Banner

Sociedades Indígenas - Resumo

E-mail Imprimir PDF
RAMOS, Alcida Rita. Sociedades Indígenas 5ª edição. Série Princípios. (São Paulo: Ática, 1995)

O Conceito de Tribo

Na América do Sul, o conceito de tribo, dependendo dos interesses em jogo, tem sido aplicado elasticamente para englobar vários grupos indígenas, independentemente da presença ou ausência de vinculações entre eles, ou tem sido contraído, para excluir grupos que são cultural, social, e politicamente próximos. Os agentes desses feitos têm sido, principalmente, missionários e funcionários governamentais.

Posse da Terra

Sendo um recurso natural vinculado à vida social como um todo, a terra não é e não pode ser objeto de propriedade individual. De fato, a noção de propriedade privada da terra não existe nas sociedades indígenas

Limites Territoriais

Irving Goldman, falando sobre os índios Cubeo do Alto Uaupés da Colômbia: “Com respeito à terra, estamos lidando mais com domínio do que com propriedade […] O domínio é sancionado por tradições de origem que narram precisamente de onde vieram os primeiros ancestrais e suas viagens e aldeamentos subseqüentes. É com base nessas tradições que as pessoas podem dizer: ‘Está é a nossa terra.’ f”

O Território na Cultura

Segundo David Price (falando sobre os Nambiquara), em um artigo sobre política indigenista e política indígena diz: “…o lugar onde os parentes são enterrados é sagrado, e já que estão enterrados na aldeia, a aldeia é sagrada. Onde há Nambiquara enterrado é aldeia, e onde não há ninguém enterrado não é aldeia, ainda que aí vivam cinqüenta habitantes.”
O que isso significa, na prática, é que cada sítio de aldeia está historicamente vinculado a seus habitantes, de modo que o passar o tempo não apaga o conhecimento dos movimentos do grupo, desde que se mantenha viva a memória dos ancestrais. Estes estão, portanto, ligados ao território, sendo que o foco dessa relação é o local de habitação, isto é, a aldeia.

No território estão inscritas as mais básicas noções de autodeterminação, de articulação sociopolítica, de vivência e crenças religiosas, para não falar na própria existência física do grupo.
Limitar, pois, o território de um grupo às imediações do seu centro residencial, a aldeia, é condenar esse grupo à penúria permanente, privando-o dos recursos naturais que, por sua natureza ecológica, acham-se espalhados por grandes distâncias, necessitando, conseqüentemente, de uma exploração extensiva e não intensiva.

As Noções de Trabalho e Lazer

No processo de produção econômica, seja ela caça, pesca, coleta, lavoura ou qualquer outra, o trabalhador não se isola de seus demais papéis e obrigações. Na produção estão sempre presentes considerações de ordem social, ritual, religiosa, para citar apenas as mais comuns e óbvias.
O trabalhador numa sociedade indígena não é compartimentalizado; ele é um ser social total em todas as esferas de sua vida.

Lazer e trabalho não são facilmente separáveis nas sociedades indígenas. Se é falsa a noção de que os índios estão eternamente ocupados à procura de alimentos, sem tempo para atividades mais criativas, também é falsa a idéia comumente ventilada de que o índio é preguiçoso, não trabalha, vive no ócio.

Penúria ou Fartura?

O conceito de pobreza não se aplica a sociedades onde todos os membros são igualmente aquinhoados com número e tipo semelhante de bens materiais. Isso implica que, assim como a riqueza, a pobreza é uma relação social, isto é, ela só tem significado em contraste com a não-pobreza. Alguém só é pobre porque contrasta com quem é rico.

Produção

Na Amazônia e outras regiões tropicais, a técnica agrícola mais utilizada é a que passou a ser conhecida por coivara, compreendendo a derrubada de uma porção da mata, geralmente em círculo, a queimada das árvores e dos arbustos cortados e o plantio de mudas ou sementes de mandioca-brava, milho, fumo, algodão e outros produtos. A seqüência das várias fases desse processo é regida pelo sistema sazonal: a derrubada e a queimada nos meses de seca; o plantio no início das chuvas.

Ao contrário das críticas ventiladas por alguns agrônomos e tecnocratas, o sistema de coivara, longe de ser irracional, é o que melhor se adapta às condições ecológicas dos trópicos úmidos, pelo menos na Amazônia.

Reciprocidade versus Acumulação

Uma das ações mais fortemente condenadas como anti-sociais é a avareza; uma pessoa que tem, por exemplo, mais facas do que necessita e se recusa a distribuir o excedente é malvista e desprestigiada.

Socialização

Muito raramente as crianças indígenas são punidas quase nunca fisicamente. A atitude das pessoas para com os filhos é geralmente de grande paciência, tolerância, atenção e respeito às suas peculiaridades. A mãe amamenta durantes uns dois ou três anos e a criança não é bruscamente desmamada. O espaçamento entre uma gravidez e outra é suficientemente grande — três, quatro anos, ou mais —, de modo a evitar a competição de dois bebês pelo afeto e leite maternos.
Desde muito cedo, sem instrução formal e sem violência, as crianças indígenas aprendem as regras do jogo social, o que pode e o que não pode ser feito e as formas de controle social aplicadas àqueles que infringem seriamente essas regras do jogo.

Controle Social

“Em geral” diz o antropólogo Allan Holmberg, “parece que a manutenção da lei e da ordem está apoiada em grande parte no princípio da reciprocidade (mesmo que forçada), no temor a sanções sobrenaturais e represálias e no desejo de aprovação pública.”

Nas sociedades indígenas podemos perceber dois tipos de procedimentos que contribuem para o exercício do controle social: medidas inibidoras e medidas punitivas, sendo que as primeiras parecem muito mais comuns que as segundas; são esgotadas as inibidoras antes que seja necessário aplicar as punitivas.

Em que consistem as medidas inibidoras? Em geral, são procedimentos informais e tomam as cores do ridículo, do mexerico ou acusações de feitiçaria. O ridículo é uma das armas mais eficazes para desencorajar atitudes e comportamentos desaprovados pela coletividade.

O mexerico é outra maneira informal de controlar comportamentos indesejáveis. Comentários inicialmente inocentes mas que se tornam cada vez mais ferino sobre, por exemplo, a infidelidade conjugal de alguém num contexto social que a condena, chegam eventualmente aos ouvidos dos protagonistas e agem como uma espécie de aviso, dando-lhes tempo e oportunidade para pôr termo à relação, antes que algo pior lhes aconteça. Como medida inibidora, o mexerico é um dos artifícios mais poderosos de controle social.

Muitos mexericos não passam de comentários inconseqüentes sobre alguém que está ausente e fazem parte constante da rotina diária.

Acusações de feitiçaria
, que podem advir de uma escalada de mexerico, representam, em algumas sociedades, um outro mecanismo de prevenção de crimes. Seu teor é mais sério e severo do que o ridículo e o mexerico e mais comumente envolve pessoas de aldeias distintas; são como que o último recurso antes que a infração se torne fato consumado sujeito a punição.

Peter Rivière num artigo sobre facções políticas e feitiçaria, diz o seguinte: “Qualquer infortúnio ou doença pode ser considerado resultado de feitiçaria e quase todas as mortes o são […] Ao mesmo tempo, o medo de feitiçaria mantém o código de hospitalidade, sem o qual cessariam as viagens pela área: qualquer estranho é um feiticeiro em potencial, e a única profilaxia contra a feitiçaria é ser aberto e generoso […].”

Quando uma ação criminosa é consumada, aplica-se então, a punição correspondente: ostracismo, expulsão ou mesmo morte.

Poder

O igualitarismo dessas sociedades não total a ponto de não é total a ponto de não haver lugar para diferenciação entre indivíduos ou categorias de indivíduos. Quanto mais não seja, existe sempre a diferença entre homens e mulheres, entre jovens e velhos, entre adultos e crianças. Sobre essas diferenças físico-sociais é possível construir diferenças sociopolíticas, o que geralmente ocorre: os homens tendem a exercer maior domínio sobre as mulheres do que vice-versa, e os mais velhos sobre os mais novos. Há, também, consideráveis distinções em personalidade e habilidades pessoais; há os bons e os maus caçadores, os bons e os maus xamãs, os bons e os maus oradores. Essas diferenças psicossociais podem também tornar-se a base para diferenciações sócio-políticas.

Na gradação que as sociedades indígenas apresentam quanto à proeminência de líderes políticos, há um aspecto recorrente em todas elas: os líderes não têm poder de coerção. Sua posição é mantida, o respeito de seus companheiros é assegurado não pelo exercício da força ou ameaça de uso da força, mas pela persuasão.

Autoridade

Autoridade é respaldada no conhecimento que alguém tem de alguma coisa, conhecimento esse que é posto a serviço da coletividade: um bom caçador, agricultor ou pescador, um bom orador, um bom xamã, ou um bom administrador são “bons” porque desenvolveram técnicas, conhecimentos e sabedoria acima da média. Esse conhecimento, essa autoridade, enfim, é o que confere legitimidade ao exercício do poder. O poder que se calca exclusiva e principalmente na força ou na ameaça do uso da força e não na autoridade reconhecida não é um poder legítimo e só se mantém à custa da coerção.
Um líder indígena muito raramente é mais do que um conselheiro, um coordenador de atividades. Líderes autoritários, isto é, que utilizam o seu conhecimento e posição para exercer o poder pela força, não são tolerados pela sociedade e, em geral, são rapidamente substituídos.

[Um líder tem características que variam de um grupo para outro. Para algumas etnias o líder tem que ser generoso, para ser reconhecido como tal. Em outras, um bom orador. E ainda em outras, um homem sensato e trabalhador.]

Descentralização

Talvez a inexistência, entre as muitas sociedades indígenas, de um tipo de organização política estatal fortemente centralizada seja um dos principais fatores responsáveis pela ausência de relações de dominação entre elas e de uma ideologia que renega a própria existência de pluralismo cultural.

Religião e a Ordem do Mundo

As crenças religiosas dos povos indígenas afirmam uma unidade indissolúvel entre o natural e o social, com influencias mútuas e conseqüências recíprocas. Muitas vezes aquilo que chamamos de sobrenatural não é mais do que uma característica especial do social e do natural, como, por exemplo, atribuir poderes extranaturais a certos animais, plantas ou outros elementos. Manter a ordem do mundo, com seus componentes naturais e sobrenaturais, é obrigação dos seres humanos. Para isso existem tabus práticas xamanísticas, ritos de purificação, regras sociais e éticas… A quebra de um tabu alimentar implica uma ação humana incorreta que pode pôr em perigo essa ordem, desencadeando a ira de seres que, embora não pertençam à sociedade humana, estão diretamente associados a ela e fazem parte de seu sistema de regras.
Uma das diferenças básicas entre a religião das sociedades igualitárias e a dos Estados-nações é que nas primeiras ela não está estruturada em “igrejas”, isto é, em aparato especializado, geralmente hierárquico, com aparentes autonomia institucional, que comanda o dogma, os direitos e deveres de seus afiliados. Ao contrário, nas sociedades indígenas a religião está tão intrinsecamente relacionada com as demais esferas da vida social que não só dispensa como provavelmente é incompatível com um corpo eclesiástico especializado.

Se um homem da etnia Sanumá planeja caçar, sendo xamã, na noite anterior ele se ocupa com cânticos religiosos que propiciarão a cooperação de espíritos no sentido de tornar a caça produtiva; se não for xamã, o mínimo que ele pode fazer é ungir de urucu a cabeça de seu cão para aumentar as possibilidades de sucesso na busca da caça.
Tradicionalmente, a religião de uma sociedade indígena é perfeitamente compatível com os valores individuais e coletivos nela vigentes.

Xamanismo

Parte das atribuições de uma xamã é realizar curas. A ele cabe fazer o diagnóstico e tomar providências para eliminar o mal depois de identificada a sua causa. Para isso ele recorre ao auxílio de espíritos e substâncias curativas, específicos às várias doenças, ou ao processo de sucção do objeto que está causando a doença do paciente.
Além de realizar curas, os xamãs são também responsáveis pelo bem-estar geral da comunidade, protegendo-a contra espíritos malignos, conduzindo recitativos ou cerimônias propiciatórias para boas colheitas, boas caçadas, invocando espíritos benignos para assistir na resolução de certos problemas, como esterilidade e outros distúrbios que podem ser atribuídos aos efeitos de feitiçaria.

Feitiçaria

O xamã é o zelador do bem-estar social, ele também tem o poder de trazer o mal a seus companheiros ou a outros mais distantes através de práticas xamanísticas. Porém a feitiçaria não é praticada apenas por xamãs.
A diferença entre feitiçaria e bruxaria é que na primeira há a manipulação de objetos materiais ou expressões verbais intencionalmente dirigidas à vítima, que pode ser um indivíduo, uma comunidade ou uma região inteira. Na bruxaria o que existe é uma força metafísica inerente à pessoa que a tem, independentemente de ser ou não ativada. O fenômeno do mau-olhado é um exemplo de bruxaria.

A bruxaria é relativamente rara na América do Sul; aqui a feitiçaria é muito freqüente.
Enquanto entre nós os conceitos de azar, coincidência ou a teoria da probabilidade existem para diminuir lacunas do conhecimento, nas sociedades indígenas a bruxaria/feitiçaria consegue eliminá-la.

Concepção do Cosmos

Os mitos são veículos de informação sobre a concepção do Universo, incluindo temas sobre a criação do mundo, a origem da agricultura, as relações ecológicas entre animais, plantas e outros elementos, a metamorfose de seres humanos em animais e vice-versa e de ambos em espíritos de vários tipos e índoles, a razão de ser de certas relações sociais culturalmente importantes e até mesmo o surgimento do “homem branco” e a avalanche de fatores desagregadores que o acompanham.

As cosmologias das diversas culturas operam como um verdadeiro mapa simbólico do Universo, estabelecendo o lugar, a importância, os padrões de atuação e influência de cada um de seus muitos componentes. É um código para o qual se apela quando se quer entender ou explicar tanto o corriqueiro como eventos inusitados, calamidade, infortúnios ou golpes de sorte. A visão do mundo supre o indivíduo como uma constante âncora que o mantém seguro a uma determinada realidade social em face a vicissitudes sobre as quais ele não tem controle: a morte, a doença, o insucesso. Removida essa visão de mundo, advém a desestruturação individual ou coletiva.
Última atualização em Qui, 02 de Abril de 2009 14:42

PageViews (Visitação)

14 de dezembro de 2014

Páginas acessadas: 2.835.416
Hits: 11.754.236

Desde 12 de novembro de 2005

Visitantes

You are here Artigos Artigos Selecionados Sociedades Indígenas - Resumo