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Contextualização: Estudo de caso entre os Yanomames da Venezuela

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Tradução: Bárbara Burns

A morte! É o final absoluto para os Yanomame. Uma vez que alguém morra, é como se nunca tivesse existido. Tudo o que possuiu é destruído para que nada reste para despertar a memória dele. Na maioria das vezes, até sua casa ou sua parte do shabono (casa comunitária) é queimada, evitando a possibilidade de, olhando para a casa ou aquela parte do teto do shabono, alguém se lembre que a pessoa morta trabalhou ali. As hortas são abandonadas, a lavoura arrancada. As casinhas de caça que a pessoa porventura usou também são queimadas. Mesmo árvores frutíferas favoritas da pessoa são derrubadas. Tudo o que lembra o morto é desfeito. Esta é a razão porque não dão nome para as crianças até que fiquem mais velhas. As chances de morte infantil são grandes e não querem ter mais um nome que precisem esquecer.

Testemunhei a primeira morte entre os Yanomame por volta de 1962. O avô de Yacuwä morreu. O seu tio, Bautista, correu para nossa casa, angustiado.

“Meu pai está passando muito mal”, ele suspirou, “Venha, logo!”
Corremos para a casinha de folhas. Desde criança eu não gostava de medicina, mas eu não podia ficar de longe, pois o velho doente era o avô do meu melhor amigo. Yacuwä estava lá, um pouco à parte, chorando. As mulheres da aldeia estavam chorando alto e gritando. Enquanto choravam, passavam as lágrimas pelo rosto, criando uma crosta preta, sinal de luto. Eu fiquei ao lado de Yacuwä enquanto ele chorava, mas lágrimas também desciam pelo meu próprio rosto. Começei a chorar com ele. A tristeza na casinha era sufocante.
Meu pai se ajoelhou na terra ao lado da rede de trepadeira do velho. Tinha que quase gritar por causa da choradeira.

“Pai”, ele gritou. O velho se esforçou para abrir os olhos. “Pode me ouvir, pai?” O velho acenou com a cabeça. “Pai, quando o senhor falou que acreditava em Jesus, o senhor tinha certeza?” Meu pai estava falando alto no ouvido do velho. Devagar o ancião acenou de novo com a cabeça.

“Sim” ele disse, numa voz tão baixa que quase não consegui ouvir. “Quando você me disse sobre um homem que era Deus, que tinha aberto um caminho para me salvar do fogo, eu dependurei meus desejos nEle, e estão dependurados ainda.”

Pouco depois, o velho morreu. Fiquei ao lado de Yacuwä enquanto observávamos os homens construirem a pira funeral. Colocaram primeiro os troncos que queimariam mais tempo e com mais calor. Em cima puseram os outros troncos, mais ou menos da maneira como meus ancestrais fizeram as suas casas na fronteira americana. Tocaram fogo no centro da pira enquanto trabalhavam, e quando terminaram tudo, o fogo já estava bem quente.

O choro ao redor era tão alto que quase não conseguia raciocinar. De repente piorou. Olhei para a casa e vi o grupo saindo com o corpo do velho, suspenso na sua rede rota, que dois homens seguravam. Correram para o fogo e jogaram o corpo, com a rede e tudo, dentro. Num instante o corpo foi coberto pelos troncos dos lados. Os participantes continuavam dançando e gritando em volta do fogo. Yacuwä também gritava angústiado. Seu rosto estava desfigurado, seus olhos cerrados, como se pudesse deixar para fora a imagem do corpo queimando. O calor era intenso. Coloquei meu braço nos ombros franzinos do meu amigo e chorei junto com ele. Quando o fogo começou a diminuir subimos numa árvore guama para ficar olhando até que ele desaparecesse de todo.

Foi a primeira vez que convivi com a realidade da morte, e senti uma tristeza inexprimível. Eu costumava chamar aquele homem de “Pai Velho”, como Yacuwä fazia, e agora ele não existia mais. Yacuwä e eu éramos como irmãos, e tendo ficado sem o avô, eu temia que os seus pais viessem buscá-lo e levá-lo para a casa deles.

Após a cremação, os ossos foram cuidadosamente colhidos do meio das cinzas, pegando-se cada fragmento e o colocando numa cesta preparada especialmente para isso. Quando terminaram, a cesta foi colocada em cima da lareira da sua casa. Mensageiros foram enviados para as aldeias vizinhas e até algumas mais longe, onde o velho tinha parentes ou a aldeia tinha aliados.

Logo que todos os convidados chegaram, eles se reuniram para triturar os ossos até virar pó. Choravam e gritavam quase tanto quanto na cremação.

Tinham feito um buraco em um pedaço de árvore de um metro e meio e cortado duas estacas de 2 metros. As estacas estavam muito decoradas. Dois homens foram selecionados e se decoraram colocando a pena branca de um gavião no cabelo. Circularam seus braços com faixas feitas das penas do pássaro curaçao, que seguravam as penas escarlates da arara, apontadas para cima. Penas de tucano e do pássaro moi espetavam as orelhas. Estavam pintados de vermelho com linhas pretas grossas atravessando de forma irregular o corpo. Dois homens despejaram o conteúdo da cesta de ossos no buraco da árvore, e, usando as estacas, metodicamente trituraram os ossos, acompanhados pelos gritos e choro dos participantes.

Os ossos triturados então foram colocados em cabaças grandes e deixados perto da lareira do morto. Nesta altura a situação começa a ficar um pouco tensa, quando as diferentes aldeias e parentes tentam decidir como dividir o pó dos ossos.
Claro, todos querem um pouco, mas alguns parentes não vão querer que alguns recebam, e os acusam de não gostar do morto por uma razão ou outra. A troca de acusações continua, mas por fim todo pó é distribuido.

No caso deste velho, havia crentes na aldeia quando ele morreu, apesar de serem minoria. Bautista não queria que ninguém bebesse os ossos, mas era apenas um entre muitos irmãos, portanto não tinha força suficiente para proibí-lo. Pequenas cabaças cheias do pó foram levadas rio acima e rio abaixo para todas as aldeias onde o velho tinha parentes. Com este pó cada aldeia ou família deveria organizar uma cerimônia de beber ossos.

Esta minha primeira experiência de uma morte foi a de um homem bem velho, mas se o morto tivesse sido mais novo, com um filho menor, o filho ouviria repetidamente a informação de quem foi o responsável pela morte do seu pai. Isto era para que logo que crescesse, ele liderasse] um ataque de vingança contra o responsável. O pó dos ossos seria guardado com cuidado até ele alcançasse a idade de participar da cerimônia de beber ossos. Logo em seguida ele teria que vingar a morte do pai e da sua infância sofrida por não ter tido um pai.
A cerimônia de beber ossos é provavelmente o evento mais importante no calendário dos Yanomame. Quando as bananas da terra são colhidas e penduradas para amadurecerem, os homens saem para uma caça mais longa. Tudo que matam é tratado para ser levado para casa. Durante esta ausência dos homens, todas os dias as mulheres passam a noite inteira cantando e dançando para assegurar uma boa caça para eles. É um tempo de muita sensualidade, devido ao fato de que todos os homens que não foram na caça aproveitam a oportunidade para ter relações sexuais com o maior número de mulheres possível.

No dia previsto para o retorno dos caçadores, os convidados começam a chegar, acampando a uma curta distância da aldeia anfitriã. Tomam muito cuidado nos preparativos para entrar na aldeia, pois sabem que o convite poderia ser um subterfúgio para fazê-los vir, com o objetivo de matá-los.

Antes de chegar de volta na aldeia, os caçadores se pintam, cada um de forma individual, como ele se vê, geralmente como um animal ou espírito. Quando estão prontos, sua chegada é anunciada pelos dois mais jovens, que, pintados e decorados com penas, abanando ramos de palmeiras, chegam de repente na aldeia, correndo em redor do páteo interno do shabono, acompanhados pelos gritos de encorajamento dos moradores. Em intervalos regulares, eles param, fazem uma dança por alguns instantes e continuam. Depois de feita toda a circunferência do shabono, voltam para o grupo de caçadores.

Ao entrar na aldeia os guerreiros dançam, girando, cada um em seu próprio estilo e ritmo, baseado na imagem do animal ou espírito que representa. Apesar de cada um fazer sua dança diferente, há uma certa coerência no todo, que é difícil de descrever mas fascinante de se ver.

Quando terminam de atravessar o círculo todo do shabono, retornam às suas próprias casas, onde aguardam a chegada dos visitantes.
Com grande barulho e fanfarra, as aldeias visitantes começam entrar, dançando. A maior parte das suas ações tem por motivo provar a sua invencibilidade e sua força se atacados. Pode-se ver, pela dança e sons emitidos, que espírito ou animal cada um representa.
Após a chegada de todos, a cabaça de ossos em pó é trazida e misturada com uma bebida de banana madura num pote grande. A mão direita é usada exclusivamente para mexer os ossos, até a bebida assumir a cor marrom dos ossos. Cabaças com o suco então são passadas para todos e no meio de gritos e choro cada um a bebe. Neste momento os homens fazem alianças para vingar a pessoa morta.

Durante o dia a maioria dos homens inalam uma droga chamada ebena. Logo estarão dançando e cantando metodicamente com seus espíritos particulares, que só enxergam quando estào drogados. Aqueles mais afinados com seus espíritos, ou jecula, aprendem novos cânticos, que ensinam para os outros para a festa de mais tarde, à noite.
Ao anoitecer, as mulheres se reunem para dançar e cantar, se insinuando cada vez mais com cada cântico. Começam a cutucar umas às outras, e logo uma e outra começa sair e puxar o homem que ela quer que saia do shabono com ela. No escuro da noite fazem coisas que normalmente não fariam. As vezes duas ou três mulheres pegam o mesmo homem para ter relações com ele. Os tabus normais são colocados de lado nestas festas. Mais tarde é a vez dos homens. Grupos de homens vão para a moradia de qualquer um para pegar a mulher que querem. Se o marido da mulher fica com raiva, não deixa isto transparecer, mas se vinga pegando alguma outra mulher para ele. Esta orgia dura até ao amanhecer. A maior parte do tempo é uma competição entre os visitantes e os donos da aldeia para ver quem consegue mais. É a causa de muita fanfarronice e brigas mais tarde.

Tudo continua até a hora dos visitantes sairem. Normalmente é neste momento que se perde o controle. A raiva explode quando ficam sabendo que suas esposas foram usadas. Começam a gritar, insultar e logo vira briga com socos, cacetes, facões, machados e, às vezes, se alguém fica seriamente ferido com estes, até armas de fogo.

Alianças formadas a partir do luto comum, podem desfazer-se de repente. Os líderes mais sábios sabem que a melhor maneira de resolver as hostilidades é direcionar os participantes para um inimigo comum. Portanto apresentam planos para atacar uma aldeia inimiga, para que a raiva que os guerreiros sentem por causa da honra de suas mulheres seja direcionado para outro fim.
Eu vi muitas outras mortes durante os anos em que trabalhei com os Yanomamö. Um dia um bom amigo de Jalalusiteli veio correndo para nossa aldeia. Ele implorou para que alguém voltasse com ele para sua aldeia, pois seu pai estava muito doente. Porque era tarde quando chegou, esperamos até a manhã para começar a longa viagem de volta para sua aldeia. Normalmente era uma caminhada de três dias, mas pela urgência da missão, Caspar consegiu chegar em um dia. Os seus pés eram a prova do seu sofrimento e não conseguiu voltar sem mancar bastante. Mesmo assim sempre nos apressava.

“Meu pai estava muito mal quando sai”, ele disse. “Estou muito preocupado.”
Olhando para ele, senti que ele não estava sendo totalmente honesto.

“O que aconteceu?” perguntei. Devagar ele me disse tudo. Não podia acreditar. Eu sabia que os Yanomame praticam o que chamam de eutanásia, mas eu não sabia que poderia ser assim tão ruim. Ele continuou a história, com a voz baixa para ninguém mais ouvir.
 

“Meu pai ficou muito doente durante a maior parte desta lua”, ele disse. “Mas depois deste tanto de dias (mostrou-me quatro dedos), ele começou a melhorar. Estava ainda fraco, mas insistiu em ir para sua horta. Nada do que falávamos o dissuadia, então acabou indo. Um pouco mais tarde, alguém passando pela horta oviu caido no chão. Ele tinha desmaiado no sol quente. Chamaram-me, e consegui levá-lo de volta para sua rede. Dei banho nele como vocês nos ensinaram, e ele abriu seus olhos e olhou para mim. Não podia falar, e seu corpo tremia incontrolavelmente. Nosso shaboti (feiticeiro) decidiu que a razão era (por)que seu espírito verdadeiro já tinha partido, e algum espírito estranho ainda estava aprisionado no seu corpo.

“Temos que deixar este espírito sair!” ele disse para todos. Eu não permiti a ninguém tocá-lo, e o protegi ferozmente.
Finalmente, depois de alguns dias sem dormir, fiquei cansado demais. Falei para meu irmão mais novo cuidar dele, para que eu pudesse dormir um pouco. Meu pai estava bem melhor, assim eu não tinha tanto que me preocupar.

Eu tinha acabado de dormir, quando meu irmão começou a me chamar em voz alta. Fui correndo. Havia]um tumulto ao lado da rede do meu pai. Cheguei a tempo de ver o feiticeiro amarrar uma corda no pescoço do meu pai e o puxar. Peguei o shaboti pelos ombros e o joguei para o lado.

“Saiam de perto do meu pai, homicidas!” gritei.
“Não, não, não é seu pai. Você não entende!” eles gritaram de volta. Mas desamarrei meu pai, que estava com cordas prendendo pernas e braços. Se eu não tivesse chegado, teria morrido.

Eu estava furioso enquanto o desamarrava. Gritei todos os insultos que podia imaginar. Finalmente falei com o feiticeiro principal que eu ia buscar você, e que se meu pai morresse, mesmo dormindo, eu iria matá-lo. Eles calaram-se, mas sem me aprovar. Espero que meu pai esteja vivo!”. Seus olhos encheram-se de lágrimas.
Descemos com pressa o trilho. Ao chegar perto da aldeia, ouvi o som de choro.

“Oh não! Chegamos tarde!” Caspar começou a chorar. Em nosso grupo estava um visitante, Rick Johnson, dos Estados Unidos. Fomos para a casa do Casper aonde a aldeia inteira estava reunida em luto barulhento para o velho homem. Rick e eu ficamos um pouco à parte. O desapontamento que sentimos foi terrível. Isto acontece demais na selva. As viagens são tão difíceis, demoram tanto, e a malária pode matar tão rápido que estamos sempre correndo contra o tempo, uma corrida que muitas vezes não ganhamos.

Rick tocou meu braço e apontou para a rede com a pergunta: “Mike, ele está se movimentando ainda? O que está acontecendo?

Eu olhei para a rede, quase não acreditando naquilo que estava vendo. A rede estava movimentando-se. O velho estava vivo ainda. Passamos com dificuldade pela multidão. Peguei seu braço magro para ver se havia pulsação. Senti o coração batendo, mas fraco e fora de rít(i)mo.

“Ele está vivo, Rick, mas não por muito”, falei. Rick pegou logo sua bolsa com remédios e preparou uma injeção. O paciente estava queimando de febre. Enquanto isso pedi a outra pessoa para dar-lhe banho com água morna, para ajudar a baixar a febre. Ele estava tendo convulsões, que o faziam tremer e contorcer.
Depois de ter dado a injeção, Rick tentou fazê-lo tomar um remédio contra malária. Como desejei que tivéssemos um remédio injetável, mas não tínhamos.

Finalmente Rick conseguiu fazer o velho engolir dois comprimidos. Sentimos que não deveríamos ir longe demais, pois ele poderia parar de respirar enquanto estivéssemos tratando dele, o que seria ruim, pois a culpa seria nossa. Durante a noite voltamos várias vezes para ver como estava. Rick ficou preocupado com a desidratação, e tentava fazê-lo engolir algum líquido cada vez que voltava. Enquanto estava fazendo isto, o homem abriu os olhos e olhou para mim. Agachei-me ao lado da rede e perguntei: “Pai, pode me ouvir? Sabe quem sou?”
Ele piscou os olhos como para limpar as vistas e acenou com a cabeça.

“Sim, estou lhe ouvindo, Maikiwa”, sussurrou. Eu me alegrei. Pensei que afinal tudo ia dar certo.

“Maikawä, estou com muita sede” ele falou de novo.
Eu estendi a mão para pegar a cabaça de água que Rick me deu e a coloquei nos lábios do velho. Ele engoliu um pouco e se deitou de novo na rede. Ficamos alí perto, monitorando-o por um pouco mais de tempo, mas, satisfeitos de que estivesse dormindo, voltamos para nossas redes. Eu estava aliviado, pensando que o velho ia sobreviver. Peguei logo no sono.

De repente alguém estava sacudindo minha rede.
“Oi, levante. Não sei o que está acontecendo, mas não parece coisa boa”, Rick disse.

Pulei da rede. A aldeia estava de novo em pranto. Corremos para a choça, mas desta vez era verdade, o velho estava morto! Não acreditei. Tudo que tínhamos passado durante a noite, para perdê-lo agora! Não era justo. Baixei minha cabeça e Rick e eu voltamos para as nossas redes.

De repente, Ramon estava do meu lado.
“Precisamos sair agora”, sussurrou.
Olhei para ele. O seu olhar me convenceu que ele não estava brincando. Traduzi para Rick e expliquei, “Os Yanomame não se conformam com apenas observar algum luto. Nosso grupo pode estar correndo perigo. Precisamos sair imediatamente”.

“The Yanomamö do not do grieve well. Our guys could be in danger. We need to get out of here.”

Desarramamos nossas redes e as guardamos nas mochilas. Com pressa as pegamos e nos viramos para sair, mas eu queria falar alguma coisa, qualquer coisa, para Casper. Achei-o ao lado da rede de seu pai, chorando copiosamente. Dei um abraço nele e expliquei que estávamos saindo. Ele olhou para mim com compreensão.

“Sim, é o melhor”, ele disse.
Coloquei meu rosto perto do dele. “Meu amigo, estou orando por você”, disse com lágrimas.
Sai com os outros do nosso grupo, mas, apesar de não estar presente, pude ver na minha mente exatamente o que estava acontecendo na aldeia. O choro crescente, a construção da pira de cremação e, finalmente, as chamas que consumiriam o corpo do morto.

Pegando um pouco das cinzas, os guerreiros vão correr para a rede onde está ainda o corpo. Com gritos de guerra, batem no chão e nas estacas da rede, para espantar quaisquer espíritos que ainda o estejam segurando. Com a coragem que os gritos dão, pegam a rede e a levam correndo para o fogo, gritando cada vez mais. Jogam o corpo no fogo e o cobrem com as brasas. Os gritos se intensificam.

Quando o fogo diminue, os participantes, exaustos, saem em direção às suas redes, ainda chorando. Apenas Casper e sua família icam ao lado do fogo. Finalmente a esposa de Casper o leva de volta à sua choça, deixando dois homens cuidando do fogo até que fique apenas uma pilha de cinzas quentes.

Voltando pelo trilho para casa, pude imaginar Casper, sentado ao lado do fogo, chorando. Eu também estava chorando. Chorando pelo meu amigo e por mim também. Eu amava e respeitava muito o velho e fiquei muito triste por não ter conseguido chegar antes e ter feito mais por ele.
Cerca de três meses atrás, fui para a aldeia de Carawana para encorajar nosso bom amigo e seminarista Juan Carlos, que havia perdido seu filho há umas duas semanas. Seu filho tinha sido um dos nossos alunos de seminário também. Ficamos sabendo que o leaju, ou cerimônia de beber ossos, ia acontecer nos próximos dias, e queríamos chegar antes. Mas, quando chegamos, ficamos sabendo que os caçadores já tinham voltado e a cerimônia ia acontecer no outro dia.
Ao entrar na aldeia vimos um grupo grande de enlutados na casa de Juan Carlos. Antônio foi direto para lá. Ajoelhou-se e abraçou Juan Carlos. “Não chore”, disse para ele, “seu filho está nos céus neste momento”.

A multidão aquietou-se para ouvir o que estava sendo dito pelo visitante. “Juan Carlos, meu amigo” ele disse, “você e sua esposa vão ver seu filho de novo. A Bíblia diz que quando um crente morre, ele já está com Deus. Vocês estão tristes. É nosso fim, pois desde que Adão pecou, temos que passar pela morte. Mas a Bíblia diz para não nos entristecermos como os que não tem esperança. Você e sua esposa receberam a salvação em Cristo, dessa forma seus olhos vão contemplar mais uma vez seu filho. Esta É a nossa esperança!”

Juan Carlos concordou acenando devagar a cabeça. Levantou-se e veio para receber nossos abraços. Ele nos levou para um lugar perto da sua casa onde seu filho tinha construído um local de reuniões completo, com bancos e tudo mais para os cultos. As lamentações e choro da comunidade começaram de novo; enquanto isso penduramos nossas redes.

“Venho falar com vocês mais tarde” Juan Carlos nos disse. Ele retornou para junto dos participantes do luto. Aquela noite, por volta de 19 horas ele e a esposa vieram para onde nossas redes estavam. Eles ficaram ouvindo enquanto nós falavamos sobre a vida em Cristo e a esperança do futuro após a morte. A sua esposa começou a chorar baixinho enquanto eu lia os versículos que relatam que na volta de Jesus os vivos não serão deixados para trás, mas que os mortos em Cristo vão ressuscitar primeiro, e nós vamos nos encontrar com o Senhor nos ares. Fiquei surpreso quando os dois disseram que estavam bem. Deus estava dando forças para eles, mesmo em meio à tristeza. Eles sabiam que seu filho estava nos céus com Deus.
Juan Carlos começou a falar: “Meus amigos, sou crente, mas estou sozinho aqui. Todos os homens nesta aldeia são meus parentes. Tenho irmãos, tios, primos, e todos eles estão pedindo os restos do meu filho. Sei que eu não preciso beber os ossos do meu filho para o bem estar dele, mas minha aldeia não pensa assim. Sou apenas uma voz. O que beber os ossos de meu filho vai trazer de benefício para ele?”
Da tristeza intensa do seu rosto, era óbvio que ele tinha medo que suas ações pudessem de uma alguma forma fazer com que ] seu filho fosse lançado fora dos céus, ou algo assim.

“Meu amigo”, eu disse para ele, nada que alguem possa fazer agora vai atingir seu filho. Ele já se foi deste corpo, e seus ossos são apenas ossos. Seu filho está nos céus. Deus vai dar um novo corpo para ele.”
Ele agradeceu com um sorriso.

Eu gostaria de poder descrever adequadamente a experiência que passei naquela aldeia. As lamentações, gritos, cânticos aos demônios, e o volume atordoador do barulho a noite toda impossibilitou-me o sono. Apesar do fato de que Cristo morreu para dar vida, tão poucos Yanomame tem aceito o Evangelho! A profundidade do seu desespero foi quase palpável. De madrugada a cacofania aumentou e ao romper do dia, enquanto as espingardas disparavam, os visitantes começaram a chegar.

Cada guerreiro, pintado com a representação dum animal ou espírito, dançaram e rodopiaram pela aldeia, [su]as cores brilhantes contrastando com os sons do luto. Isto se estendeu por muito tempo.
Em cada funeral dos Yanomame os enlutados carregam um objeto que pertencia ao morto. Há prioridades e hierarquia nesta cerimônia. Os pertences mais preciosos para o morto são carregados pelos parentes mais próximos. Neste caso era a mãe. Que belo testemunho foi para mim quando vi o que ela estava carregando. Alí, embrulhado num envelope grande, estava o Novo Testamento Yanomame e seu hinário. No meio de tanta confusão e opressão, o testemunho do rapaz foi brilhante.
Para os Yanomame a morte é central e final. Tem sido difícil para os novos crentes superar a angústia que isto gera, compreendendo o ensino bíblico de vitória sobre a morte. Mas, devagar, assim que crescem no conhecimento da Palavra, há mudanças.

Há dois meses o homem mais velho de nossa aldeia morreu e foi cremado. Eu estava com alguns outros crentes em uma outra aldeiaquando isto aconteceu. Os enlutados, no entanto, esperaram nossa volta para determinar o que fazer com os ossos.
O velho tinha convocado sua família antes da sua morte, e lhes disse que ele estava indo para casa, porque seu Pai tinha enviado Seus “seres” para buscá-lo. Ele parecia surpreso que ninguém conseguisse ver os seres que ele estava apontando. Mas isto não era a sua mensagem principal para sua família. Ele falou para seus filhos que eles tinham que seguir o Senhor com todo seu coração. “Ensine seus filhos, para que eles possam seguir após vocês”, ele enfatizava repetidamente.

Ele os instruiu de como tratar seu corpo após a sua partida. “Não chamem as pessoas das outras aldeias”, ele disse, “apenas queimem meu corpo e enterrem os ossos. Não os triturem. Apenas os enterrem. Não deixem que meus parentes que não são crentes venham e tentem pegar meus ossos”, falou enfaticamente.
Os filhos tentaram fazer tudo que ele pediu, apesar do fato de que na morte de um homem tão conhecido e popular como ele, havia pessoas chegando mesmo sem convite. Mas o que aconteceu na casa do morto nesta manhã, acabou sendo uma celebração da]vida e não uma lamentação desesperada da morte.

Nós nos ajuntamos e cantamos hinos enquanto um buraco estava sendo cavado em baixo da casa do velho, para receber a pequena caixa com os ossos que eles tinham pedido para meu filho Ryan fazer. Depois Alfredo, o neto do velho, leu alguns versos preciosos de Tessalonicensses.

Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com estas palavras (2 Ts 4:13-18 NVI).

Quando terminou, Timóteo leu Hebreus 2:14-15:
Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte (NVI).

Que cena diferente do que aquela que eu tinha imaginado na morte do velho! O velho tinha sido o caçique, e tinha sido um líder muito respeitado na aldeia. Normalmente a morte de alguém como ele faria com que a aldeia toda mudasse de lugar, pois ninguém quer [e lembrar mais dele. De fato ele era conhecido como "Coshilowäteli", o nome da aldeia, mais uma razão para deixar a vila para trás, para não se falar o nome dele. Eu não sabia como os cristãos iam agir nesta situação.

Hoje, eu vi algo diferente. Em vez de destruir as posses do velho, como [seria]normal, fiquei surpreso em ver Otávio, o filho mais velho, andando com a lança do morto. Isto era ainda mais surpreendente porque um dos nomes do velho era Shokobiwä (“lança”). Tradicionalmente, este fato faria com que a lança fosse uma das primeiras coisas a ser destruída. Mas Otávio se pos na frente de todos, e aos poucos atraiu a atenção para ele. Elevando a lança, esperou até que todos se aquietassem, até mesmo as velhinhas lá atrás.

“Estamos fazendo as coisas de forma diferente aqui” disse para os visitantes presentes. “Meu pai se tornou uma nova pessoa muitos anos atrás. Era um guerreiro feroz, mas depois que aceitou Cristo, mudou. Não participava mais dos ataques para matar pessoas, mas fazia muitas viagens para compartilhar sua nova vida em Cristo. Agora estamos reunidos porque meu pai não está conosco mais. Ele já partiu.

“Um dia, nós que temos recebido a mesma nova vida que ele tinha, vamos encontrá-lo de novo. A Palavra de Deus diz que vamos nos encontrar com nossos entequeridos nos ares, com Jesus. Eu creio nisto. Se meu pai foi antes de nós, não vou destruir as suas coisas. Vou guardá-las e vou tratar com carinho esta sua lança. Quando eu morrer, vou pedir para meu filho guardá-la, porque quero lembrar do meu pai. Quero lembrar a grande mudança que Deus fez no seu coração. Meu pai amava a Deus! Ele falava com Ele o tempo todo. Agora ele pode falar com Ele frente a frente. Estou muito contente por meu pai. Ele sofreu nos seus últimos anos aqui. Não está sofrendo agora.

“Crianças”, disse ele, virando-se para o coral, “cantem o número 39 do hinário.”
Eu quase não acreditava no que estava vendo. Já tínhamos cantado três hinos apropriados para um funeral cristão, mas este, número 39, era quase que alegre demais! Era um cântico chamado “Na Casa do Meu Pai”, e todos nós cantamos a plenos pulmões. Que beleza!
Através dos anos temos observado como nossos irmãos Yanomame tem lutado com a decisão do que fazer quando da morte de um familiar. Nos primeiros anos em Cosh, os primeiros cristãos não demoraram em decidir que os crentes não deveriam participar da cerimônia do beber ossos. As razões que os levaram a esta decisão foram as seguintes:
Aprendemos como triturar e beber os ossos de Omawä, o chefe dos jecula (espíritos). Agora que somos filhos de Deus, não queremos continuar nas coisas aprendidas dos espíritos.

Omawä nos ensinou que a morte não é um acidente, portanto tinha que ser vingada. É uma das razões centrais que nos leva a beber os ossos. Em tomá-los, assumimos a obrigação de vingar a morte da pessoa.
Como cristãos sabemos que quando um crente morre(r), ele está com o Senhor. A velha prática de beber ossos, fazendo com que a pessoa fique conosco, não é mais válida.

O beber os ossos é parte integrante do processo de fazer um compromisso de ir depois atacar outra aldeia para vingar a morte. Como crentes, sabemos que é errado matar, ou até mesmo participar qualquer coisa que esteja ligada ao assassínio de uma pessoa.

Na cerimônia de beber ossos todos tomam ebena, (drogas), participam de orgias e, em uma palavra, totalmente se entregam a uma vida de auto- satisfação e não a uma vida para o Senhor.

Quando perguntei a alguns crentes sobre estes pontos, especialmente pedindo razões bíblicas para rejeitar a cerimônia de beber ossos, eles, sem pensar muito, me deram os seguintes versículos:
Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: “Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”. Portanto, “saiam do meio deles e separem-se”, diz o Senhor. “Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei” “e lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas”, diz o Senhor todo-poderoso.
Amados, visto que temos essas promessas, purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus (2 Co 6:16-7:1 NVI).

Portanto se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas! `(2 Co 5:17 NVI).

Eles falaram de pronto que estes são apenas alguns dos muitos versículos desafiando os crentes a viver para o Senhor e renunciar as coisas do diabo.

Parece para mim, que aqueles que tem feito uma renúncia clara da cerimônia dos ossos têm realmente crescido no conhecimento do Senhor e na fé, enquanto os que não decidiram, ou não tiveram coragem de tomar posição contra a aldeia, nunca amadureceram no Senhor, vivendo sem Sua alegria e paz.

Apêndice
1. SIGNIFICADO dos ritos
Beber os ossos permite à pessoa morta viver com eles.
É profanação a pessoa não beber os ossos.
Beber ossos permite à pessoa ir para a casa de yalu, um tipo de paraíso com muita comida, mulheres bonitas, boa caça, etc. Se ela não beber os ossos, não pode ir para lá.
2. PORQUE os cristãos escolheram não participar?
É nesta ocasião que é assumido o compromisso de realizar ataques para vingar a morte da pessoa.
Orgias
Drogas
A cosmovisão mudou sobre o que acontece com os mortos e quem controla a vida.
3. Do que participam?
Ainda fazem cremação dos mortos
Ainda ajuntam os ossos
A maioria ainda tritura os ossos antes de enterrá-los
4. Porque abandonariam o tabu de destruir tudo?
A razão dada por Octavio foi que desde que ele sabia onde o pai estava, e desde que sabia que um dia estaria com ele de novo, não via razão de continuar agir como as pessoas que não tem esperança. “No velho caminho, não tínhamos esperança, então não queríamos ter coisas que nos lembrassem da pessoa, mas agora temos esperança”, ele disse para mim.
Última atualização em Qui, 02 de Abril de 2009 16:35

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14 de dezembro de 2014

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