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Funcionalidade dos seres visíveis e invisíveis na organização social

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A vida e a religiosidade que a envolve é organizada de diferentes formas em diferentes cosmovisões e estrutura. Neste ponto falaremos sobre a funcionalidade humana nesta organização. No ponto a seguir trataremos da funcionalidade dos seres invisíveis nesta organização da vida e religiosidade humana.

É preciso categorizar hierarquicamente (verticalmente), se possível, ou horizontalmente se, for o caso, os diferentes elementos que formam tal organização, definindo suas funções.

Hiebert[1] exemplifica o extrato do conceito indiano de vida cujas relações são essencialmente verticais e hierárquicas. No topo encontramos os elementos ligados ao espírito puro e abaixo a matéria pura. Na decorrência encontramos elementos mistos. Iniciando do topo estão os deuses elevados, deuses menores, demônios e espíritos, semideuses, santos e encarnações. Em um terreno mais misto encontramos os sacerdotes, governantes, comerciantes, castas de artesãos, castas de trabalhadores, castas de serviçais.

Caminhando para a parte mais baixa do diagrama vemos as castas excluídas, os animais elevados, animais inferiores, plantas e o mundo inanimado.

Compreender o extrato de funcionalidade humana (ou espiritual) na organização da vida e da religiosidade é um grande passo para entendermos a religiosidade do povo em si.

Em uma cultura animista, como os Chakalis do noroeste de Gana, encontramos uma organização mais horizontal em diversos setores da existência apesar desta existência ser dividida em dois níveis, o além e o aquém. Não há, necessariamente, maior ou menor importância em nenhum dos elementos em relação à vida. No Além encontraríamos três categorias funcionalmente distintas: os deuses, os ancestrais, e os espíritos livres. Cada uma destas categorias têm, sob si, diversas entidades e valores.

No mundo do aquém encontramos os homens, os totens, a natureza de forma geral, os animais e os seres inanimados. Com relação às categorias humanas, em nossa necessária pesquisa, notaremos que muitas vezes nos enganaremos com a primeira impressão, ao relatarmos algo sobre um determinado personagem do grupo que observamos. Será necessário acompanhar tal personagem em sua dinâmica de vida e posição na religiosidade do grupo para nos certificarmos sobre a sua função. Podemos categorizá-los nas seguintes funções:

Homens humanos, comuns. Sem interação especial com o mundo do além.

Homens mágicos, com poderes de manipulação, conhecidos como mágicos e xamãs. Detém conhecimento da técnica para manipular algum elemento que gere benefício pessoal ou social, normalmente envolvendo desejos, pedidos ou encomendas. Os Chakalis lançam conchas, de forma planejada e definida, crendo que assim os animais não teriam acesso às áreas onde as conchas são lançadas, normalmente ao redor das palhoças. Neste caso apenas alguns detêm o conhecimento. É necessário coletar e manusear de forma especial. São os detentores do conhecimento e normalmente o mantém de forma privativa.

Homens espirituais, que possuem ligações com o mundo sobrenatural: videntes, sonhadores e curandeiros, por exemplo. Não manipulam elementos naturais para controle sobre o destino ou a vida mas possuem ligação com o mundo do além. Tais homens espirituais são percebidos pela comunidade como detentores de um relacionamento especial, por vezes único, com o mundo dos espíritos. Videntes prevêem o futuro, ou desvendam mistérios, sob influencia dos espíritos (sejam humanos, ancestrais, ou inumanos). Os sonhadores possuem o ‘dom’ de perceber a realidade da vida do aquém através do trânsito no mundo do além durante os sonhos. Curandeiros não apenas manipulam elementos naturais (para cura) mas evocam o poder ou influência dos espíritos para tal. Por vezes podem alternar ou misturar tais processos (magia e espiritualismo), porém neste caso em particular a presença ou invocação espiritual é evidente.

Homens sagrados, contam com a proteção do mundo sobrenatural. São normalmente os eremitas, bruxos, heróis e chefes. Sobre eles não se fala mal, são protegidos, deve-se nutrir temor. Muitas vezes não possuem funções práticas nem são benfeitores. Os eremitas da idade média eram vistos como homens sagrados. Suas habitações e mesmo a terra onde plantavam eram consideradas especiais, separadas, sagradas.

Homens inspirados vêem ou falam com o mundo espiritual. As categorias mais comuns são os profetas e sacerdotes. São vistos como possuidores de uma mensagem que não lhes pertence e deve ser retransmitida a outros.

Homens místicos, que transitam pelo mundo espiritual, normalmente os místicos e feiticeiros. São pessoas que desaparecem e aparecem, viajam pelo espaço físico de forma sobrenatural, vêem os mortos e percebem processos de espiritualidade como presença de forças ou espíritos.

Homens inumanos, ou podemos também chama-los de homens/espíritos. Estão entre nós mas nunca foram de fato humanos. São espíritos incorporados e normalmente são seres mitológicos.

A relevância de identificarmos tais categorias está associada à compreensão da religiosidade do povo como é percebida e praticada. Porém não apenas isto. Ao entendermos as vias de interpretação das categorias humanas nos processos religiosos poderemos discernir melhor as formas e riscos de apresentarmos personagens bíblicos. Moisés, ao abrir o mar vermelho, por exemplo, talvez fosse identificado como um mágico. Elias, elevado aos céus, um místico. Jesus talvez fosse identificado como um inumano e assim por diante. Devemos entender que esta linguagem cultural é a maneira de comunicação viável, ou seja, os elementos externos comunicados serão interpretados de acordo com a cosmovisão local. Entendermos como se dará tal interpretação nos ajudará a discernir como explicar cada personagem, identificando-o com seu real perfil na história bíblica.

Funcionalidade dos seres invisíveis

Em um contexto animista, por exemplo, o sagrado e profano se misturam partilhando do mesmo universo de forma quase igualitária. Há, portanto, mais comumente a percepção das forças espirituais que povoam o mundo do além e aquém, sobretudo do aquém. Tais informações serão encontradas nos mitos, contos, lendas e músicas. Também as perceberemos em alguns atos de adoração e atos da vida. É vital para a antropologia missionária conhecer as principais categorias que interagem com a história e dia a dia de um povo. Em contextos mais puramente animistas podemos observar, por exemplo, a existência de algumas categorias maiores, como os espíritos (humanos) dos antigos, espíritos (espirituais) bons, espíritos (espirituais) maus e espíritos (espirituais) aéticos. Algumas categorias centrais são:

Espíritos dos antigos, antes humanos, agora inumanos. Em alguns casos serão identificados numa categoria acima dos humanos, como os ancestrais. Possuem conhecimento que não dispunham enquanto humanos e alguns possuem poderes ou influência. Entre os Konkombas são deixados alguns banquinhos para uso dos ancestrais, quando se assenta debaixo das árvores para a conversa do fim do dia.

Espíritos espirituais, nunca humanos. Foram criados (ou surgiram) já espíritos e nunca interagiram com os homens como humanos. Na Bíblia seria a figura dos anjos, mesmo com aparência humana. Podem ser bons, maus ou aéticos.

Espíritos espirituais bons, como a figura dos anjos, quase sempre ligados à proteção ou ajuda. Raros nas etnias animistas, mais simples, menos dicotômicas.

Espíritos espirituais maus, como a figura dos demônios. Há diferença de níveis e seria importante identificar o coordenador ou soberano desta categoria. A idéia do mal é necessária para a pregação do Evangelho da mesma forma que o pecado é um elemento essencial para a pregação do perdão de Deus.

Espíritos espirituais aéticos. Abundantes em grupos mais espiritualistas animistas não dicotômicos como os indígenas no Brasil. São espíritos não confiáveis.

Espíritos não espirituais, isto é, que habitam outras dimensões. São espíritos existentes, mitológicos, sobre os quais se houve falar e que sempre são reputados como não sendo do mundo dos homens, do aquém ou do além.

Há quatro temas principais que constroem o pensamento religioso em um grupo: magia, ritos, mitos e totemismo. Segue-se, portanto, quatro textos que introduzem e categorizam estes quatro assuntos. Sugiro que os estude de forma acurada antes de dar novos passos.

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[1] Hiebert, Paul. O Evangelho e a diversidade das culturas: Um guia de antropologia missionária. São Paulo: Vida Nova, 2001.

Última atualização em Qui, 09 de Abril de 2009 09:05

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