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Comunicação Verbal e Não Verbal

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Um estudo para Antrolopologia Cultural

Revisado por Howard Culbertson
 
 
Tradução de Catarine Conti
(Adapted from Communcating Christ Cross-Culturally. Used under the educational "fair use" provision of the 1976 U.S. Copyright Acts.)

Vários anos atrás, um político americano popular viajou a um país da América Latina. Quando ele chegou ao aeroporto do país que o recebia, ele saiu da aeronave acenando para a multidão reunida que incluía dignitários e repórteres da imprensa local. Alguém perguntou ao político americano como havia sido sua viagem. Como resposta, ele usou o dedo polegar e o indicador para expressar o comum “O.K.!” que, mesmo num gesto rápido, foi capturado pelas câmeras.

Deixando o aeroporto, o político americano foi para uma rápida visita com oficiais do governo local. Em seguida, ele foi até a principal universidade daquela região para proferir um discurso. Ele foi acompanhado até a universidade pelo seu tradutor oficial do governo dos Estados Unidos que por acaso era um militar e estava uniformizado. O discurso do político americano tratou do desejo dos EUA prestarem ajuda aos países vizinhos latino-americanos através de auxílios na economia de forma a melhorar a condição dos mais pobres.

A viagem toda foi um desastre. Por quê? Porque apesar da comunicação verbal do político americano ter sido satisfatória, não-verbalmente ele comunicou uma mensagem totalmente diferente.

Quando indagado sobre como havia sido a viagem, o americano gesticulou o que pra ele significava um simples “O.K .” Este gesto foi fotografado pelos noticiários e impresso nas primeiras páginas dos jornais locais. Enquanto este gesto com as mãos significa “O.K.” na América do Norte, ele representa um gesto obsceno naquela região da América Latina.

A universidade que o político americano escolheu para proferir seu discurso havia acabado de ser um local de manifestações violentas contra o governo. O governo havia escolhido aquela universidade na expectativa de demonstrar uma solidariedade quanto à manifestação dos estudantes. Estes, porém, viram o político americano como um amigo do governo local que estaria invadindo sua universidade com um tradutor militar. Os estudantes interpretaram a presença do militar como se o político americano estivesse apoiando os policiais do governo local.

O político americano se comunicou através de dois tipos de mensagens radicalmente diferentes: uma verbal e outra não-verbal.

Qual a primeira coisa que você repara em uma pessoa? Roupa? O rosto? O “estilo”? O que quer que seja, provavelmente não é a linguagem. Embora a linguagem não seja a característica mais proeminente em uma pessoa, ela é certamente uma das mais reveladoras. Até que a comunicação verbal seja estabelecida, o conhecimento sobre a pessoa é limitado e parcial. A linguagem permite que as pessoas conheçam seus pensamentos, interesses, sua visão da vida e, acima de tudo, a você mesmo.

Linguagem é falada. Linguagem é escutada. A verbal, forma audível da linguagem, é sua característica mais óbvia. Consiste em símbolos audíveis expressos pela pessoa que fala. Nossas respostas a estes símbolos variam de acordo com o nosso entendimento ou familiaridade com a linguagem específica. Comunicação também ocorre num contexto inaudível, não-verbal. Certos movimentos corporais correspondem com mensagens que são faladas de forma audível. Em alguns casos, o movimento corporal associado pode substituir totalmente a fala. Uma sobrancelha elevada pode significar “sim” ou um movimento com as mãos dizer “tchau”.

Linguagem pode ser de forma escrita. Assim, não mais audível. Vários alfabetos, incluindo hieroglífico, pictoral, ou ortografia fonética, têm sido usados ao longo da história. A saber, nem toda sociedade tem uma forma escrita de sua linguagem falada. Porém, toda linguagem pode ser escrita, e cada pessoa tem o potencial de escrever a língua que fala.

A Linguagem comunica o que os membros de uma sociedade precisam saber. É a principal ferramenta de qualquer grupo social, mostrando lealdade baseada nos relacionamentos ou eventos do passado, presente ou futuro. Linguagem também pode romper uma sociedade, uma vez que ela pode destruir relacionamentos e lealdades. O apóstolo Tiago mostra que isto é possível ao descrever que a língua é como fogo. Ele diz: “vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva!” (Tg 3:5).

Isto nos leva a definir linguagem como comunicação verbal, sistemática e simbólica. Linguagem é sempre verbal. Linguagem falada é a base para todas as outras formas de linguagem: linguagem escrita, linguagem de sinais, e gestos. Os símbolos escritos servem para representar os sons.

Linguagem não é apenas algo falado. Ela também pode ser sistemática. Toda linguagem é estruturada. Há interações entre o que age e suas ações, e seus modificadores. A estrutura formada por estas interações é chamada gramática. Toda linguagem tem uma gramática e o seu falante segue suas regras mesmo não estando atento a elas. Uma criança de cinco anos pode não saber a diferença entre um substantivo e um verbo, mas pode falar uma frase gramaticalmente correta. Gramática dá sentido à linguagem. Ela nos informa quem é o que age e quem está sofrendo a ação.

Além de ser verbal e sistemática, linguagem também é simbólica. Nós usamos símbolos para representar várias classes. Estes símbolos são arbitrários e não estão diretamente ligados à classe de objetos que eles representam. Por exemplo, não há nada sobre animal peludo, quadrúpede, que é amigo do homem, que sugira "cachorro" ou "perro" ou "chien". São simplesmente sons que o português, espanhol e o francês concordaram em chamar este animal em particular. Símbolos são abstratos. Ou seja, nós podemos falar sobre um cachorro que não está presente ou mesmo sobre um que jamais existiu. Podemos manipular os símbolos. Linguagem é possível porque seres humanos são capazes de atividade simbólica.

Enquanto a linguagem é verbal, sistemática e simbólica, sua função é comunicação. De fato, podemos até definir linguagem como comunicação. Linguagem é um veículo usado para tentar transportar o que está na mente de uma pessoa para a mente de outra pessoa. É um veículo para conceitos abstratos.

O FENÔMENO DA LINGUAGEM

Linguagem serve como uma ponte entre os aspectos biológico e cultual da vida. Malinowski percebeu sete necessidades biológicas cruciais da vida humana: metabolismo, bem-estar, segurança, crescimento, reprodução, movimento e saúde. Seres humanos, respondendo a estas necessidades biológicas, formam e perpetuam estruturas sociais e instituições projetadas para preencher estas necessidades.

A Linguagem serve o grupo social providenciando um meio vital de comunicação entre os membros do grupo enquanto eles vão estabelecendo e perpetuando as instituições projetadas para satisfazer suas necessidades biológicas. Obviamente, comunicação é muito mais do que simplesmente o uso da linguagem verbal, ou mesmo da escrita. Envolve a soma total da mensagem enviada em um contexto social: mensagens organizacionais, mensagem posicional e relacional, bem como mensagens de origem verbal. Unindo o passado com o presente, isso assegura ao grupo que as necessidades estão sendo satisfeitas, ou indica que alguma reorganização da sociedade é necessária. Um estudante sofrendo ‘falta de ar’ numa sala bastante quente tem várias formas de agir. O estudante pode apenas contorcer-se desconfortavelmente. Isso não vai adiantar muito porque ele provavelmente será ignorado. Ele poderia levantar a sua mão (um sinal não-verbal) e ainda não dizer nada. Isso deve atrair alguma atenção, mas sem dúvidas ele seria considerado esquisito ou idiota. Se ele não tentar nada mais, o calor continuaria excessivo. A Linguagem é necessária. A situação pode ser remediada para o presente e futuro se o estudante falar com o professor, e o professor falar ao departamento de manutenção. A pessoa que receber a notificação do problema também usará a fala para remediar a situação.

A fala começa no cérebro. A complexidade do cérebro permite uma fala complexa. Vários experimentos têm tentado ensinar os primatas superiores a se comunicarem com humanos através da fala. Apesar destes animais conseguirem falar e serem entendidos de forma limitada, eles jamais replicarão a fala humana devido seus mecanismos vocais limitados, bem como uma complexidade limitada de seus cérebros. Esta limitação afeta a habilidade deles formarem sons, desenvolver frases complexas, correlacionar expressão com significado, e transmitir e ensinar esta complexidade a seus descendentes.

Evolucionistas têm tentado explicar a linguagem como tendo sido desenvolvida das formas simples para as mais complexas, ou de acordo com Otto Jespersen, das mais complexas para formas mais simples, e então uma expressão mais eficiente. Talvez, o grande equívoco foi que eles distinguiram entre linguagens ‘primitivas’ e ‘verdadeiras’. As primeiras não se qualificam como linguagens totalmente desenvolvidas. As últimas são basicamente as linguagens européias.

Na realidade, todas as linguagens conhecidas são expressões adequadas da cultura na qual ela funciona. Toda linguagem tem uma regularidade de estruturas, potencial de expressar conceitos abstratos, e características geralmente associadas com linguagens ‘verdadeiras’. Deve-se considerar que algumas linguagens são mais avançadas, mas não superiores, do que outras em áreas de presença tecnológica e filosófica. As linguagens menos avançadas podem ser chamadas de ‘locais’, e as mais avançadas, linguagens ‘mundiais’. Apesar de todas as linguagens terem recursos para expressarem as mesmas coisas, a linguagem diretamente associada com o crescimento industrial e urbano desenvolveu um vocabulário adicional e flexibilidade sintática.

Recentes tentativas de explicar a linguagem em sua forma mais científica afirmam que houve uma transição ou desenvolvimento das formas sistemáticas de comunicação para a linguagem apropriada (do gemido para palavras, por exemplo). Lingüistas trabalharam na tentativa de ver como essa transição teria dado lugar. Edward Sapir lidou com a transição da linguagem a partir da função expressiva para a referencial. Ele entendeu que a linguagem teria começado como uma reação espontânea à realidade.

O conhecido lingüista Noam Chomsky entende que linguagens primitivas nunca existiram. Ele percebeu que a linguagem, independente de onde ela é encontrada, é adequada para o uso pelo grupo social.

AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

Todas as sociedades humanas usam a linguagem. Os meios pelos quais os membros destas sociedades adquirem sua linguagem é de grande interesse dos antropólogos e lingüistas. As seguintes observações de Chomsky ajudam no entendimento deste processo: Não há evidência de linguagens primitivas. Todas as línguas conhecidas têm estruturas gramaticais bem estabelecidas e são capazes de expandir para incorporar uma nova tecnologia ou conceitos daquela sociedade. Da mesma forma que não há linguagens primitivas hoje, também não há evidências de que alguma tenha existido.

Crianças, em qualquer sociedade, começam a aprender a linguagem aproximadamente com a mesma idade. Americana, mexicana, chinesa ou saudita, todas começam a adquiri sua linguagem entre os 18 e 24 meses de idade. Não se conhece uma sociedade onde a aquisição da linguagem comece antes ou depois.

Crianças, em todas as sociedades, aprendem a linguagem numa mesma proporção. A criança chinesa aprende chinês numa mesma proporção em que uma americana aprende inglês, ou uma mexicana aprende o espanhol. Em torno dos cinco anos de idade, crianças em todas as sociedades normalmente já dominam a estrutura gramatical de sua língua.

Com base nestas três observações, Chomsky concluiu que há um fator imediato envolvido na aquisição da linguagem. Ele postulou que seres humanos têm uma habilidade inata para linguagem.

Evolucionistas têm dificuldades com o esquema de Chomsky, pois segundo ele não há evidências para a evolução da linguagem. Isso, claro, estaria em harmonia com a posição criacionista bíblica.

LINGUAGEM NA CULTURA

A Linguagem muda através do tempo. Como resultado, há estudos lingüísticos históricos e comparativos. A Linguagem também varia de lugar para lugar, resultando no estudo da dialetologia. O resultado dessa variação na linguagem pode ser um dialeto – quando um grupo menor tem variedades na linguagem que não são comuns à maioria das pessoas q a falam – ou um idioleto – quando uma pessoa desenvolve sua forma peculiar de usar a linguagem.

Diferentes grupos sócio-culturais também vão designar diferentes qualidades a objetos, animais ou pessoas. Por exemplo, nos EUA o cachorro é considerado o ‘melhor amigo do homem’. Na cultura hebraica nos tempos do antigo testamento, o cachorro era um animal desprezado.

Torna-se necessário, então, mudar o conceito de linguagem como sendo uma expressão da cultura, para um de comunicação através do uso da linguagem. A linguagem presta serviço à cultura que a originou. Não há nenhuma consagração da linguagem à parte do grande contexto de significados estabelecidos em uma cultura. Desta forma, estudantes de cursos de língua estrangeira são geralmente incapazes de falar aquela língua quando entram num grupo cultural da mesma. Os estudantes aprenderam a língua em relação a suas próprias perspectivas e valores sócio-culturais e não como aquelas pessoas que falam aquela língua tendo-a como materna. Fluência em uma segunda língua está geralmente prejudicada por hábitos incorretos aprendidos previamente. Reaprendizagem da prática da língua leva tempo. Alguns não conseguem quebrar os maus hábitos, e então, não ganham fluência.

Pelo fato da linguagem ser um comportamento aprendido, ela vem a ser parte da cultura. Adaptação a um aspecto cultural começa até antes do nascimento. Os horários, por exemplo, são culturais. O feto está sujeito ao tempo da mãe antes do nascimento. Após o nascimento, se alimentar, dormir, e outras atividades são umas das primeiras experiências vividas pelo bebê. Cada cultura faz os seus próprios horários. Pessoas em algumas culturas acordam cedo, pessoas em outra dormem tarde. O poder desta rotina é sentido somente quando uma pessoa deixa a sua cultura ou subcultura e se muda para outra com uma rotina radicalmente diferente. O nosso ciclo é algo tão internalizado que uma alteração forçada nos horários é emocionalmente perturbador e destruidor.

Culturas variam em valores, qualidades, ou características que elas determinam para as coisas, animais ou humanos.

Culturas, ou grupos sócio-culturais, também dividem todo o universo em suas formas particulares. Atribuições de características e categorias são feitas para ajustar os padrões. Cada sociedade tem sua própria divisão do espectro de cores.

Assim como há linguagens com apenas três vogais e outras têm doze ou quinze vogais, algumas sociedades têm uma invenção limitada de cores enquanto outras têm quantidades absurdamente maiores. Donas-de-casa norte americanas podem geralmente reconhecer e nomear mais cores do que seus maridos. Mulheres que trabalham com tecidos podem geralmente distinguir e nomear mais tecidos do que as donas-de-casa. Porém, qualquer norte americano, homem ou mulher, provavelmente distingue muito mais cores do que um índio da tribo Mayan na América Central. Para o Mayan, o espectro de cores é dividido em apenas em cinco partes mais uma sexta qualidade que seria ‘sem cor’. Sua linguagem reflete esta divisão do espectro, designando apenas seis palavras para as cores. A introdução de uma tonalidade de cor não reconhecida como uma destas seis exige a criação de um novo termo, podendo ser emprestada de uma linguagem que possui mais categorias de cores, ou a modificação do nome de uma cor acrescido de claro ou escuro, ou a duplicação de algum prefixo para indicar intensidade da cor.

Sapir e Whorf alegam que seres humanos estão escravizados por seus próprios processos culturais de divisão do universo em categorias. Padrões pensados estão baseados na linguagem. Eles afirmam que as categorias lingüísticas não são resultado de um processo de pensamentos. Em vez disso, o pensamento depende das categorias lingüísticas arbitrárias já existentes.

H.Douglas Brown afirma que suas hipóteses podem ser demonstradas pela forma como várias línguas dividem o espectro das cores. Todo humano, com visão normal, vê a mesma escala de cores. Todas elas se diferenciam nos mesmos comprimentos de onda da luz. Se as categorias da linguagem ou lingüística fossem o resultado do pensamento, nós esperaríamos que o espectro fosse dividido nas mesmas faixas de cores em todas as línguas. E não é o que acontece. Em Inglês o espectro está dividido em sete categorias básicas: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, violeta e roxo. Em Shona, linguagem da Rodésia, o espectro está dividido em três categorias básicas: cips uka (vermelho e roxo nas duas extremidades), citema (vai do azul até o verde) e cicena (verde e amarelo). Em Bassa, língua da Libéria, o espectro está em duas categorias básicas: hui (a extremidade azul-verde do espectro) e ziza (a extremidade vermelho-laranja do espectro). Os índios Zuni do sudoeste da América vêem vermelho e laranja como uma categoria básica, e os índios Taos do Novo México vêem amarelo e laranja como uma categoria básica. Em Madagascar, o idioma ali falado distingue mais de cem categorias básicas para as cores.

Mapa lexical das cores do espectro em três diferentes línguas.
Inglês
Roxo
Azul
Verde
Amarelo
Laranja
vermelho
 
Shona
cips uka
citema
cicena
cips uka
From Principles of Language Learning and Teaching

Etnociência é o ramo da antropologia relacionado aos aspectos culturais da estrutura cognitiva. Está relacionada com o efeito da cultura e da linguagem no processo cognitivo, ou seja, como a linguagem afeta a forma como pensamos ou olhamos para as coisas. O Hanunoo tem nomes para noventa e duas variedades de arroz, enquanto o americano chamaria tudo simplesmente de arroz. O Hanunoo vê noventa e duas coisas diferentes enquanto o americano vê apenas uma.

O Esquimó tem seis nomes para a neve, todas as quais nós chamaríamos neve. Nós distinguimos entre Ford Mustang, Chevrolet Vega, e tantos outros fabricantes e modelos de autos, enquanto o Hanunoo e o Esquimó chamam-nos todos de ‘carros’. Roger Brown conclui: os achados da etnociência e semântica comparativa sugerem que é uma coisa rara encontrar uma palavra em uma língua que seja exatamente equivalente em referência a uma palavra em uma outra língua. Se cada palavra é tida como um modelo imposto em uma realidade comum, estes modelos não perduram. Ao nível de gramática, diferenças de significado entre linguagens são mais evidentes e provavelmente de maior significância. Benjamin Whorf descreveu algumas diferenças fascinantes e ele afirmou que elas resultam em formas atípicas de pensamentos.

Se a realidade fosse diretamente imposta na mente das crianças, se poderia esperar que ela tivesse sido imposta da mesma forma que as linguagens do mundo. A ubiqüidade da não-equivalência lingüística sugere que a realidade pode ser diversamente interpretada, e então, que as manipulações e observações da criança não são como se fosse pra produzir um estoque de conceitos que prevalecem nesta sociedade infantil... Para cada conceito que seja cultural em vez de natural, o problema que pode vir a existir pela necessidade de dominar a expressão lingüística é suficiente para causar o conceito a ser aprendido.

A identidade de uma pessoa é manifestada e definida parcialmente pela forma como esta pessoa responde à linguagem dentro do contexto sócio-cultural. Identidade é expressa em três formas primárias: pela língua falada, pela forma como se usa a fala e o silêncio e, pelo uso das atividades não-verbais comportamentais. A língua e o dialeto da língua que alguém fala identificam aquela pessoa, e talvez até um local específico, pelo menos se estão dentro ou fora da área daquele dialeto.

Um nativo que fala inglês americano pode facilmente reconhecer os vários dialetos de Boston, do Sul do país, do centro-oeste ou do Texas. Pessoas também tendem a identificar outras pela língua que elas falam, dizendo que alguém, por exemplo, é o que fala espanhol.

A sociedade norte-americana é uma sociedade que ‘fala’. O silêncio é desconfortável. É difícil, para uma parte dos americanos, passar um pequeno momento juntos, em silêncio. Uma situação não pode ser negligenciada ou subentendida pelas ações. As ações têm que ser explicadas.

Não é típico de um americano subordinado permanecer em silêncio enquanto é corrigido. O americano tem que responder verbalmente para mostrar que a ofensa foi entendida. Um Filipino, por outro lado, permanece em silêncio enquanto é repreendido. Qualquer palavra falada representa falta de respeito. O Filipino também irá se desculpar com uma ação, por exemplo, fazendo um favor para a pessoa ofendida, mas sem dizer qualquer coisa. O que foi feito por ele é totalmente entendido pela pessoa.

Linguagem é então uma grande forma de comunicação entre as pessoas. É utilizada de várias formas, dependendo do passado sócio-cultural da pessoa, sua nacionalidade e suas necessidades locais e pessoais. Está também intimamente associada com situações específicas: formal ou informal, conversação ou leitura, detalhado ou generalizado, prosa ou poesia, direto e reto ou indireto e com voltas. Pessoas adaptam sua linguagem de acordo com sua percepção da demanda da situação. O grau de fluência na linguagem da pessoa corresponde ao seu grau de resposta e alerta no ambiente da linguagem. A fluência da pessoa é, então, mais ou menos efetiva. A resposta é mais ou menos adaptativa. A criança que está atenta à linguagem, que responde a hábitos comuns e está sujeita a diferentes hábitos irá provavelmente crescer com a capacidade de se mover em qualquer setor social dentro de sua própria sociedade. Esta pessoa será perceptivelmente fluente atendendo qualquer demanda da linguagem. Por outro lado, a criança que ignora a nuança da linguagem, que é irresponsiva aos hábitos comuns irá provavelmente crescer ignorando a dinâmica da linguagem e será incapaz de se adaptar confortavelmente às demandas da mobilidade geográfica e social. Isso irá incapacitar a pessoa no contexto de sua própria cultura e qualquer experiência transcultural que ela vier a ter.

Considerações da linguagem entram forçadamente na prática espiritual. A oração é o meio de comunicação que os seres humanos usam para comunicar-se com Deus. A oração é primeiramente verbal, sendo audível ou não. Pelo fato da linguagem entre os homens ser baseada no processo de socialização em uma sociedade e a atitude desta pessoa neste processo, hábitos são formados e, positivamente ou adversamente, afetam o relacionamento entre Deus e o homem. A oração no ‘quarto’ pode ser silenciosa, confusa, sendo assim inaudível ou inteligível por outra pessoa. As orações confusas chegam a ser toleradas por pequenos grupos. Trazendo esta situação para um grupo maior, esta mesma característica, que seria admirável em um pequeno grupo, geraria enorme confusão. Deus entende cada oração igualmente. Mas a experiência da oração comum é impedida, a não ser que a oração seja adaptada à situação do grupo maior.

Comunicação não-verbal se refere ao processo pelo qual a mensagem é enviada e recebida através de um ou mais canais dos sentidos humanos, sem o uso da linguagem. Assim, as mensagens podem ser intencionais ou conscientes, ou não intencionais e não conscientes. Os gestos das mãos de um pregador durante o sermão são normalmente intencionais.

Comunicação totalmente inconsciente é feita por uma mulher que, sentada com suas pernas cruzadas, pontua o fim de cada frase com um empurrão das suas pernas enquanto faz uma leitura oral. Seja qual for a intenção do comunicador ou o nível de alerta da mensagem enviada, comunicação não-verbal é muito poderosa e significante na vida da pessoa e em sua interação na comunidade.

Os padrões do comportamento não-verbal estão culturalmente definidos. Mensagens de sim ou não são transmitidas acenando ou balançando a cabeça. Estes padrões são parte da seleção arbitrária de símbolos da cultura (em algumas culturas, balançar a cabeça pra cima e pra baixo significa ‘sim’, enquanto em outras culturas, significa ‘não’). Estes comportamentos devem ser aprendidos junto com a linguagem e outros aspectos da sociedade, por novos membros que entram na cultura.

Aprender estas dicas não-verbais pode trazer problemas. O mesmo símbolo pode transmitir mensagens opostas em duas diferentes culturas, ou dois símbolos opostos podem significar a mesma coisa em duas culturas. Balançar os dedos pra cima e pra baixo pode significar ‘tchau’ para alguém nos EUA, mas significar ‘vem cá’ para Latino-americanos. Ainda, o símbolo Latino-americano para ‘tchau’ é quase idêntico ao símbolo norte-americano para ‘vem cá’. Obviamente, isto pode ser confuso e frustrante. Quando um membro de uma cultura visita ou mora em outra cultura, ele deve dominar estes sinais percebendo a intenção da outra pessoa.

A comunicação não-verbal é expressa e percebida através de todos os sentidos – audição, tato, olfato, visão e gustação. Ela pode também incluir temperatura corporal, movimento corporal, e tempo e espaço. Por exemplo, uma pessoa que transpira intensamente quando está nervosa, está comunicando aquela mensagem com suas roupas ‘molhadas’ como se ela estivesse verbalizando seu nervosismo. A possibilidade das duas mensagens, verba e não-verbal, não coincidirem é um estudo no campo da psicologia social. Uma pessoa que transpira intensamente mas, afirma que não está nervosa deve estar mentindo ou inconsciente do motivo em negar seu nervosismo.

Um jovem índio Mayan, ao ver um elefante pela primeira vez no zoológico, se mantém confortável atrás da cerca até que o elefante se aproxime. Por um movimento inconsciente, o Mayan dá um passo pra trás da cerca até que o elefante se afaste. Então o jovem se reaproxima da cerca. Ele estava totalmente inconsciente de suas ações. Ao descrever este encontro, o Mayan nem menciona qualquer ‘medo’ pelo animal gigante.

Comunicação cinésica envolve movimentação dos músculos ou do corpo. Mensagens específicas são transmitidas pelo balanço das mãos, contato visual, expressões faciais, sinais com a cabeça, e outros movimentos. Em uma dança interpretativa, os movimentos de todo o corpo são mensagens cheias de conteúdo. De fato, em algumas nações do sudeste Asiático a dança interpretativa é o primeiro meio de comunicação não-verbal em um grupo. O Thai lê facilmente a mensagem simbólica da dança formal sem precisar que ela seja verbalizada.

Algumas vezes, símbolos cinésicos causam frustração em encontros transculturais. O contato olho no olho do norte-americano é muito intenso para o filipino, que tende a quebrar o contato logo. O filipino interrompe o contato com os olhos (1) para mostrar submissão à autoridade; (2) para diferenciar funções como homem e mulher, adulto ou criança; e (3) para indicar que fitar os olhos não é um comportamento adequado. O norte-americano, mesmo dando pouco valor em fitar os olhos, encoraja contato com os olhos para mostrar respeito e fidelidade.

Uma mulher filipina em uma classe de aula na América do norte, resistindo, culturalmente, ao contato no olho do professor, exclamou: “você me faz sentir nua!” em outras palavras ela estava dizendo: “você me encara como se quisesse olhar dentro de mim”.

Os fatores culturais governam o movimento corporal, determinando o que move, quando move, onde move, e restrições no movimento. O quadril pode se mover em um esporte ou uma dança, mas não em atividades em algumas igrejas. Uma criança pode mover seu corpo livremente na aula de ginástica mas não dentro da classe. Uma garota norte-americana que cresce na América Latina retorna para sua casa com mais movimentação corporal durante uma conquista e pode ser classificada como ‘pra frente’ entre suas colegas. Uma mulher latina tende a mover mais o seu corpo quando o homem está presente do que uma mulher americana. Quando uma garota norte-americana se desloca para uma cultura americana latina, ela é vista como ‘fria’.

A comunicação proxêmica abrange o espaço, duração, distância, território, e a percepção dos mesmos pelo participante.
Padrões de posição têm sido descritos por Edward T. Hall como íntimo, pessoal e público. O espaço íntimo de um norte-americano se estende até aproximadamente 60 cm; o do latino americano se estende 30 cm. Este limite de espaço íntimo-pessoal define o espaço no qual uma pessoa se sente desconfortável durante uma conversa pessoal, mas não íntima. Assim, o latino fica totalmente confortável conversando com uma pessoa a apenas 30 cm da sua face. Porém, conversar assim com um norte-americano é como se estivesse invadindo o espaço íntimo desta pessoa. Esta invasão leva o norte-americano a reagir defensivamente com visível tensão muscular, descoloração da pele e até movimentos corporais para “recuar”.

O texto abaixo de Helen Keller ilustra o processo frustrante e hilariante pelo qual alguém descobre a relação entre experiências verbal e não-verbal. Para a maioria de nós, este processo ocorre gradualmente quando somos muito novos para apreciá-lo. Helen Keller já tinha idade suficiente para lembrar desta experiência mais tarde. Conosco acontece um processo semelhante, embora numa escala bem menor, quando nos tornamos fluentes em uma segunda língua.

Na manhã seguinte em que minha professora veio ela me levou na sua sala e me deu uma boneca. A criança cega do Instituto Perkins doou e Laura Bridgman a enfeitou. Mas eu não sabia disso até um tempo depois.

Por um instante, enquanto eu brincava, a Sra. Sullivan vagarosamente soletrou em minha mão a palavra “b-o-n-e-c-a”. Eu estava naquele momento interessada no movimento de seus dedos e tentei imitá-la. Quando finalmente eu consegui soletrar as letras corretamente fiquei toda orgulhosa. Corri para o andar de baixo para encontrar minha mãe, puxei a mão dela e fiz as letras para ‘boneca’. Eu não sabia que estava soletrando uma palavra, nem mesmo que palavras existiam. Eu estava apenas fazendo com que meus dedos imitassem aquela ação. Nos dias seguintes, eu aprendi a soletrar, desta forma incompreensível, uma série de palavras, entre elas alfinete, chapéu, xícara, e alguns verbos como sentar, levantar e andar. Mas minha professora esteve comigo várias semanas antes que eu ainda entendesse que tudo tinha um nome.

Um dia, enquanto eu brincava com minha nova boneca, Sra. Sullivan colocou minha velha boneca de pano sobre o meu colo e também soletrou “b-o-n-e-c-a” e tentou me mostrar que boneca se aplicava às duas. Mais tarde, no mesmo dia, nós tivemos uma discussão sobre a palavra “c-a-n-e-c-a” e “á-g-u-a”. Sra. Sullivan tentou me convencer de que caneca era caneca e água era água, mas eu insistia em confundir as duas coisas. No desespero, ela deixou para voltar a explicar os sentidos em uma melhor oportunidade. Isso me deixou revoltada, segurei a nova boneca e a joguei contra o chão...

Em uma subseqüente oportunidade, minha professora colocou uma de minhas mãos sob a torneira, e à medida que a água caía, ela escrevia em minha outra mão ‘água’, primeiro devagar e depois rapidamente. Fiquei atenta aos movimentos de seus dedos. Rapidamente algo me veio à mente – foi emocionante; e de alguma forma o mistério da linguagem foi revelado a mim. Eu, então, sabia que “á-g-u-a” significava aquela coisa fria maravilhosa que estava caindo sobre minhas mãos. Esta palavra viva despertou minha alma, me deu luz, esperança, alegria, liberdade! Ainda havia barreiras, mas, barreiras que agora poderiam ser quebradas. A partir daquele instante eu estava ansiosa para aprender mais. Tudo tinha nome e cada nome dava origem a um novo pensamento, e as coisas em que eu tocava pareciam vibrar com vida. Tudo por causa da nova forma como eu estava enxergando as coisas.

Logo depois, lembrei-me da boneca que eu havia quebrado. Catei os pedaços e tentei montá-la novamente. Meus olhos se encheram de lágrimas pois eu percebi o que havia feito, e pela primeira vez, me senti arrependida e triste.

Eu aprendi várias palavras naquele dia. Eu não lembrava o que todas elas significavam, mas eu sabia que mãe, pai, irmã e professora estavam entre elas – palavras que tornavam meu mundo mais colorido “como o bordão de Arão com flores”. Seria difícil encontrar uma criança mais feliz do que eu naquele dia, que pela primeira vez, demorou tanto a passar...

Eu tinha agora a chave para toda a linguagem, e eu estava ansiosa para aprender a usá-la. Crianças que escutam adquirem a linguagem sem qualquer esforço particular. As palavras chegam aos seus ouvidos naturalmente, enquanto uma criança surda tem que captá-las através de um processo lento e doloroso. Contudo, independente do processo, o resultado é maravilhoso. Começamos nomeando objetos e avançamos passo a passo até atravessarmos a vasta distância entre nossas primeiras sílabas pronunciadas e meditar em textos de Shakespeare.

No início, quando minha professora me ensinava algo novo, eu fazia pouquíssimas perguntas. Minhas idéias eram vagas e meu vocabulário era inadequado. Mas, como meu conhecimento sobre as coisas cresceu, e eu aprendi mais palavras, meu campo de questionamentos ampliou e eu poderia voltar para o mesmo sujeito em busca de mais informações. Algumas vezes, uma nova palavra trazia à minha mente alguma experiência recente.

Eu lembro da manhã em que, pela primeira vez, eu perguntei o sentido da palavra “amor”. Isto foi antes de eu ter conhecido várias palavras. Logo após encontrar uma violeta no jardim, eu a levei para a minha professora. Ela tentou me beijar. Mas eu não gostava que ninguém, além de minha mãe, me beijasse. Sra. Sullivan colocou gentilmente seu braço sobre mim e soletrou em minha mão “eu amo Helen”.

“O que é amor?” Eu perguntei.

Ela me aproximou dela e disse “está aqui”, apontando para o meu coração, cuja batida eu passei a perceber a partir daquele momento. Suas palavras me surpreenderam muito porque eu não entendia qualquer coisa até que eu tocasse. Eu cheirei as violetas em suas mãos e perguntei, metade em palavras, metade em sinais, uma pergunta que significava “é o amor a doçura das flores?”

“Não”, disse minha professora.
Novamente pensei. O calor do sol estava refletindo sobre nós. “Não é isto o amor?” eu perguntei apontando para a direção da qual vinha o calor. Parecia para mim que não havia nada mais bonito do que o sol cujo calor faz todas as coisas crescerem. Mas sra. Sullivan balançou negativamente sua cabeça, e eu fiquei confusa e decepcionada. Eu achei estranho a minha professora não conseguir me mostrar o amor.

Depois de um ou dois dias, eu estava amarrando bolinhas de diferentes tamanhos em grupos simétricos – duas grandes e três pequenas. Eu havia cometido vários erros, e sra. Sullivan sempre os apontava pacientemente. Finalmente eu percebi um erro óbvio na seqüência e por um instante eu concentrei minha atenção na tarefa e tentei pensar como eu deveria ter colocado as bolinhas. Sra. Sullivan tocou na minha testa e soletrou enfaticamente “pensar”.

Naquele momento percebi que aquela palavra era o nome do processo que estava ocorrendo em minha mente. Esta foi minha primeira percepção consciente de uma idéia abstrata.

Salas de estar são geralmente projetadas de acordo com a relação que há entre o espaço pessoal e a cultura. Pessoas se sentem mais confortáveis sentando perto lado a lado do que face a face. Já uma sala de estar de um Mayan é projetada para sentar ou ficar em pé próximo às paredes. A sala de estar de um norte americano é projetada de tal forma que ninguém fique mais que três metros distante um do outro. Se a sala for maior que isso, a área de conversação será arrumada de forma que as pessoas estejam mais próximas dentro do perímetro total que a sala oferece.

Distância pública inclui o espaço no qual uma pessoa se sente confortável em uma área pública ou uma reunião. O tamanho deste espaço vai variar de acordo com a situação. Por exemplo, quando pessoas estão em um elevador, elas vão invadir o que seria normalmente considerado espaço íntimo de cada um. Porém, uma redução do movimento corporal compensa esta intrusão. O limite externo de um espaço público é a distância máxima que uma pessoa sente que ela pode estar e ainda se sentir dentro do contexto. Isto geralmente significa estar de acordo com o som da atividade. Mais perto em um discurso público, ou mais longe em uma apresentação musical.

O padrão de assentos é planejado com um objetivo. Frequentemente, o padrão inclui o foco em um ponto, o apresentador ou palestrante, de forma que o público fique organizado em fileiras ou em semicírculos de frente para o foco.

Competição versus cooperação também é sinalizado pelo padrão dos assentos. Quando as cadeiras são separadas, caracteriza uma competição. Ninguém pode copiar o trabalho do outro. Em uma sala de seminário, com pessoas sentadas lado a lado em volta da mesa, caracteriza cooperação porque as pessoas podem ver e compartilhar os trabalhos entre si.

Padrões de caminhada também são parte do espaço público envolvendo horário, direção e distância. Certas leis hebraicas foram baseadas na distância que alguém poderia andar a partir de sua propriedade em determinado dia. Um limite era colocado em jornadas de Sábado, com esta distância sendo chamada, logicamente, “jornada de um dia de Sábado”. Os hebreus logo cedo aprendiam a carregar alguns de seus bens com eles para que os deixassem a cada final de jornada (aproximadamente 1km) e então eles poderiam andar uma distância adicional a partir da propriedade.

Os horários também variam de acordo com a sociedade. Entre os Pocomchi na Guatemala, um homem pode ser visto andando na casa antes da 6h, mas não depois desta hora. Da mesma forma, ninguém estaria no trabalho depois das 21h.

Nas Filipinas, a noite de sábado é longa. As pessoas passeiam no parque até 2h da manhã de domingo. Quando uma quantidade significativa de negros foi permitida em escolas particulares para brancos, pressões foram feitas nestas escolas para que o toque de recolher fosse mais tarde em duas horas e o café da manhã fosse servido mais tarde, uma vez que o dia começa “mais tarde” para os negros.

Comportamentos verbal e não-verbal são o que a interação social é como um todo. Estas práticas são aprendidas no contexto de uma sociedade. Elas são expressas como comportamento normal dentro de um grupo definido pela sociedade. Somente com uma compreensão adequada da linguagem e dos aspectos não-verbais da cultura é que a comunicação pode ser realizada.

TRANSLAÇÃO

Como cristãos, nós acreditamos que a Bíblia é a palavra inspirada por Deus. Acreditamos ser a revelação de Deus para a humanidade. É a mensagem de Deus sobre a salvação. Cremos que é importante tornar a palavra de Deus acessível a todas as pessoas em sua própria língua. O trabalho de colocar a Bíblia na linguagem das outras pessoas é a tarefa de um tradutor. A tradução da mesma é a parte mais importante do empreendimento missionário. Etnociência e lingüística podem ser ferramentas inválidas no trabalho de tradução.

À primeira vista, pode parecer que tradução envolve pouco mais do que aprender outra língua e então substituir palavras para essa nova língua no texto. Isto pode até significar trocar algumas palavras para ajustar à nova gramática, mas basicamente este é um processo mecânico. Eugene Nida, um tradutor da sociedade Bíblica Americana, ilustra o perigo de uma tradução mecânica:
O tradutor deve estar constantemente se perguntando: “o que esta expressão significa na linguagem nativa?” Sem esta atenção ao real conceito de uma tradução, ele pode se encontrar dizendo coisas que não eram sua intenção dizer. Por exemplo, em uma recente investigação de três traduções feitas para índios da América Latina, foi encontrado que a tradução literal de Atos 9:1 foi interpretada em um caso como sendo que o espírito de Saulo havia morrido. No segundo caso, o nativo falou que isto significava que o espírito de Saulo estava saindo para amedrontar os discípulos. No terceiro caso, o informante, que era um dos tradutores nativos, disse que a passagem significava que Saulo estava com medo de morrer. O americano está acostumado com a expressão “respirando ameaças e morte contra” que assumimos o fato de que se esta expressão for ser traduzida para outra língua o significado será óbvio. Mas este não é o caso.

Em uma das línguas do povo Bantu, os tradutores traduziram literalmente Romanos 14:7 “porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si”. A tradução parece completamente aceitável, mas uma avaliação mais cuidadosa à luz da crença religiosa nativa mostrou que a tradução era totalmente imprópria. Em sua forma literal, este versículo teria dado uma confirmação direta da crença dos nativos de que pessoas não vivem ou morrem por causa de seus próprios poderes, mas por causa da presença ou ausência de magia negra imposta por outros. Ou seja, eles entendem que ninguém “morre para si”, e sim que sua morte é causada por forças malignas. Se alguém for traduzir Romanos 14:7 adequadamente na língua do Bantu, deve dizer “nós não estamos sozinhos em nosso viver e nós não estamos sozinhos em nosso morrer”. Isto não representa a expressão literal da Bíblia, mas representa o significado equivalente mais próximo, enquanto a tradução literal daria uma impressão totalmente incorreta...

Uma tradução literal de “abençoando, eu te abençoarei” (Hebreus 6:14) em uma das línguas da África Central significa “se eu abençoar, eu serei abençoado”. Esta tradução literal de um idioma Semítico especializado fugiu totalmente ao sentido. A expressão bíblica não significa reciprocidade da bênção, mas a abundância e garantia do ato. A interpretação nativa mais próxima é “eu te abençoarei e te abençoarei”.

Outro problema é encontrado na tradução de “graça sobre graça” (João 1:16). Em uma linguagem indígena da América Latina, a tradução literal seria “favor em troca de um favor”. Isto também induz que Deus somente concede um favor em troca de um favor garantido a ele pela pessoa. Então, uma tentativa de tradução literal acabou negando a própria graça.

A tradução literal de “não andar segundo a carne” (Romanos 8:4) significa em uma tradução “não andar como comida”. A palavra usada para traduzir “carne” significa apenas “carne de comer”. Uma palavra diferente é usada para identificar carne humana. Além disso, mesmo o uso do termo como carne humana seria inapropriado e sem sentido. Seria melhor nesta hora traduzir por “corpo”. Porém, a expressão “andar segundo o corpo” não tem sentido metafórico como tem no inglês. Assim, a tradução deve ser mudada para “não faça o que o corpo faz”. Esta é a expressão equivalente nativa e totalmente compreensível.

Estas ilustrações mostram a importância de entender o que a linguagem significa para seu falante. Tradutores têm que enxergar o mundo com olhos sociolingüísticos da pessoa que fala aquela língua à qual eles estão traduzindo a Palavra. Alguns vão se opor a não tradução literal sugerida por Nida. Eles devem dizer que nós deveríamos ensinar às pessoas o sentido correto da linguagem. Nida, antecipando esta objeção, diz: Certos missionários não realizam a tradução literal da passagem, insistindo que pelo próprio ensinamento eles podem instruir pessoas ao significado correto e ao mesmo tempo recusar práticas nativas. Tais hipóteses são grandes ilusões. Pessoas podem e vão entender os termos apenas nos padrões da sua situação cultural na qual estas palavras são usadas por eles. Muita explicação é necessária para corrigir sentidos falsos. Em vários casos, nem muita explicação é capaz de mudar um significado incorreto para um outro significado adequadamente correto.

Nida pensa ser muito importante que o tradutor evite as ‘ciladas’ da tradução literal e tradução da paráfrase. Na tentativa de evitar problemas na paráfrase e no literalismo, Nida trouxe uma abordagem sobre a tradução, que ele denominou “equivalência dinâmica”. É a contribuição de uma passagem quando o efeito produzido no coração e mente do leitor na segunda língua é igual ao produzido no coração e mente do leitor na língua original, de acordo com as seguintes explicações:
A correção final de uma tradução deve estar baseada em três principais fatores:
1. A exatidão com a qual o receptor entende a mensagem original (ou seja, se está “fidedigno ao original”).
2. A facilidade de compreensão.
3. O envolvimento das experiências da pessoa como resultado da adequação da forma de tradução.

Talvez, não há alegria maior para um tradutor do que alguém dizer “Eu não sabia que Deus falava a minha língua”.
A equivalência dinâmica é bastante promissora e resolve vários problemas inerentes nos extremos do literalismo e paráfrase. Porém, a abordagem de Nida possui problemas. O maior é: como alguém determina o efeito que um texto original produz no coração e mente de um leitor original? Um dos principais problemas é que várias palavras têm mais de um significado e embora o contexto geralmente indique o significado isso não acontece sempre. Mesmo reconhecendo os problemas, esta abordagem parece para nós ter mais potencial do que tradução palavra por palavra ou por paráfrases.

Dr. Mayers, da Associação de Professores Evangélicos de Missões, em sua palestra contou sua experiência com o processo de tradução de equivalência dinâmica:
Eu me equivoquei logo no início do processo de tradução para pessoas ligadas aos Mayas da América Central. Quando eu traduzia o livro de Lucas, me deparei com o capítulo 13 onde Herodes é referido como “raposa”. Em Pocomchi, a palavra para raposa é bahlam, mas com o uso desta palavra, percebi reações estranhas. Após investigar, descobri que uma raposa para um Pocomchi não é vista como astuciosa e esperta – que é o que este gato selvagem é. Em vez disso, a raposa é a que fala em voz de falseta. Depois que eu resolvi este problema, mudando a palavra para gato selvagem, a reação ao capítulo como um todo me mostrou que eles haviam compreendido a real intenção da passagem. Se eu continuasse com a palavra “raposa”, eles teriam aprendido um erro.

O trabalho de um tradutor da bíblia é levar a Palavra de Deus para a língua nativa. Uma boa compreensão dos princípios antropológicos, uma vasta habilidade lingüística, e enorme conhecimento bíblico não garantem uma boa tradução. O Espírito Santo é o autor da Bíblia. O tradutor deve pedir ao Espírito Santo por sabedoria. O tradutor é um instrumento através do qual o Espírito Santo pode trabalhar. Porém, o tradutor também deve ser um instrumento preparado, trabalhando em harmonia com a criação de Deus, que inclui diferentes línguas e culturas.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO:

É possível o pensamento abstrato sem a linguagem? Responda baseado na experiência de Helen Keller.
De quais maneiras a linguagem influencia o pensamento? E como ela afeta a comunicação do evangelho?
Quando uma pessoa aprende o vocabulário, gramática, e pronúncia de outra língua, pode-se afirmar que esta pessoa aprendeu aquela língua?
O que o arranjo da sala na qual esta classe reúne fala pra você sobre os padrões de comunicação descritos?
Que implicações o conceito relatado por Roger Brown tem para o trabalho de tradução? Relacione isto com o que o Nida afirma.
Última atualização em Qui, 02 de Abril de 2009 16:24

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