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Considerações sobre a fenomenologia religiosa

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Croatto1 apropriadamente chama nossa atenção para o fenomenólogo afirmando que este procura o significado da religiosidade humana enquanto historiador se preocupa com as evidências deixadas. A pergunta, portanto, a ser feita em uma análise fenomenológica é ‘que forças dominam em nosso meio’?2 Se a crença de que passar embaixo de uma escada produz má sorte, se compreende que há uma força mecânica, algo de magia, uma regra universal e espiritual, que pune as pessoas que passam debaixo da escada. A fenomenologia religiosa, portanto, observará as forças existentes em nosso meio, sejam pessoais ou impessoais, pessoais ou mecânicas.

Malinowski3, apesar de se concentrar na sociedade como agente receptor e guardião da religião, possui uma marca de contribuição na desmistificação quanto à falta de complexidade dos elementos religiosos em culturas minoritárias. Desta forma ele elucidou diversos elementos de categorização social religiosa na Melanésia que possuíam, em grau de profundidade e aplicação, uma teia bem mais complexa socialmente que a cultivada na sociedade ocidental, de forma geral. Segundo este pesquisador o desejo dos povos de se relacionarem com o invisível e desconhecido é que projetou o aspecto religioso da cultura.

Estudemos agora a respeito do desenvolvimento do estudo da Fenomenologia. Apesar do termo “fenomenologia” ter surgido com Lambert4 a obra “Investigações Lógicas” do alemão Edmund Hussel é considerada o marco inicial do estudo fenomenológico sendo publicada em 1900. Em 1887 o holandês Saussaye5] utiliza o termo “fenomenologia religiosa” para se referir ao estudo e análise dos fenômenos religiosos descritos em uma sociedade específica.

A Fenomenologia Religiosa é a tentativa de compreender os elementos do além em uma certa sociedade ou segmentação humana (no aquém), sua interatividade com a cultura em geral e o mundo do aquém, estudando também a medição de seu valor unitário, ou seja, a análise do fenômeno per si objetivando estudo de possíveis aparições em diferentes grupos e regiões.[6]

Do grego “fainomeno” o termo fenomenologia significa “aquilo que se mostra” apontando para o princípio geral do estudo que é coletar, categorizar e analisar o cerne da experiência humana em seu convívio social. Tradicionalmente o estudo da religiosidade estava ligada à cosmovisão debaixo da etnologia, ou seja, não passava de mais um elemento cooperador para a construção da identidade social. Radcliffe-Brown corrobora tal opinião o que limita o pensamento sócio-cultural.

Posteriormente a religiosidade começou a ganhar um estudo isolado especialmente pelo esforço de Piazza, Mauss, Eliade e Malinowski, dentre outros, que apresentam a religiosidade de forma privilegiada e geradora de significado para a sociedade. Desta forma os fenômenos religiosos não são apenas casuais ou resultado dos anseios sociais mas também, em parte, causadores das estruturas sociais.

Laburthe-Tolra e Warnier7 afirma que “é preciso situar o fenômeno religioso em si mesmo consistindo em primeiro lugar em crenças" ... "o que é antes de tudo o fato de postular a existência de um meio ambiente invisível". Isto é, através de um fenômeno religioso em si devemos concluir a presença, a categorização e os valores de um mundo invisível. Exemplo disto temos num pouco de terra sagrada em um patuá (bolsinhas de couro com terra de local sagrado) nas tribos do noroeste africano, trazendo o sagrado para o ambiente profano. Tais fetiches associados aos patuás possuem nomes, categorias e perfil de atuação. Um objetivo ou fato religioso, em si, portanto irá possibilitar uma análise do fenômeno na visão daquele que o experimenta ou observa.

Aplicando a fenomenologia religiosa na análise dos fatos sociais e religiosos

Se a fenomenologia religiosa se propõe a estudar, compreender e categorizar o invisível, isto é, respondendo à pergunta “que forças dominam em nosso meio” é preciso, inicialmente, entender as possibilidades de categorizações genéricas que nos ajudarão compreender as possibilidades deste mundo invisível.

Vejamos, portanto, as principais ‘pastas’ que compõem a religiosidade de um segmento, onde estudaremos, posteriormente, os elementos que os formam.

Tomemos como exemplo uma visão animista.8] Precisamos entender que, em sua cosmovisão, causa e efeito não são vistas dentro do conceito contrapontual ocidental. Eles começam com uma situação que pede explicações, e talvez intervenção dos ancestrais ou espíritos relacionados. Esta situação pode ser individual ou comunitária como enfermidades, epidemias, infertilidade ou fome. Para eles estes problemas devem possuir não apenas causa, mas também fonte. Expliquemos melhor: se um ocidental tem pneumonia, normalmente a reação é tratá-la de acordo com a história de medicamentos e estatísticas de cura e vemos como mais um caso de pneumonia. Na cosmovisão animista esta pneumonia será vista como um problema único. Nenhuma atitude será tomada antes que se saiba o “por que” desta pessoa estar enfrentando tal situação. A fonte do problema é o fator mais importante e requer um estudo inicial feito normalmente pelos anciãos, curandeiro ou feiticeiro.

Em uma aldeia chamada Jimoni experimentei uma situação clássica quando um homem estava quase a morte devido a problemas do coração. Dirigi algum tempo até parar próximo ao rio Molan, atravessando-o em uma canoa, e chegando à aldeia na tentativa de convencer os anciãos a deixar-me levá-lo a um hospital fora da região tribal. O problema de saúde possivelmente teria efeitos letais se não fosse atendido rapidamente. Finalmente aquele homem perdeu os sentidos. Membros da sua comunidade se reuniram e passaram duas horas e meia tentando descobrir porque aquilo estava acontecendo. Falaram de problemas de relacionamento em diferentes graus de parentesco, palavras ditas pelo enfermo e circunstâncias anteriores ao seu nascimento como uma forte chuva que antecedeu o parto. Finalmente um deles sugeriu que me permitissem levá-lo pois poderiam continuar a conversa mesmo na nossa ausência. Enquanto saíamos carregando aquele enfermo vi pessoas sentadas e quietas por todo o canto, e certamente todos eles, em uma ação não intencional, procuravam o “por que”.

A Fenomenologia Religiosa com aplicação missionária é a sistemática categorização dos elementos do além em certa cultura, sociedade ou segmentação humana, objetivando a coleta de informação necessária para a comunicação de uma mensagem de forma compreensiva, relevante e transformadora. Isto se dá através de alguns passos que sugerimos e nosso objetivo é apresentá-la como uma abordagem de pesquisa de fatos, fenômenos e seqüências humanas através de um processo de coleta, categorização, análise e proposta missiológica que venham a contribuir com a relevância da mensagem comunicada.

Assim estaremos buscando os dois primeiros frutos que são categorização e compreensão. Há algo importantíssimo que me é necessário repetir inúmeras vezes, que é o registro. Em primeiro lugar dissertativo, um primeiro caderno onde se colocarão todos os dados observados no sentido geral. Depois, no segundo caderno, é preciso categorizar: há elementos históricos, ritualísticos, cosmogônicos; há elementos pessoais e impessoais. Neste mesmo caderno você pode registrar os contos, histórias, mitos e relatos. Por fim, em outro caderno ou pasta digital o método que você utilizará para organizar e analisar os dados antropológicos. Precisamos possuir uma boa metodologia de registro tanto para nosso estudo quanto para aqueles que herdarão o material que coletamos e organizamos. Somos responsáveis pelo tempo que Deus ali nos colocou e não sabemos o quanto nos será possível permanecer. O trabalho não registrado será de grande prejuízo para muitos.

Falemos sobre as idéias. As idéias fenomenológicas, de forma geral, são naturalmente manifestas em vários graus, por exemplo, de sagrado e profano, que precisam ser categorizados. Não precisamos ir muito longe para darmos exemplos disto. Em nossas igrejas facilmente percebemos, ao olharmos deste ponto de vista, que no fundo nossas maneiras de agir demonstram graus de santidade (sagrado e profano) em relação a área geográfica do templo. Em alguns templos mulheres que usam calças compridas podem estar presentes e participar do culto na bancada, porém lhe é exigido uma roupagem diferente (talvez vestido ou saia) para que se apresente à frente da comunidade. A roupagem do líder ou pastor é distinta de dia a dia, digamos, do culto da quarta feira a noite, em que lhe é permitido uma camisa social, para o culto de domingo a noite em que lhe é exigido terno completo. A postura pessoal, incluindo o tom da voz, também normalmente se alterna nestes mesmos ambientes, indo de um tom e discurso mais informal nos dias de semana para tons e discursos formais aos domingos. Estas diferenças comportamentais indicam nossa consciência, mesmo que não planejada, do sagrado e profano em relação ao templo e ao culto evangélico. Com este exemplo gostaria de sugerir que todos os grupos sociais humanos possuem consciência de sagrado e profano em relação à sua própria religiosidade. Isto não quer dizer, necessariamente, que saibam facilmente explicá-la, porém é diariamente experimentada.

A primeira abordagem proposta neste livro é denominada Antropos que se propõe a analisar um grupo social a partir de quatro dimensões: histórica, ética, étnica e fenomenológica. Concentraremo-nos agora na segunda abordagem, que chamaremos de Pneumatos, específica para a análise dos fenômenos religiosos. Isto porque, devido à complexidade da religiosidade e sua completa interação com a estrutura social humana, a fenomenologia religiosa se torna, especialmente para a comunicação do evangelho, um estudo chave em nosso caso.
 
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[1] Croatto,José Severino (1930-2004), padre argentino, lecionou filosofia, história das religiões e fenomenologia da religião em Buenos Aires.
[2] Lidório, Ronaldo. Fenomenologia da Religião. Apostila não publicada
[3] Malinowski, Bronislaw. Crime e costume na sociedade selvagem. Brasília: UnB, 2003. Neste livro derruba idéias equivocadas sobre o direito primitivo onde refuta que o direito criminal tenha precedido o direito civil expondo a existência de um direito civil sofisticado e complexo entre os trobrianeses, distinguido também o direito dos costumes..
[4] Lambert, Johann Heinrich (1728-1777)
[5] Saussaye, Pierre Daniel Chantepie de la (1848-1920) utilizando a expressão em sua obra “Manual de História das Religiões” em 1887.
[6]Lidório,R.- citando em palestra “Religious Phenomenology and missionary communication”, 2000.
[7]Laburthe-Tolra e Warnier – Etnologia, Antropologia –Op.Cit.
[8]Do latim ‘anima’, tornar vivo. Academicamente o ‘animismo’ tem sido refutado por estudiosos como Mercer e Grant por não conter uma sistematização independente de valores que o justifique como estrutura religiosa
Última atualização em Seg, 06 de Abril de 2009 10:25

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