanias e hierofanias ?
12. Onde habita?
13. Quais são suas características?
14. É possível descrever sua origem?
15. Possui atributos divinos?
16. É presente ou ausente?
17. Interage com a humanidade/comunidade?
18. Exerce controle sobre o ambiente e as pessoas?
19. Qual sua função social?
Controlador
Controlador adorado
Observador
Não participante
Orientador
Gerador de segurança social ou cosmológica
Outra função
20. Se ausente, quais foram as causas desse afastamento?
Há narrativas?

Há conceituação comunitária? É um fato ainda ‘sentido’?
21. Há alguma expectativa de restauração de relacionamento?
22. Na cosmologia do grupo estudado, onde o Ponto Alfa se localiza ou habita? Descreva ou aponte.
No além
No aquém
Transitando entre os dois mundos
Relacionando-se no além e aquém
Neste caso, apontar com quem e quais suas funções.
Possui função social presente
23. Descreva o “Ponto Alfa” a partir das cosmogonias, mitos e compreensão de mana – entidade ou força controladora do universo.
24. Descreva outros personagens que com ele interagem, como esposas, filhos e amigos, e registre a narrativa relacional com os mesmos.
25. Se pessoal, é percebido como um ser ético ou aético? Confiável? Associado a que atributos?

Dimensão ética

Relembremos que Antropos é baseado em quatro dimensões: histórica, ética, étnica e fenomenológica. Após termos visto os elementos de pesquisa e estudo na dimensão histórica passemos à ética.

Se na dimensão histórica foi levantada a pergunta quem somos nós?, por sua vez, tratando da ética, do homem e seus valores culturais, a pergunta que levantaremos agora será: como nós pensamos? Ou ainda, quais são nossos valores? E buscamos este pensar humano gerador (ou receptor) de valores culturais como pecado, perdão, comunicação, normas de agrupamento e dispersão e coisas afins.

Todo agrupamento e sociedade humana possuem valores e normas o que, de maneira geral, associamos à moral. Mauss já enfatizava que a moral pré-existente na consciência humana desabrocha em valores semelhantes e normas semelhantes em diversas gerações e agrupamentos.

Ou seja, por sermos seres morais e unidos por uma historicidade cultural, mesma origem, desenvolvemos valores parecidos e universais. Isto poderia ser facilmente comprovado através de um estudo de caso quando isolamos um valor, por exemplo, a sensualidade. Ela é condenada em praticamente todas as culturas em suas diferentes formas quando ultrapassa o que aquela sociedade considera tolerável. Mesmo estando sempre ligada a partes do corpo humano, danças, roupas e atitudes, sua manifestação é distinta de grupo a grupo (o que é sensual no Brasil não o é necessariamente em Gana), porém seu valor é uno e por ser assim a sensualidade cria tabus e tolerâncias muito semelhantes em diferentes sociedades e épocas. O Museu do Cairo, por exemplo, apresentou em 1979 uma galeria de roupas, adornos e cosméticos dedicados à produção de sensualidade em moças egípcias durante mais de 20 gerações. Apesar de experimentarmos certos valores de forma adaptada ao nosso contexto e ambiente, tais valores nos unem e nos tornam socialmente semelhantes.

É preciso pontuar, nesta altura, que apesar do homem ser um ser moral, a expressão de sua moralidade se baseia na conjuntura de suas crenças e práticas e grupos distintos possuem diferentes crenças e práticas. Ao falar sobre “totemismo” exporei mais a respeito, porém é saudável mantermos em mente que a investigação da fonte da vida, ou seja, aquilo ou aquele que gera e mantém a vida, é capítulo fundamental para nossa compreensão da expressão de moralidade do grupo observado. Partindo dos efeitos para a causa, em um exercício regressivo, normalmente sugiro que se identifique, no grupo estudado, duas pessoas que simbolizam ou apresentam virtudes e defeitos. Chamaremos tais figuras de “X” e “Y”. Pode-se produzir, assim, uma lista comparativa de virtudes e defeitos aceitos e experimentados pelo grupo na cosmovisão do próprio grupo.

Há de se perceber, portanto, que a moralidade humana bem como sua concepção cultural de certo e errado, virtudes e defeitos, está intrinsecamente ligada à sua crença em relação à fonte da vida. Tenho percebido que grupos com menores definições pessoais ligadas à criação (personificação do criador) tendem a possuir uma concepção moral menos dicotômicas, ou seja, com menos expressões éticas quanto a virtudes e defeitos. Este assunto (totêmico, de fato) está inteiramente relacionado à magia e mitologia. Por este motivo é seguro sempre tratarmos destes três assuntos em conjunto, o que faremos em um capítulo posterior. Neste momento, porém, gostaria já de introduzir parte da hipótese, de que grupos, que aqui chamarei de “mágicos” (manipuladores de elementos impessoais) tendem a vivenciar uma moralidade menos dogmática e dicotômica do que grupos que chamarei de “espiritualistas”, cujo universo é criado e regido por seres pessoais, mantenedores da vida. Por este motivo vários pesquisadores perceberão que, no estudo da cultura alvo, grupos cuja mitologia aponta para a força da vida como elemento criador e mantenedor da existência, tais grupos quase sempre serão também “mágicos”, com centralidade social em grupos domésticos menores, forte característica individualista e existenciais.

A Dimensão Ética se divide em Culturalidade e Reguladores sociais, que por sua vez possuem algumas áreas de estudo que abordaremos.
Culturalidade – em busca das heranças que determinam o pensamento.
Utilizo o termo culturalidade quando me refiro à teia de comportamentos mentais que fazem uma sociedade distinta da outra. Isto envolve língua, costumes, valores, música, símbolos e tudo o que os cerca como fruto da sua forma única de pensar.

Neste ponto precisamos identificar as heranças culturais que determinam a forma como pensamos. Se pudesse categorizá-las, a fim de facilitar o estudo e pesquisa, eu nomearia três abordagens determinantes: as heranças culturais de agrupamento e dispersão, as de relacionamento interpessoal e as de religiosidade.

Heranças culturais de agrupamento

As primeiras, as heranças culturais de agrupamento, são os elementos passados de pais para filhos que determinam como nos agrupamos, como construímos nossas casas e comunidades e também quais as razões que justificam a dispersão. Neste aspecto precisaríamos definir, em um estudo de caso de uma comunidade específica, aspectos como familiaridade, regras de parentesco, ancestralidade e ajuntamento, leis de dispersão e tabus de dispersão. É necessário todo cuidado para que as perguntas sejam feitas de forma correta. A familiaridade com o grupo pesquisado é muito importante. O questionário direcionador proverá os principais elementos que eu destacaria para podermos estudar, compreender e registrar as heranças culturais de agrupamento.

Sugiro que você siga as perguntas e as descreva em registros que possam cooperar para sua compreensão das forças e motivações do grupo para se ajuntar ou se dispersar. Estes são fatores importantes para compreendermos quem eles são, como pensam e, portanto, quais são seus valores individuais e comunais.

Questionário direcionador:

26. Como constroem suas casas e comunidades?
Família nuclear
Família estendida
Casas comunais
Por ajuntamento clânico
27. Qual é o tipo de comunidade?
Monocultural
Multicultural
Monolinguistica
Bilíngüe
Hierarquizada
Acéfala
28. Qual é o padrão de formação das residências na comunidade?
Centralizada em uma casa comunal
Centralizada em um símbolo religioso
Descentralizada
Dividida em pequenas áreas com ajuntamento clânico
Próxima a centros de subsistência (roças, rios, matas)
29. Quais as razões para ajuntamento ou dispersão?
Familiaridade?
Parentesco?
Ancestralidade?
Normas legais?
Tabus?
Desavenças?
Casamento?
Proteção?

Heranças de relacionamento

Em segundo lugar, as heranças de relacionamento interpessoal são os elementos passados de pais para filhos que determinam como nos relacionamos com o próximo, com o distante e com o desconhecido. Normalmente precisamos aqui identificar as hierarquias humanas e suas aplicações. O sentimento de pertencer a um grupo, segmento, clã ou família, é definidor de nossa identidade. Este pertencer determina com quem nos identificamos, como pensamos e os padrões sociais de comportamento. Portanto, após observarmos as heranças de agrupamento estudaremos aqui as heranças de relacionamento.

No universo Konkomba, por exemplo, há diversas categorias humanas que são regidas, cada uma, de acordo com regras rígidas não escritas. Dentro dos Bikpakpaln (gente) estão apenas os próprios Konkombas. Os Bikalba (outras tribos) e Bikalja (homens brancos) não povoam de fato o universo dos relacionamentos. Esta é uma boa introdução ao fato. Dentro daqueles que povoam este universo, os Bikpakpaln, há os Ntetiib que são parentes de sangue a quem se perdoa quase tudo. Seriam pessoas do mesmo clã. Os Nnatiib são clãs próximos, associados, debaixo de uma mesma tribo entretanto não próximos o suficiente para que lhes seja permitido matar sem ser morto, roubar sem ser exposto vergonhosamente a todos. Não guerreiam juntos. Os Nkratiib são clãs de tribos distantes, sem base de relacionamento histórico. A estes as regras são aplicadas ao pé da letra. Lembro-me certa vez, na aldeia de Nabukorá, quando um homem, sem intenção, feriu a outro. Centenas de homens, de outras aldeias, se armaram para a peleja e pretendiam dizimar toda Nabukorá. O motivo estava no fato de que o homem ferido pertencia a um clã distante naquela aldeia possuindo seus Ntetiib (parentes de sangue) em comunidades ao redor. Era preciso fazer algo para demonstrar o grau de lealdade e de força social.

Estas relações interpessoais, que veremos com mais propriedade à frente, determinam a comunicação da mensagem em diversos pontos. Para apresentarmos Jesus, por exemplo, é preciso primeiramente compreender o grupo com o qual convivemos e seus paradigmas de relacionamento. Se Cristo fosse, por exemplo, apresentado aos Konkombas como Nkratiib toda a base relacional do evangelho estaria ameaçada naquele processo de comunicação.
O estudo do parentesco é parte importante das heranças de relacionamento. Este é um dos assuntos mais estudados na antropologia, e necessário para a construção de uma boa etnografia.

A antropologia predefine certos símbolos e métodos para o estudo e apresentação do estudo do parentesco, que precisamos observar.

- Um triângulo (D) indica um parente masculino
- Um círculo (O) indica um parente feminino
- Traços paralelos indicam casamento (=)
- Um traço vertical resumido indica filiação (½)
- Um traço horizontal indica irmandade ( )
- Um círculo cortado indica um parente morto (Æ)
- Gerações ascendentes ao ego são (-1)
- Gerações descendentes ao ego são (+1)
- Gerações paralelas ao ego são (0)
A antropologia sugere os seguintes passos para o registro da genealogia em um determinado segmento social
- Definição de uma pessoa que há de representar o grupo (ego)
- Definição da outra pessoa a quem o ego se refere (alter)
- Termos de tratamento e de referencia que o ego usa ao tratar do alter.

A seguir registraremos um diagrama de parentesco entre Marcos e Maria, em um casamento monogâmico, tendo dois filhos, Lucas e Júlio e uma filha, Rose, sendo que o segundo filho, Júlio, (ego) torna-se iniciador de um novo núcleo familiar ao se casar (de forma polígama) com Rute e Tereza, tendo também um filho, Mariano e uma filha, Suzana. As linhas marcadoras de irmandade são superiores aos símbolos, e o ego é marcado com cor mais escura.

As linhagens são definidas através da descrição de um numero expressivo de gerações, incluindo antepassados e descendentes, sendo que em uma linhagem a descendência se da sempre através do sexo masculino. Quando o controle social se dá do sexo masculino para o sexo masculino chama-se patrilinear ou agnato, e do sexo feminino para o sexo feminino matrilinear ou uterino. Entre os Konkombas de Gana as linhagens formavam clãs, que por sua vez se ajuntavam por consangüinidade e totemismo. Também os mitos podem ser fatores de ajuntamento clânico.

Os clãs não são formados, necessariamente, por parentesco consangüíneo, podendo ser formados por parentesco mitológico ou totêmico. Ou seja, são uma aglomeração de linhagens. É possível afirmar que certos indivíduos possuem o mesmo ancestral, em tempo recuado, e mesmo sem laços de consangüinidade, dividirem a mesma linhagem através da participação clânica. Os clãs são freqüentemente exogâmicos, o que lhes dá o perfil de subsistência.

Norte-americanos freqüentemente utilizam a expressão sib significando clã, ou, de forma mais restrita, a utilizam para um agrupamento de até três linhagens, enquanto clã seria um agrupamento maior, formado por indivíduos que se relacionam ao redor de um mesmo ancestral, ou totem, compartilhando assim a mesma residência. No estudo etnográfico entre os Chakali de Costa do Marfim utilizamos a expressão sib para contrastar com clãs sendo que o primeiro era uma formação menor, puramente consangüínea, enquanto o segundo partilhava a terra, atividades, território e parentesco mitológico.

As fratrias são agrupamentos de dois ou mais clãs. Portanto as linhagens formam os clãs, os clãs formam as fratrias e duas fratrias que partilham do mesmo cenário de vida podem formar uma metade, termo utilizado para designar tal fato de ajuntamento de dois clãs.

Os primos cruzados são parentes do ego através dos irmãos da mãe e das irmãs do pai. Ou seja, eles são filhos dos irmãos da mãe e filhos dos irmãos do pai.

Os primos paralelos são parentes do ego através das irmãs da mãe e dos irmãos do pai. Ou seja, eles são filhos dos irmãos do pai e filhos das irmãs da mãe.

Sistemas de parentesco também podem levar em consideração a idade de cada membro da família, constituindo-o em uma função familiar distinta. Os Konkombas de Gana, por exemplo, utilizam as funções irmãos, irmãos mais novos, irmãos novos, ultimo irmão; e irmãos, irmãos mais velhos, irmãos velhos e primeiro irmão para representar a categoria de parentesco entre os irmãos.

O questionário a seguir o guiará no estudo e registro das heranças de relacionamento no grupo observado.

Questionário direcionador

30. Qual é o tipo de formação familiar?
Nuclear
Estendida
Clânica
Comunitária homogênea
Patrilinear
Matrilinear
Patriarcal
Matriarcal
Exógama
Endogâmica
Monogâmica
Polígama
31. Descreva a comunidade, grupo ou povo alvo, em termos de organização social, atividades rotineiras diárias e atividades cíclicas.
32. Qual é o sistema de alimentação e distribuição da comida?
Família nuclear?
Família extensa?
Alimentação coletiva?
Há excluídos? Descreva os processos de exclusão.
33. Quais as regras de parentesco e nomenclaturas na família menor?
Patriarca/pai; Matriarca/mãe:
Seu irmão consangüíneo por parte de pai e mãe:
Seu irmão consangüíneo por parte de pai (sistema polígamo):
Sua irmã consangüínea por parte de pai e mãe:
Sua irmã consangüínea por parte de pai:
Sua esposa (primeira, ou maior):
Sua esposa (segunda, ou menor):
Outras esposas:
Filhos por parte da primeira esposa:
Filhas por parte da primeira esposa:
Filhos e filhas por parte da segunda ou outras esposas:
Esposa do seu irmão por parte de pai e mãe, ou pai ou mãe:
Esposo de sua irmã por parte de pai e mãe ,ou pai ou mãe:
Filhos de seu irmão por parte de pai e mãe, ou pai e mãe:
Filhos de sua irmã por parte de pai e mãe, ou pai e mãe:
34. Quais são as regras de parentesco e nomenclatura na família maior?
Graus de parentesco entre primos: 1o, 2o e 3o grau:
Relacionamentos clânicos (irmandade comunitária) :
Exceções de parentesco: distinguindo a linha divisória entre familiares e outros.
35. Quais são as regras e padrões para o funcionamento desse padrão familiar?
Direitos e deveres entre marido e esposa
Direitos e deveres entre pais e filhos
Direitos e deveres entre irmãos e irmãs
Direitos e deveres entre avós e netos
Direitos e deveres entre tios e sobrinhos
36. Regras de parentesco que propiciam ou limitam o casamento
37. O que acontece, e quais são os motivos, quando há ruptura no casamento?
38. A quem pertence as crianças?
39. A quem pertence a moradia?
40. Qual o destino do marido e esposa?
41. Há tabus observados na separação?
42. Há um marcador cultural para a oficialização da separação?
43. Como se relacionam com os não aparentados?
Com outros membros da própria comunidade
Com membros de outros clãs, sibs ou fratrias
Com outros grupos étnicos
44. Liste o que seria censurado na comunidade observada.
45. Quais são os padrões éticos e morais observados?
46. Quais são os perigos de um relacionamento inadequado?
47. Quais são as conseqüências na quebra dos padrões éticos e morais nesses relacionamentos? Há prática de infanticídio? Quais as causas para o mesmo?
48. Há tabus observados nesses relacionamentos?
49. Qual é a base de divisão de trabalho? (caça, pesca, coleta, agricultura, cozinha e etc.)
50. Quem trabalha conjuntamente?
Homens
Mulheres
Comunidade (em que ocasiões)
Parentes
Vizinhos
51. Há pessoas ou grupos excluídos?
52. O que determina os grupos de trabalho?
Parentesco
Sexo
Hierarquia
Casta
53. Descreva estas heranças de relacionamento a partir do estudo de caso de uma família (estendida ou nuclear) nomeando os personagens, suas interações e as devidas aplicabilidades das categorias sugeridas. Simbolize com diagramas.

Heranças de religiosidade

Em terceiro lugar, as heranças de religiosidade são os elementos passados de pais para filhos a fim de unir o homem ao divino. Entretanto, em meio à teia de religiosidade visível ou invisível de certa cultura, facilmente somos levados a nos perder em fatos menores. Aqui, o importante é a definição dos elementos imprescindíveis de religiosidade que os pais ensinam aos filhos, sem os quais não se pode viver.

Deveremos descobrir se há relação entre a Persona e Ponto Alfa e o povo e este trabalho será desenvolvido a partir de diversas fontes como canções, narrativas e histórias contadas aos filhos.

Temos aqui a intenção de levá-lo a estudar apenas o esboço geral destas heranças de religiosidade. No capítulo fenomenológico nos aprofundaremos mais. Encontraremos centenas de abordagens, além destas resumidamente citadas, que são ricas do ponto de vista antropológico, mas que não nos interessam diretamente no momento. Pesquisando estas heranças, nos três grupos dados, vamos ao âmago da nossa necessidade e estaremos compreendendo que valores definem e guiam o povo.

Questionário direcionador

54. Há deus (ou deuses ou heróis)?
55. Qual seu nome?
56. Qual sua origem?
57. Qual sua Habitação?
58. Quais suas características (atributos)?
59. Qual sua relação com a sociedade?
60. Pode ser manipulado?
61. O que busca a religiosidade?
Facilitar a vida?
Evitar a má sorte ou maus espíritos?
Enfrentar o medo?
Agradar a um deus e/ou espíritos?
62. Há pecado (erros individuais, sociais ou espirituais)?
63. Que ações são reprovadas pela sociedade?
64. Que ações são mais reprovadas e não toleradas?
65. Os seres espirituais se ofendem com a pratica do erro?
66. O universo se ofende com a pratica do erro? Há conseqüências?
67. Quais as principais conseqüências para o erro?
Com o indivíduo
Na comunidade
No aquém e no além
Gera má sorte?
Vergonha?
Há forma de remediar tais efeitos?
68. Há pessoas que não erram?
69. Há condenação? Temporária ou permanente?
70. Há alguma forma de punição espiritual para os erros cometidos?
71. Quem executa essa punição?
72. Onde a punição é aplicada?
73. Como é aplicada?
74. Há perdão?
75. Há expiação para o erro cometido? Temporária ou permanente?
76. Qual o processo de expiação?
Cerimônia e rituais?
Penitências?
Confissões?
77. Há salvação? (pessoal ou comunal)
78. Há maneiras de se libertar definitivamente das conseqüências dos erros cometidos?
79. Há maneiras de restaurar o relacionamento quebrado com os seres espirituais ofendidos?
80. Onde e quando poderá ocorrer essa libertação?
81. Há busca pela pureza (santidade)?
82. Quais são os principais padrões morais, éticos e religiosos que regem suas vidas?
83. Quais são as atitudes que enaltecem as pessoas?
84. Quais são as atitudes que agradam os seres espirituais?
85. Quais são os benefícios de uma vida pura?
(Esses conceitos poderão ser encontrados nos mitos, nas cerimônias e ritos, e nos tabus observados, além de manifestação totêmica)
86. Quais são as principais inquietações do povo?
87. Quais os principais conflitos da vida diária?
88. Qual a maior fonte de medo?
89. O que é feito para amenizar o medo?
90. Se benzimento, ou processo mágico, quem o realiza?
91. Há manipulação de elementos naturais? (magia)
92. Há manipulação de elementos naturais para ajuda? (magia branca)
93. Há manipulação de elementos naturais para destruição? (magia negra)
94. Há uso de amuleto e talismãs?
95. Há rituais?
96. Quais são as práticas religiosas formais dessa comunidade?
Ritos
Cerimônias
Processos de invocação
Processos de adoração
Magia

Reguladores sociais

Os Elementos Universais são os traços que aparecem em todas as culturas que englobam idéias, hábitos, reações emotivas condicionadas como raiva quando é atacado, alegria com o recebimento de presentes ou tristeza por ocasião da perda; ou comportamentos que são compartilhados por toda a sociedade de determinada cultura, como o aperto de mão entre os ocidentais. Quais são as soluções desenvolvidas pelo grupo estudado para elementos universais como fome, tristeza, humilhação, perda? Quais são suas reações para alegria e ganho?

As Especialidades são os atos realizados por apenas determinado grupo da sociedade, como por exemplo a assistência médica, construção de habitação, assessoria a alguma atividade específica, plantio, caça e outros. Desta forma é possível categorizar tendo em mente, por exemplo, quem realiza ou coordena algumas atividades específicas como caçar, plantar, fazer farinha, disciplinar a criança e etc.

As Alternativas são costumes que podem ser aceitos voluntariamente, como optar por andar de bicicleta ou a cavalo. Envolve normalmente aprendizado e iniciativa. Creio ser relevante observarmos a presença ou não das alternativas no grupo estudado, como sinal de abertura para o novo.

As Peculiaridades individuais ficam além dos limites do grupo e constituem as características particulares de cada pessoa. São aquelas que se destacam (positiva ou negativamente) no grupo pela diferenciação de padrão, seja comportamental ou de idéias.

Observando os agrupamentos humanos podemos também identificar seus elementos reguladores sociais. Vale aqui montar uma pequena explicação. Pensemos em uma escala vertical onde, no topo, encontramos os grupos regulados socialmente pelas leis. São grupos com regulamentos sociais rígidos, que demandam normalmente uma organização formal e não raramente registrada (seja verbal – por narrativas - ou escrita) do seu conjunto de leis. A quebra destas leis é realizada a partir de desagravos sociais ou, dependendo do assunto em pauta, provoca o tabu. O tabu é a crença de que algo, ao ser contrariado ou não cumprido, provocará punição, seja individual ou coletiva, objetiva ou subjetiva. Imaginemos agora que nesta escala vertical (no topo temos os grupos regulados socialmente por leis) vemos logo abaixo outros grupos humanos, regulados socialmente por normas, hábitos e costumes e na parte inferior, pela tradição. Os grupos regulados socialmente pela tradição são os mais flexíveis, com menos rigidez e demanda do cumprimento das normas sociais. São aqueles em que, apesar da existência de tabus, as normas e orientações sociais são quebradas de forma mais constante.

Se uma mulher não pode banhar-se no rio após dar a luz, em determinado grupo, se sua sociedade for regulada por leis e tal procedimento ali se enquadrar, é possível que tal norma seja muito mais cumprida do que nos grupos regulados pela tradição. Os tabus, assim, possuem sua intensidade definida pela escala de regulamentos sociais de um grupo. Obviamente este assunto está diretamente ligado ao perfil coletivo do grupo (mais comunitário, mais individualista, se totêmico e etc.) porém gostaria de destacar que é relevante observar que as leis, normas, hábitos, costumes e tradições definem a forma como um grupo identifica seu papel no universo, sua interação com ele e as conseqüências de cumprir ou não o que lhe é exigido. Percebo que os grupos mais informais, com tabus em constante quebra, marcados pelo individualismo (normalmente grupos nômades e minoritários) constituem, nesta categorização, um padrão cultural por vezes resistente à compreensão de certos valores cristãos. Porém sobre isto falaremos mais adiante.

Leis são regras de comportamento formuladas deliberadamente e impostas por uma autoridade especial e de obediência obrigatória. Muitas vezes impõem o padrões que já eram aceitos pela sociedade não organizada de maneira formal. Tais leis são normalmente registradas e comunicadas, como a velocidade máxima em determinadas avenidas.

Normas são expectativas não obrigatórias de comportamento social, coletivos, espontaneamente aceitos por todos como as convenções, formas de etiquetas. É também um caminho bom para entender como o povo pensa. Um exemplo seria agradecer após receber um presente ou não falar enquanto come, com a boca cheia.

Padrões são expectativas moralmente sancionadas com vigor pela sociedade. Desobedecer aos padrões provoca desaprovação moral. Por exemplo: enterro dos mortos, cuidado das crianças, patriotismo, monogamia, uso de roupas e outros.

Hábitos, costumes e tradição são atividades valorizadas pelo grupo e reproduzidas a partir desta motivação comunitária. Normalmente é aprendida formal e informalmente, transmitida no núcleo familiar bem como na comunidade em seu dia a dia, e é associada à identidade do grupo. Nesta categoria encontraremos as músicas, danças, expressões coletivas de alegria e tristeza bem como toda uma cadeia comportamental que regula o pertencer social, o que é aceitável ou não.
Os hábitos são regras sociais mais definidas pelo indivíduo, ou seja, a partir de suas decisões, escolhas e conveniência. Os costumes são regras sociais definidas pelo grupo, porém dinâmicas e sempre sujeitas a reavaliação constante. As tradições são regras sociais históricas, mais estáticas.

Surge aqui a questão dos pensamentos progressivos, ou seja, valores que desenvolvemos enquanto expostos a novas situações e contextos, não necessariamente passados pelos nossos pais ou pelo grupo. Leiamos Bonhoeffer: Em Lugar de Deus, o ser humano enxerga a si mesmo. ‘E abriram-se-lhes os olhos’ (Gn 3.7). O ser humano se reconhece em sua desunião em relação a Deus e ao semelhante. Reconhece que está nu. Sem a proteção, sem a cobertura que Deus e o outro significam, ele se sente exposto. Nasce o pudor. É a indestrutível lembrança do ser humano da sua separação da origem, é a dor decorrente desta separação e o desejo impotente de desfazê-la. O ser humano se envergonha porque perdeu algo que faz parte de sua essência original e de sua integridade. Tem vergonha de sua nudez.[4]

A ética é, portanto, vista aqui a partir de um processo mental, individual ou coletivo, atemporal. Devemos compreender que as leis, normas, hábitos e costumes, bem como a tradição não são escalas que elaboram o pensamento humano. Pelo contrário, são o resultado deste pensar. A ética humana se manifesta nas mais diversas formas de regulamentos sociais. Chama, porém, nossa atenção a existência desta ética a partir de valores universais, apesar da intensa diversidade étnica e cultural no mundo.

Questionário direcionador

97. A música é utilizada nas práticas diárias?
98. A música é utilizada nas práticas cerimoniais?
99. Há distinção de música sacra e profana (religiosa e secular)?
100. Quem compõe letras e músicas?
101. Quem executa certos tipos de música?
102. Há restrições no uso de algumas músicas?
103. Quais os critérios? Quem os ordena?
104. Quais são os instrumentos usados?
105. Há distinção entre instrumentos sacros e profanos?
106. Há tabu no uso de alguns instrumentos?
107. Quais são os tipos de dança praticada pela comunidade?
108. Como dançam (individual, em pares, em fila, divididos por sexo)?
109. Descreva um ato de dança comunitária (ou individual)
110. Qual é a função da dança no grupo?
Religiosa?
Social?
Sexual?
111. Quais são os tipos de roupa e ornamento usados pelo povo? Há claras funções nesses elementos?
Estética?
Pudor?
Proteção (física e espiritual) – talismã, amuleto?
Magia?
112. Tradição - Como os padrões culturais são transmitidos, em que ambiente e horário?
113. Informalmente ou formalmente? Qual o canal de comunicação utilizado? Observação, contos, narrativas, escritos?
114. Quem os transmite e em que situações?
115. São transmitidos hierarquicamente? Por parentesco?
116. Como se dá o processo?
117. É individual ou coletivo?
118. Descreva uma reunião de grupo, segmento, clã ou comunidade, em que ocorra algum processo de transmissão de conhecimento, decisão ou discussão de assunto de relevância comunitária.
119. Como as pessoas são levadas a participar do processo de discussão e decisão?
120. Há discussão coletiva de problemas da vida e problemas pessoais?
121. Há recompensas e penalidades sociais para os conflitos pessoais?
122. Há recompensas e penalidades religiosas para conflitos pessoais?
123. Há processos de disciplina coletiva?
124. Descreva uma aplicação de disciplina (por parentesco ou de forma comunitária geral)
125. Como se dá a reparação (posse, vida e etc.)?
126. Há critérios preestabelecidos para a reparação individual ou coletiva?
127. O grupo é coeso em suas práticas?
128. Há tolerância para aqueles que não se enquadram no padrão?
129. Quais são os atos realizados por determinado grupo da sociedade?
130. O que determina essas especialidades?
131. Se a habilidade, expressa em que área?
132. Se a hereditariedade, em que padrão de parentesco?
133. Se a orientação sobrenatural, mágica ou pessoal?
134. Há liberdade para se tomar iniciativas próprias, contrárias às iniciativas comunitárias em certas circunstâncias? Descreva um fato.
135. Há liberdade de escolha (territorial, volitiva, familiar) em relação a padrões culturais preestabelecidos?
136. Há direito à vida que venha a se contrapor a costumes de infanticídio ou costumes afins? Descreva.
137. Quais práticas são aceitas fora das atividades do grupo?
138. O que determina a liberdade para essas práticas?
139. Há leis promulgadas formalmente? Quais?
140. Quem as promulga? Líder social, líder religioso? Há participação comunitária?
141. Descreva uma lei promulgada formalmente.
142. Quem executa as leis?
143. Há punições em conseqüência de sua não observação? Descreva uma forma de punição associada à quebra da lei.
144. Pontue os principais elementos observados na regulamentação social e que compõe as:
Leis
Normas
Padrões
Costumes, hábitos e tradições

Dimensão étnica

Relembremos que nosso presente objetivo na utilização desta primeira abordagem (Antropos) é observar e estudar um grupo ou segmento social através de quatro diferentes dimensões. A histórica que nos guiará na busca da identidade do grupo (quem somos, de onde viemos), a ética que nos ajudará a compreender seus valores (que valores nos definem como grupo), a étnica que abordará sua organização social (como nos organizamos) e por fim a fenomenológica que nos levará a perceber que forças dominam em nosso meio.

Portanto nesta presente dimensão (étnica) nos concentraremos menos nos valores do grupo e focaremos em suas ações, seu comportamento, na tentativa de responder de forma geral à pergunta “como vive o nosso grupo?” Respondê-la seria traçar uma completa etnografia, etnologia e fenomenologia de um grupo ou segmento. Entretanto nos proporemos a observar aqui apenas algumas abordagens de estudo que contribuirão para entendermos esta cultura alvo de forma mais específica.

A etnologia possui como incumbência maior estudar a identidade de certo agrupamento ou segmento social. Para tal usaremos alguns conceitos que nos ajudarão e assim pensaremos em Goffman que, com seu conceito kstage” (bastidores), imagina a vida social como ocorrida em um ambiente de teatro. O ambiente teatral é o mundo e nós somos todos os atores e audiências. Os atores vivem papéis, isto é, controlam as impressões que demonstram, para que possam interferir em como os outros se relacionarão. Diferencia-se a vida social em duas categorias, aquela que ocorre “na cena” (frontstage) e aquela que tem lugar “atrás das cenas” (backstage), ou bastidores. A aproximação metodológica de Goffman faz possível descrever nuances sutis em uma comunicação humana.[5]

Utilizaremos também Bourdieu. O “Conceito de Bourdieu” tem suas idéias anteriores a Mauss, denotando a totalidade das habilidades, dos hábitos, do estol, dos gostos instruídos, corporais e assim por diante. “Habitus” pode ser compreendido como uma variante da cultura que é baseada no corpo. “Hexis” é essa parte do habitus, onde uma comunicação entre povos ocorre com corpo-língua: movimentos minúsculos e outros.[6]

Tendo estes dois conceitos em mente precisamos utilizar a etnologia como ferramenta de trabalho para a observação e conceituação étnica e social pensando especialmente em três abordagens que julgo fundamentais. A primeira categorizando os relacionamentos, principalmente no âmbito do parentesco, entre os clãs ou grupos, e entre os excluídos. A segunda buscando entender a funcionalidade, pontuando as funções comunitárias, familiares, as oficiais e informais, as espirituais e místicas e, por fim, funções sociais informais. Em terceiro lugar a individualidade, como motivações para a vida, volições e aspirações, modelo de existência e esperança.

Propomos, a seguir, uma metodologia viável de macro categorização dos grupos étnicos partindo do pressuposto comparativo. A elaboração deste método visa simplificar a visibilidade comparativa de culturas sensivelmente distintas. É uma análise geral, que objetiva proporcionar não mais do que a compreensão da macro-estrutura social de um segmento humano, porém pontuando e destacando os pontos vitais para sua existência e desenvolvimento. Categorizaremos tais sociedades como sendo progressistas ou tradicionais, existenciais ou históricas, teófanas ou naturalistas.

Progressistas ou Tradicionais

Os grupos que chamaremos de “progressistas” caracterizam-se por um comportamento onde são rápidas as mudanças de valores e comportamento. Além disto optam por uma ‘evolução social’ enquanto as “tradicionais” valorizam a constância e preservação dos valores e estrutura de vida. Elas podem ser mais bem conceituadas se as observarmos a partir dos seus símbolos de status, posses e bens, conforto e adaptabilidade, tecnologia e sincretismo religioso.

Os chamados tradicionais manifestam total interação com a história. As características supracitadas formam-se dentro de padrões e valores não mutáveis. São chamadas culturas “primitivas” por observarem um impulso interior com motivação não mutável que caracteriza a repetição dos desejos, alvos, perspectivas, axiomas, padrões comportamentais, sejam sociais, morais ou religiosos, de milênios de anos atrás.

Com relação ao sincretismo, é mais provável que aconteça em uma sociedade progressista, assim como a mudança de aceitação religiosa. Vale salientar que este sincretismo, ou mesmo as mudanças que não sejam sincretistas, mas substitutivas, são fruto de uma mentalidade que podemos chamar de aberta ou inclusiva, o que Laburthe-Tolra e Warnier chamam de religião dinâmica. “O homem das sociedades abertas poderá participar de um ideal de universalidade que transcende o grupo social e o coloca em comunhão com todos os homens...”[7]

A religião se caracteriza por ser estática, numa perspectiva de preservar, a qualquer preço, a coesão da sociedade. “A religião é, no sentido mais forte da palavra, conservadora... proíbe a autonomia do pensamento e da ação individuais, de modo que a crença comum não possui outra regra que o consentimento e a prática unânimes do grupo.”[8] A dessacralização, na perspectiva de Eliade, é marca de culturas progressistas onde o homem, na procura de se ‘libertar’ rejeita o sagrado e se ‘seculariza’ com elementos do profano. Apenas um mecanismo social aberto e progressista comportaria este distanciamento com o sagrado.

Algumas perguntas podemos fazer nesta altura, como “o que confere status ao indivíduo?” Para os progressistas é sempre o mais novo ou evoluído. Em culturas progressistas comprar um carro modelo 2008 em julho de 2007 provê a impressão de atualidade, desenvolvimento e prosperidade. Em culturas tradicionais construir sua casa na aldeia, de palha de caranã em modelo circular, como faziam seus avós e outros antes deles, provê a impressão de segurança, identidade e preservação da vida.

Em nossa presente cultura, progressista ocidental brasileira, os bens são construídos e comercializados já de acordo com um padrão temporário de utilidade. Um aparelho celular é lançado já como uma versão que será aprimorada e substituída, e tanto o comerciante quanto o usuário estão conscientes disto. A moda é altamente transitória e cíclica, mudando comportamentos e o guarda-roupa da população mais rápido do que se pode perceber. O novo é sempre o melhor, seja um carro, um eletrônico, um curso, uma proposta ou um discurso. Tal padrão mental e comportamental é fruto de nossa categorização social, progressista.

Como nenhuma cultura é estática elas variam e divagam entre padrões comportamentais distintos, ao longo dos séculos, pela mútua influência bem como elementos externos e internos. Identificar se o grupo com o qual trabalhamos é mais progressista ou tradicional nos levará a desenvolver idéias de comunicação de forma mais efetiva.

Um grupo tradicional, por exemplo, demandará uma comunicação a partir dos conceitos já existentes ou aceitos pelo povo enquanto um grupo mais progressista está mais aberto a elementos novos e transformadores.

Tais grupos tradicionais avaliam o valor e manutenção da vida a partir da manutenção dos hábitos, valores e comportamentos. Em um país como a Escócia, por exemplo, é nítida a ênfase mais progressista nas grandes cidades enquanto no interior prevalece uma mentalidade comportamental mais tradicional. O choque de transição, na mudança de uma família do interior para a capital é também visível, e uma adaptação ou confronto necessário para sua sobrevivência.

Observarmos se o grupo o qual estudamos é mais predominantemente tradicional ou progressista nos ajudará não apenas a compreendê-lo (valores e comportamento) mas sobretudo pavimentará as vias de comunicação. Um programa de educação, por exemplo, se proposto como inovador será bem aceito em grupos progressistas enquanto encontrará resistência nos tradicionais. O mesmo programa, proposto a partir da valorização da história e língua do povo (discurso tradicional) será bem aceito em grupos tradicionais e possivelmente terá menor apelo para os progressistas.

Tais categorizações nos levam a compreender o mundo no qual vivemos e estudamos, suas vias de pensamento, valores e comunicação, o que lhes é precioso. O objetivo aqui é ter em mente os elementos necessários para o diálogo.

Existenciais ou históricas

Os grupos que chamaremos de “existenciais” possuem uma cosmovisão fortemente centrada nas experiências ativas, isto é, as de hoje, mais perceptíveis, enquanto os grupos “históricos” possuem uma cosmovisão construída a partir dos marcos antigos, sejam históricos, mitos, normas, costumes ou tradição. Nestes, as convicções, anseios, objetivos e perspectivas são baseados em um passado próximo ou distante e com esperança futura, escatológica.

Diferente dos “históricos”, os grupos “existenciais” se baseiam no agrupamento social, sua vivência, sua dinâmica e seus alvos. Aqueles estão fundamentados em sua cosmologia e nos marcos históricos que construíram a sociedade. Enquanto o primeiro pensa basicamente na solução dos conflitos imediatos o segundo preocupa-se com a manutenção de sua identidade, o que inclui a forma, antiga e testada, de solução de conflitos. Os grupos históricos são por natureza mais rígidos quanto a mudanças pois os marcos históricos possuem peso de manutenção de valores e comportamentos enquanto os existenciais tendem a desenvolver uma postura mais maleável perante os valores e costumes.

Chomsky adverte que o pós-modernismo, com sua alta tendência existencial, possui este desapego com o passado. Os marcos possuem pouquíssima relevância ética e o comportamento é reformulado a cada situação levando a um incrível, e sem paralelo, momento em que os valores estão em aberto. Tornam-se negociáveis.

Os africanos, escravizados, no período da colonização brasileira poderiam ser citados como um ajuntamento de grupos basicamente históricos enquanto os indígenas brasileiros, da mesma época, tipicamente existenciais. Os africanos, escravizados e sem liberdade a vista eram guiados pelo silogismo: “posso sofrer a vida inteira mas quem sabe meu filho será livre”. Seus cânticos falavam sobre a terra de seus pais e seus dias eram motivados pela possibilidade de mudança futura. Já os grupos indígenas, mais existenciais, negavam o sofrimento da escravidão à custo da própria vida. Eram guiados pelo silogismo: “se é para viver escravizado e humilhado, é melhor não viver”. Ondas de suicídio e confronto tornaram a escravidão indígena sem sucesso no Brasil colônia. Ambos os grupos (ou ajuntamento de grupos) desejam a liberdade com a mesma intensidade, porém suas reações perante a escravidão foram antagônicas, definidas por seu padrão cultural.

Em relação a solução de conflitos, a existencial está associada a uma abordagem prática, funcional enquanto a histórica aos marcos antigos, costumes e tradições. O povo Tariana do Alto Rio Negro seria um exemplo de um grupo existencial onde se observa, em seu discurso, uma centralização nas questões do dia e busca por soluções dos conflitos mais imediatos.
Grupos existenciais tendem a ser imediatistas enquanto os históricos tendem a ser mais esperançosos. Observo que os grupos considerados históricos utilizam em maior intensidade a expressão do agradecimento (em virtude de atitudes que lhes agradam) enquanto os existenciais tendem a cultivar a expectativa.

É de se esperar, portanto, que o evangelho gere, nos grupos existenciais uma intensa expectativa quanto a solução dos conflitos da vida diária. Dificilmente tais grupos compreenderiam (e aceitariam) as respostas subjetivas que satisfazem os segmentos históricos. Para os históricos a afirmação ‘Deus cura’ possui intervalos explicativos, ou seja, Ele cura mas não a todos e nem sempre. Grupos existenciais teriam dificuldade de absorver o conceito ‘Deus cura’ sem que fosse, neles, gerada a expectativa de experimentar tal cura em algum ambiente de enfermidade hoje.

Téofanas ou Naturalistas

Antropologicamente todas as culturas são religiosas e possuem elementos de religiosidade. Entretanto algumas sistematizam mais ou menos esta religiosidade dentro do mundo visível, do aquém. As que desenvolvem mais sistematicamente esta religiosidade podem ser chamadas de teófanas e as outras chamaremos de naturalistas.

Grupos teófanos possuem abundância de cosmogonias, mitos, ritos e categorizações do mundo do além. Culturas Naturalistas se baseiam nas categorizações sociais humanas e organizações de agrupamento deixando pouco espaço, e este indefinido, para os símbolos religiosos explícitos. Seus olhos estão postos nos elementos do aquém.

O grupo teófano, no que diz respeito à fonte cultural, utilizarão cosmogonias com relatos dos mitos antigos, messianismo ou narrativas de revelação. O grupo naturalista simplesmente interpreta a vida para responder às perguntas do dia-a-dia. Com relação aos marcos históricos os grupos teófanos demonstram apego ao passado e os naturalistas, desapego, mesmo que possuam registros, mas sem intensa relação com a vida presente. No quesito da escatologia os grupos teófanos possuem esperança a respeito do além enquanto os naturalistas esperança depositada no aquém.

Em relação à expectativa do evangelho as teófanas produzem ideologias mais revelacionais, mais abertas à revelação e enfatizam a experiência religiosa. Já as naturalistas são menos abertas à revelação e não possuem categorias proféticas, sacerdotais e xamãnicas.

Lingüística antropológica

A comunicação dos seres humanos se deve muito à fala e no estudo etnológico a diferença lingüística possui um amplo capitulo por constituir a principal ponte para o entendimento da cultura alvo, dependendo da sua ótica motivacional em aprender a nova língua. Foram especialmente os etnólogos e lingüistas americanos Edward Sapir (1884-1939) e Benjamim Lee Whorf (1897-1941) que, utilizando o pensamento de Wilhlm Von Humboldt (1767-1835), fizeram a mais clara ligação entre língua e imagem desembocando em um dos mais importantes métodos etnológicos, a antropologia cognitiva. Sapir e Whorf puderam concluir, observando os índios americanos, que “aqueles que entendiam e falavam esses idiomas referiam-se a certos fenômenos de forma muito diferente daqueles que falavam o inglês ou uma outra língua Indo-européia”. [9]
Genevois Saussure (1857-1913) se expressou dizendo que “cada língua forma um todo que no momento basta a si mesma”[10] tentando demonstrar o elemento utilitário da língua. Em outras palavras, as línguas tentam, em seus momentos definidos, instrumentar uma sociedade para manifestar de forma comunicável aquilo que vê, sente, faz e teme. É fruto da ‘realidade social’. Devido a isto, tomando como exemplo a ‘neve’, que em nosso Português é comunicada por um termo, entre os Inuit do Alaska são utilizados 13 diferentes termos, a depender de sua textura, quantidade, cor e até mesmo utilidade. A experiência social dos Inuit com a neve ao longo dos anos demandou tal complexidade e detalhismo.
Para estes esquimós cada uma das 13 neves formam uma idéia distinta.

O estudo da cultura e identificação social a partir da lingüística, ou utilizando-se da mesma, é hoje uma afirmação quase universalmente aceita. Käser enfatiza que de fato podemos perceber que a língua em um grupo, em sua forma ampla de entendermos os valores de comunicação, é fruto da história cultural daquele povo e não o contrário. Segundo Allison o isolamento de um grupo por mais de três séculos precipita o desenvolvimento de um novo dialeto. Este dialeto, portanto, com suas nuances proverbiais e tonais, toda a complexidade gramatical e abundância de vocabulário não foi gerado a partir de uma nova experiência social mas é fruto de uma transformação lingüística a partir de uma língua chave, da história cultural de um grupo. Sua influência de transformação lingüística não foi puramente lingüística mas sim social.

Desta forma, a procura por ‘key terms’ (termos chaves) em cada cultura deve passar por um filtro ótico social e não puramente gramatical, se o objetivo for o estudo daquela sociedade e não simplesmente a fluência lingüística.

Observando os Konkombas do norte de Gana pude notar que, na família Bijam, vice-chefes da aldeia de Koni com a qual morei durante um ano, mais de 50% dos termos utilizados ao longo de um dia se referiam a elementos familiares e direcionados à casa, que viria a entender, depois, é o centro do universo para os mesmos. A casa Konkomba é referencial de valores para a vida bem como posição geográfica para o mundo que a cerca. Rodeá-la é reconhecer o que se passa no centro do universo. Desta forma ‘linankpaln’ (palhoça) ganha um significado extremamente mais elevado e extenso. As variações do termo, viria a perceber depois, são aplicadas à família, identidade étnica, segurança, motivação para a guerra, proliferação da família e templo. Os termos chaves só serão identificados a partir da observação daquilo que rege a vida e organiza a sociedade.

Em nossa cultura brasileira moderna/pós-moderna, ocidental, miscigenada e extremamente teófana poderíamos afirmar que alguns termos chaves são: individualidade, direitos, dinheiro, posses, família e esperança. Porém honra e piedade, por exemplo, são termos e conceitos pouco difundidos de forma geral nos contos, conversas, músicas, por serem menos enfatizados socialmente. A comunicação do Evangelho é, pois, comunicação de idéias e devemos valorizar nossa pesquisa neste sentido.

Questionário direcionador

Progressistas ou tradicionais

145. O que confere status ao indivíduo?
146. Há privilégio do novo ou do antigo em relação a posses, tecnologia e conhecimento?
147. Qual é o conhecimento privilegiado (dos antigos ou das pessoas que estudam)?
148. Há abertura ou resistência a mudanças sociais?
149. Há abertura ou resistência a mudanças territoriais?
150. São mais orientados pelo sentimento de culpa ou de vergonha [11] ?
151. Há facilidade de adaptação a novas realidades?
152. Há inclinação para absorção de valores culturais (e/ou costumes) de grupos próximos?
153. Há tendência ao sincretismo religioso?

Existenciais ou históricas

154. Valorizam o hoje ou as tradições sociais?
155. Que fator é utilizado para corrigir falhas: prevenção ou solução de problemas?
156. Preocupam-se com a sociedade atual ou com os marcos históricos?
157. São imediatistas ou esperançosos?
158. Possuem mobilidade religiosa ou são ligados às tradições?
159. O que confere status social?
160. Quais os principais valores da vida?
161. São individualistas ou com senso comunitário?
162. Enfatizam mais a experiência ou a tradição religiosa?

Teófanas ou Naturalistas

163. Há equilíbrio entre o Além e o Aquém em sua cosmovisão?
164. O que está no centro do universo e interesse social: o homem ou suas convicções religiosas?
165. Se o homem, que processos de manipulação social ou sobrenatural são utilizados para cumprir seus alvos?
166. Que bem é mais precioso: a felicidade humana ou a adoração ao divino?
167. Há abundância de categorias espirituais na sociedade?

Dimensão fenomenológica

Concentrando-nos agora na Fenomenologia da religião, iremos mudar nossa pergunta chave. Na dimensão histórica a pergunta chave era “quem somos nós?” Na dimensão ética “que valores nos definem?” Na étnica “como nos organizamos socialmente?” Nessa última dimensão que aqui estudaremos a pergunta chave é “que forças dominam em nosso meio?”

Laburthe-Tolra e Warnier em “Etnologia, Antropologia”, no capítulo sete, tratam do fenômeno religioso e dizem que “a religião parece ser a mais antiga dessas manifestações do pensamento”[12]. Para eles o fenômeno religioso consiste em primeiro lugar em crenças, e o que caracteriza estas crenças é o fato de se postular a existência de um meio invisível em pé de igualdade com o visível, mas que não pode ser simplesmente evidenciado como a matéria. O missiólogo terá de estudar todo o acervo mítico do povo alvo para perceber como tal povo entende este mundo invisível com o qual convive.

Se já estamos certos da universalidade do sentimento religioso, agora precisamos fazer a leitura fenomenológica. Para tal é necessário identificar e também interpretar os elementos que fazem parte do sagrado, através de crenças, mitos e ritos. Gostaria de chamar sua atenção para este ponto. A importância de identificação e interpretação. Uma mera identificação (com conseqüente descrição) não passará de um capítulo etnográfico. Uma interpretação sem a devida identificação incorrerá em erros grosseiros do elemento a ser estudado. É necessário identificarmos os elementos chaves que compõe a estrutura fundamental do sagrado (as forças que dominam em nosso meio) e as interpretarmos à luz da compreensão do grupo, de forma êmica.

Designamos como “espíritos” todos os seres que nas cosmovisões tomam significados distintos do humano e que se mantém invisíveis ou seja “...uma presença oculta ou invisível que se manifesta por uma atividade”.[13]Os espíritos compreendidos como malignos podem ser exorcizados enquanto os tidos como benéficos são adorcisados (chamados em vez de repelidos). Os xamãs podem utilizar do transe para com eles interagir, que é “...sair de si, muitas vezes por uma elevação ao mundo de cima,”[14] caracterizando a crença no mundo invisível com sentido espacial, onde há lugares que podem ser visitados. “Seja como for, o mundo invisível é concebido como o verdadeiro mundo do qual o mundo visível é somente um fenômeno ou aparência”[15]. Os feiticeiros poderão se servir de animais para caçarem por eles (nagualismo) ou de animais mortos que os ajudarão. Os espíritos dos ancestrais é que mais podem influir no mundo físico, normalmente, influenciando nas decisões e ações da sociedade. Marcelo Carvalho menciona que no Alto Rio Negro os pajés da região se transformam (hidöhöy) em onça para matarem pessoas neste mundo, segundo a cosmovisão local.

Ainda pensando, de forma geral e não categorizada, nas forças que dominam em nosso meio, segundo Laburthe-Tolra e Warnier concebem-se grande número de duendes, espectros, espantalhos que povoam a floresta, anões que vivem nos subsolos, gênios da mata, do rio e etc. O papel dos espíritos ancestrais é citado como manismo[16], e se refere aos espíritos dos mortos que podem ser múltiplos em um só corpo. Também estaremos neste capítulo observando os mitos, ou “relatos fundadores, histórias de deuses ou de coisas, que fornecem um conjunto de representações das relações do mundo e da humanidade com os seres invisíveis”[17]. Não devem ser confundidos com fábulas, que poderão ser até mesmo mitos que morreram, pela transformação da cultura por uma evolução ou revolução da sociedade deixando de ter sentido fundador de antigamente.

No estudo fenomenológico haverá de se prestar atenção também aos ritos, que podem ser sacros ou profanos, sendo tal percepção relevante para a próxima abordagem, Angelos. Segundo Laburthe-Tolra e Warnier, Mauss divide os mitos em prescritivos e proibitivos. Acrescenta ainda os de controle, com seus interditos, e os comemorativos ou de celebrações. Os mais importantes são os de passagem e os de sacrifício. Também é preciso distinguir rito de culto, pois culto se refere a uma homenagem prestada a uma divindade e “as cerimônias do culto compõem-se de ritos, mas nem todos os ritos são cultuais”[18]. Alguns ritos são de certa forma repetidos em várias culturas, como o rito do nascimento, da iniciação, o casamento, a morte, a última passagem e assim por diante.

Aqui poderemos utilizar (como veremos mais tarde) as categorizações que muito nos ajudarão a compreender os entrelaces das forças supra-humanas dominantes em um grupo ou sociedade. É preciso inicialmente separar “os fenômenos que têm micro-relevância e fenômenos locais com relevância em um macro-nível, por exemplo, regionalmente.”[19]

A antropologia moderna, portanto, procura levar o pesquisador a ter consciência de que a neutralidade de sua atuação é primordial, deixando de lado os conceitos próprios de sua cultura para a devida compreensão da idéia por trás do ato, de acordo com a cosmovisão local. Entretanto nos propomos a unificar as categorizações para fins de estudo. Com isso, esperamos ser levados a compreender os principais elementos do invisível em uma sociedade; dessas forças não vistas que dominam o meio.

Elementos fenomenológicos gerais

Permita-me inicialmente citar alguns conceitos que nos ajudarão nesta introdução fenomenológica.

- Totemismo: É um conjunto de idéias e práticas baseadas na crença da existência de um parentesco místico entre seres humanos e objetos naturais, como animais e plantas.

- Veneração a ancestrais: Baseia-se na convicção de que os ancestrais, pertencentes à mesma família ou linhagem, estão em um plano superior com capacidade para influenciar seus familiares no aquém. Demandam assim sacrifícios, reverencia e, por vezes, adoração.

- Fetichismo: É a expressão do animismo através da ‘localização’ dos centros de poder espiritual que pode estar presente em pedras, árvores ou mesmo objetos fabricados.

- Animismo: Convicção que o mundo visível é controlado pelo mundo invisível. Do latim ‘anima’, que dá vida.

- Encarnação: crença de que espíritos se mantêm vivos através da utilização de diferentes corpos em diferentes gerações.

- Deuses e deusas: espíritos superiores que povoam o mundo do além e mantém controle sobre segmentos do universo e da vida.

- Deus: normalmente ligado ao ser criador, que pode ou não reger o universo. Em boa parte das culturas o ser criador é o ser distante, sem relacionamento com sua criação.

- Espíritos aéticos: seres do além que não possuem clara orientação moral de conduta. Podem ser bons ou maus a depender do momento, paixão ou objetivo.

- Espíritos éticos: bons ou maus, anjos ou demônios.

Como vimos, as questões determinantes para a compreensão geral de uma cultura são a Origem (quem somos nós); os Valores (como nós pensamos); a Cultura (como vive o nosso grupo) e a Religião (que forças dominam em nosso meio). Antes de seguirmos adiante no estudo fenomenológico, no próximo capítulo, façamos um exercício. Identifique no conto a seguir a presença de idéias relativas às quatro dimensões estudadas. Enumere-as citando as frases onde se encontram.

Conto Fulani

Na tradição oral sobre a criação dos Fulani no noroeste africano podemos encontrar fragmentos de todos estes elementos, tão importantes a nós para uma compreensão geral da cultural alvo. Convido o leitor a estudar esta narrativa abaixo com cuidado, fazendo as anotações em todas as quatro áreas.

“No início dos tempos havia uma família. Esta família vivia em uma ilha enorme com grandes árvores, muito arroz e caju. Eram os únicos que existiam e junto a eles dois deuses guerreavam, pois cada um desejava aquela ilha, e a guerra pairava sobre as suas cabeças. Um dos deuses era bondoso (nós nos esquecemos do seu nome) e outro era mal (chamava-se Ira).

Os dois desceram na ilha certo dia e falaram: ‘apertem o braço’ (escolham) com quem desejam ficar: somente com um de nós’. Entretanto naquela noite Ira desceu sozinho e, escondido na ilha, falou-lhes que eles precisavam de uma ilha maior. No dia seguinte, pela manhã escolheram a Ira, e o deus bom foi embora para sua casa e jamais foi visto novamente. Então, depois de pouco tempo, descobriram que Ira era o próprio Mal”[20].

Creio que este breve exercício deixa claro que mesmo em um sucinto trecho ou conto podemos encontrar idéias e comprovação de idéias fundamentais para a compreensão da cosmovisão do grupo que estudamos. Em cada história, mito, música, conto ou narrativa podemos identificar elementos valiosos que nos levem a perceber verdades referente à história, os valores, o agrupamento e as forças espirituais que definem o presente grupo estudado.

Questionário direcionador

168. Há esperança depositada na vida futura, no além?
169. Que mitos predominam em suas narrativas?
170. Quais são os principais sinais de religiosidade?
171. Há manipulação de elementos naturais para governo dos sobrenaturais (magia)?
172. Há ritos e cerimônias de invocação espiritual?
173. Há relatos revelacionais: visões, profecias (simbólicas, orais ou escritas), mitos messiânicos, atos de invocação?
174. Há presença de totemismo?
175. Ligado à etnia ou clãs?
176. Ligado a que animais ou plantas?
177. Descreva um clã/segmento/grupo totêmico, sua ligação com o animal/planta e suas implicações para a vida diária (nomes, casamento, tabus etc).
178. Descreva de forma específica as implicações para o parentesco: casamento e procriação?
179. Há veneração aos ancestrais? Respeito, reverência ou adoração?
180. De que forma se processa?
181. O ancestral é uma figura com funções sociais no presente? Quais?
182. O ancestral possui ligação apenas com os parentes de um círculo definido ou com todo o grupo?
183. Há categorias sociais entre os ancestrais? Quais?
184. O ancestral habita o mundo do além ou do aquém?
185. Em caso de animismo, há localização de poder/presença espiritual em lugares e objetos específicos (fetiches)?
186. São os fetiches construídos ou naturais?
187. Que objetos servem de fetiche?
188. São os fetiches temporários ou permanentes?
189. Há guardiões dos fetiches ou são comunitários?
190. Possuem função social de proteção?
191. Há convicção de que o mundo natural anima o sobrenatural?
192. De que forma esta convicção é manifesta?
193. As soluções dos conflitos da vida se dão no aquém ou no além?
194. Há reencarnação?
195. Que seres são reencarnados?
196. Há deuses e deusas?
197. Quais são seus nomes?
198. São ligados ao grupo, clãs ou segmentos?
199. Há um deus acima de outros deuses?
200. Em que ele se distingue?
201. É presente ou ausente?
202. É uma pessoa ou uma força?
203. Qual o seu nome?
204. Com quem é ele relacionado
205. Relate um mito/cosmogonia/conto acerca deste deus.
206. Possui ele irmãos ou irmãs? Ou grau de parentesco?
207. É ele ético ou aético?
208. Que feitos são contados e lembrados pelo grupo?
209. Quais os três principais elementos que forma seu caráter?
210. É ligado a justiça, bondade e amor? De que forma?
211. Relate um mito/cosmogonia/conto acerca de seu caráter que inclua estes elementos.
212. Está ligado a cosmogonias e antropogonias? De que forma?
213. É cultuado, venerado, temido?
214. Há rituais ou cerimônias religiosas (presentes ou antigas) ligadas a sua pessoa?
215. Há espíritos que povoam o universo?
216. Quais são seus nomes?
217. Há categorização entre eles?
218. São ligados ao grupo, clãs ou segmentos?
219. Servem ou são servidos pelos homens?
220. Temem ou são temidos pelos homens?
221. Há espíritos éticos (bons ou maus)?
222. Cite os principais, em caso de categorização.
223. Há espíritos aéticos (bons e maus?)
224. Cite os principais em caso de categorização.

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[1] Laburthe-Tolra e Warnier, Op.Cit., pg. 265
[2] Narrativa Bassari obtida através dos Unambiin, contadores de história em Nabukorá, 1998, Togo, noroeste africano.
[3] Um ser ético é bom ou mau, ou seja, com um caráter definido. Um ser aético é bom e mau, com um caráter indefinido mudando de postura ou humor a cada momento.
[4] Bonhoeffer, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
[5] Dicionário Online de Antropologia, Op.Cit.
[6] Idem
[7] Laburthe-Tolra e Warnier, Op.Cit., pg. 218
[8] Idem, pg. 217
[9] Käser, Lothar. Diferentes culturas: Uma introdução à etnologia. Londrina: Descoberta, 2004.
[10]Laburthe-Tolra e Warnier, OP.Cit.pg.292.
[12]Laburthe-Tolra e Warnier. Etnologia, Antropologia. Editora Vozes, 1997. pg. 96
[13]Laburthe-Tolra e Warnier, Op.Cit.
[14] Idem
[15] Idem
[16] Idem, pg 203.
[17] Idem
[18] Idem
[19] Dicionário Online de Antropologia, Op.Cit.
[20] Banan, contador de história Fulani – entrevista 1998
Última atualização em Seg, 06 de Abril de 2009 04:55

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