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Conceitos Antropológicos de Comunicação

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Já discorremos, ainda que resumidamente, sobre o entendimento relativo ao sagrado e profano, tabus e assuntos pertinentes. Agora, no entanto, devemos enfatizar a necessidade de se observar, de acordo com os padrões de categorização social e religiosa, alguns conceitos antropológicos de comunicação. Usaremos o contexto animista como exemplo para tornar a aplicação mais clara.

Chamarei de comunicação integral o ato de se transmitir uma mensagem de forma que a mesma possa manter a integridade de seu conteúdo original (planejado pelo transmissor) e ser compreendida, absorvida e traduzida para o contexto diário, por parte de quem a ouve (o receptor). De fato a aplicação do conhecimento para facilitar ou contextualizar a mensagem é um dos maiores desafios que enfrentamos. Vejamos, por exemplo, o conceito de sacrifício. Para a teologia cristã o sacrifício salvífico da pessoa de Cristo é resultado da graça impagável de Deus o qual, movido pelo amor, providencia uma forma de salvação do perdido. No mundo animista sacrifícios são imediatamente interpretados. Tanto os elementos quanto as motivações expiatórias. Neste caso a finalidade maior do sacrifício não é de redenção mas sim de controle. Aquele que faz uso do sacrifício, o beneficiado, o utiliza como uma forma de controle indireto da entidade espiritual a ele associado. Não obstante vermos, portanto, que em culturas africanas, por exemplo, os cristãos continuam crendo que através de ‘sacrifícios voluntários’ como ofertas e abstinências, Deus se tornará ‘submisso’ à Igreja.
 
É necessário, portanto, entender o mundo invisível do grupo estudado, sua maneira de ver e interpretar a vida e o universo, e também de absorver um valor comunicado.
 
Observando grupos animistas, e suas sociedades ao redor do mundo, vemos que a religião está na raiz de cada cultura como um fator determinante dos princípios da vida. Sem exageros poderíamos afirmar que, na cosmovisão animista, religião é vida e vida é religião. De forma simples poderíamos definir animista como um povo no qual, em todas as coisas, é religioso. Ao estudar alguns grupos animistas já alcançados pelo evangelho com diferentes níveis de influência cristã comecei a entender que em muitas situações há um abismo de conceitos, interpretações e valores entre os conceitos cristãos e a forma tribal de entender religião gerando assim altas barreiras para o amadurecimento e crescimento da igreja. Uikiid, um cristão em Gana vindo de um contexto animista uma vez disse: “Nós não decidimos fazer parte da nossa religião tribal (fetichismo); nós simplesmente somos parte dela. Nossa tribo não seria uma tribo sem nossa religião”.
H. Stuart, um antropólogo inglês, afirmou que “por muitos anos observei que crentes africanos vindo de contextos animistas entendiam os princípios cristãos somente quando estavam fora da influência tribal. Voltando para suas aldeias tornavam-se animistas de novo”.
 
É necessário entender que a mensagem do evangelho não é uma proposta importada para a cultura alvo nem mesmo um diálogo aberto onde valores bíblicos são negociados. É portanto uma resposta, supra cultural mas culturalmente aplicável, de Deus para homens de todas as culturas em todas as gerações, respondendo as questões pessoais e culturais em uma sociedade. É por isto que enfatizamos a importância de percebermos quais são as ‘perguntas’ que desafiam a sociedade alvo, antes de começarmos a expor as respostas bíblicas.
Tradicionalmente o trabalho missionário envolve trazer o evangelho como um pacote fechado que deve ser entendido em seu contexto original. Entretanto, sem conhecer as questões que atormentam e desafiam a cultura alvo, receptora, torna-se impossível abordar as áreas de tensão na cosmovisão animista especialmente quando tratamos de uma sociedade onde a base do princípio da vida está na possibilidade de resolver problemas diários.
 
O resultado de uma apresentação do evangelho sem pré-análise cultural tem sido ao longo da história o sincretismo religioso ou a simples falta de entendimento do evangelho, resultando em afirmações como a de Uikiid e H. Stuart acima.
 
No sincretismo religioso, o animismo e cristianismo dividem o mesmo universo. Bem sabemos que o sincretismo religioso é o declínio da influência cristã revelacional onde a possibilidade de apresentação de um evangelho bíblico torna-se uma tarefa dantesca por pelo menos duas ou três gerações. Na falta de entendimento do sentido do Evangelho, por outro lado, cria-se uma igreja imatura que dificilmente experimentará um crescimento normal não sendo capaz de transmitir o evangelho de forma que faça sentido ao restante do grupo. Um dos grandes desafios que temos perante nós hoje é aprender com o nosso passado e pregar um evangelho que faça sentido na sociedade.
 
Creio que, na tentativa de avaliar o impacto do evangelho em um grupo que vive em contexto animista, há três principais questões que deveríamos tentar responder:
 
- Eles percebem o evangelho como sendo uma mensagem relevante em seu próprio universo? Para mim esta é uma pergunta chave e está enraizada não meramente no conteúdo da mensagem apresentada mas em sua compreensão.
 
- Eles entendem os princípios cristãos em relação a cosmovisão tribal? Aqui é ressaltado o conceito da interpretação e compreensão, ou seja, em como determinada mensagem é recebida e interpretada no grupo que a ouve.
 
- Eles aplicam os valores do evangelho como respostas para os seus conflitos de vida? Destacamos aqui a aplicabilidade, ou seja, nosso alvo é transmitir um evangelho que possa ser não apenas compreendido individualmente em um momento explicativo mas traduzido e incorporado na vida diária.
 
No universo animista, o religioso não se distingue do não religioso; o sagrado do secular; o espiritual do material; o corpo da alma. Religião é parte de toda expressão da vida. Seja comendo, trabalhando, lutando ou descansando a cosmovisão religiosa está presente. O universo animista é, portanto, um universo integral e não dicotomizado. Nascer em uma sociedade animista tradicional significa tomar parte em todos os rituais e cerimônias que integram as crenças e valores os quais provam não haver ali ateístas. Religião é essencialmente parte da vida. Todas as ações, fatos, eventos e fenômenos possuem um sentido religioso ou são definidos dentro de uma cosmovisão religiosa.
 
“Animismo”, derivado do Latim “anima” que significa “respirar” está associado à idéia de alma ou espírito que está presente em todas as coisas “animando” o mundo e universo. Assim árvores, rochas, terra e água podem ser vistos como elementos controlados por espíritos onde o visível e invisível se misturam. Crê-se que espíritos podem possuir certos objetos e torná-los suas habitações e através disto exercer influência sobre uma pessoa, família, grupo ou toda uma geração. Isto primeiramente significa que estamos tratando de uma cosmovisão com valores definidos. Em segundo lugar, esta cosmovisão consiste na mistura de forças visíveis e invisíveis que se relacionam entre si.
 
Um outro valor central na cosmovisão animista é a religião como um elemento utilitário na sociedade. Estudando as orações dirigidas a espíritos, ancestrais e deuses em cerimônias tradicionais vemos que a maior parte dos pedidos são por bênçãos como fertilidade, saúde, paz, cura, longevidade e vitalidade. Não salvação. Normalmente cerimônias, sacrifícios e orações na cosmovisão animista são a arte de usar poderes sobrenaturais para promover o bem estar humano. Note que religião aqui torna-se mais utilitária e prática do que teológica, uma forma de união entre Deus e homem. Tenho percebido que cursos para liderança cristã provinda de um contexto animista tem um grande impacto em suas vidas quando princípios bíblicos são aplicados para guiar o povo através dos conflitos diários. Um homem Chokossi uma vez falou-me: “vocês cristãos precisam aprender como falar mais acerca dos efeitos da salvação enquanto estamos vivos, pois já sabemos que no céu será tudo maravilhoso”. O primeiro resultado de uma comunicação não integral do evangelho para uma sociedade animista é que o impacto do mesmo será minimizado. E isto é perigoso, pois gera igrejas imaturas.
 
Animistas não se baseiam em um sistema organizado de doutrinas e teologia, o que evidencia a ausência de uma teologia sistemática entre eles. Baseiam-se totalmente na experiência. Não há uma pessoa específica dizendo ter recebido uma mensagem diretamente de Deus para guiar o povo em sua vida moral e espiritual. Há evidências apenas de mensagens recebidas em alguns grupos mas de forma tão esporádica que não formam uma base coerente de valores teológicos. É também impossível, no animismo, apontar-se para um específico homem ou data quando a religião foi fundada. A implicação desta realidade para a comunicação do evangelho é que qualquer tentativa apologética para convencer a sociedade que Cristo é o caminho para Deus não terá um efeito profundo no grupo pois a verdade para eles não se baseia em evidências históricas mas sim em experiências diárias de vida. Como nós somos seres progressistas sensíveis, neste nosso mundo lógico e linear a apologética nos leva à fé. No mundo animista, o indivíduo compreende mas não acha que tem algo a ver com sua vida.
 
Encontrar as perguntas certas é um desafio antropológico. E altamente necessário para que saibamos introduzir a resposta, de forma que faça sentido. A Dra. Francis Popovich afirma que a “ferramenta de respostas a qualquer religiosidade tem que ser a teologia bíblica”. [1]
 
Tomemos, por exemplo, o caso do pudor, já citado anteriormente, que surgiu no Éden. Depois de fazer a leitura cultural e descobrir a maneira do povo revelar este pudor e o que sentem de vazio na falta de comunhão gerada pela vergonha do encontro com o divino, o lado bom que eles conhecem, vem a tarefa difícil de traduzir a verdade dentro de seus conceitos e cultura. Bonhoeffer esclarece como a resposta tem de estar no conteúdo. Porém como será na linguagem deste povo? A resposta abaixo serviria para nós, mas como traduzi-la?
 
“A superação do pudor só pode acontecer onde a unidade primitiva for restabelecida, onde o ser humano for novamente revestido por Deus no outro ser humano, pela ‘habitação celestial’, o tabernáculo de Deus (2 Co 5.2ss.). A superação do pudor só acontece ao suportar um ato de extremo envergonhamento, qual seja, a revelação do saber diante de Deus. ‘(...) para que te envergonhes, e nunca mais possas abrir tua boca por causa de tua vergonha, quando eu te houver perdoado tudo quanto fizeste, diz o Senhor’ (Ez 16.63.). ‘(...) Farei isso (...) e tereis que vos envergonhar e ficar vermelhos de vergonha por causa de vossa maneira de ser’ (Ez 36.32.). O pudor só é vencido na humilhação pelo perdão do pecado, isto é, pelo restabelecimento da comunhão com Deus e perante os semelhantes. Isto se concretiza na confissão perante Deus e os Outros. O revestimento do ser humano com o perdão divino, com o ‘novo ser humano’ que ele veste, com a comunidade de Deus, com a habitação celestial, está resumido na estrofe: ‘O sangue e a justiça de Cristo são meu adorno e minha roupa de gala’.” (Leipzig, 1638.)[2]
 
 
Nossa preocupação até o momento tem sido evitar que Jesus Cristo seja apresentado apenas como uma resposta para as perguntas que os missionários fazem – uma solução apenas para o mundo externo. Contextualizar o evangelho é traduzi-lo de tal forma que o senhorio de Cristo não será apenas um princípio abstrato ou mera doutrina importada, mas sim um fator determinante de vida em toda sua dimensão e critério básico em relação aos valores culturais que formam a substância com a qual avaliamos o existir humano. Então nosso alvo é contextualizar a mensagem. A pessoa do povo onde trabalhamos deverá entender de fato e dizer: “esta mensagem é sobre mim, sobre meu povo, para mim e para meu povo, responde às angústias e a todas as perguntas que sempre fizemos, e responde melhor que todas respostas que nossa religião dava, não apenas melhor, mas perfeitamente para nossa necessidade, aplicando a cada caso e a cada indivíduo”.
 
Para que isto aconteça é necessário observar alguns critérios para a comunicação do evangelho:
 
Em primeiro lugar, toda comunicação do evangelho dever ser baseada nos princípios bíblicos não sendo negociada pelos pressupostos culturais das culturas doadoras e receptoras do mesmo. Entendo que a Palavra de Deus é tanto transculturalmente aplicável quanto supraculturalmente evidente. É portanto suficiente para todo homem em todas as culturas e gerações.
 
Em segundo lugar, a comunicação transcultural do evangelho deve ter como objetivo final ver a Igreja de Jesus plantada de forma autóctone, com capacidade própria para expansão e amadurecimento. O treinamento de uma comunidade com tal característica deve, portanto, estar na mente do movimento missionário antes mesmo da sua chegada.
 
Em terceiro lugar, a comunicação transcultural do evangelho deve ser uma atividade realizada a partir da observação, estudo, aplicação e constante reavaliação da cultura observada e da mensagem que está sendo comunicada. O objetivo desta constante vigilância é propor um evangelho que possa ser traduzido culturalmente fazendo sentido também para a rotina da vida, da casa, roça, rua e trilha. É necessário fazer o povo perceber que Deus fala a sua língua.
 
Fazendo isto esperamos apresentar Cristo como resposta para as questões da vida no universo animista. Um Cristo que seja solução, também, para seu mundo, de acordo com a verdade bíblica que, como vimos, é supra cultural e atemporal, mensagem de Deus para todos os homens em todas as épocas.
 


[1]Silva, Cácio. Fenomenologia da religião: Uma abordagem antropológica com aplicabilidade missionária. Viçosa: CEM, 2004.
2]Bonhoeffer. Ética. Editora Sinodal.
Última atualização em Seg, 06 de Abril de 2009 13:06

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