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Antropologia Missionária

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A ciência da antropologia social deve ser reconhecida como

disciplina essencial no treinamento missionário” (Edwin Smith, 1924).

INTRODUÇÃO


Meu objetivo neste artigo é expor a aplicação específica do conhecimento antropológico no ambiente missionário em processos que envolvem encontro de culturas que aqui denominarei de antropologia missionária.

Por antropologia missionária não me refiro à antropologia produzida por um segmento religioso ou uma antropologia missional - direcionada pelos valores teológicos da missão - mas sim ao estudo derivado do processo de utilização dos elementos antropológicos aplicados ao ambiente de interculturalidade envolvendo ações missionárias.

Desejo também levantar alguns assuntos a partir da relação da antropologia com a missiologia (e antropólogos com missionários), suas mútuas contribuições, distinções, preconceitos e também possibilidades


ANTROPOLOGIA APLICADA ÀS AÇÕES MISSIONÁRIAS

O estudo e uso da antropologia nas ações missionárias é relativamente novo e possivelmente recebeu seu primeiro forte impulso a partir da publicação do artigo de Malinowski intitulado Practical Anthropology (Antropologia Prática) em 1929, ironicamente ele mesmo um opositor à atuação missionária, com algumas exceção. Um dos pioneiros no incentivo do uso da antropologia nas ações missionárias foi Edwin Smith (1876-1957), filho de missionários e nascido na África do Sul, tendo servido também como missionário entre 1902 e 1915 entre o povo Baila-Batonga na Zâmbia. Apesar de se considerar apenas um antropólogo amador, sua constribuição nesta área junto aos movimentos missionários foi marcante, bem como o reconhecimento que recebeu da comunidade antropológica internacional da época, sendo membro da Royal Anthropological Institute of Great Britain de 1909 até sua morte e tendo atuado por alguns anos como presidente da mesma. Nos Estados Unidos da América a publicação do periódico com o mesmo título – Practical Anthropology – em 1953 serviu à comunidade missionária evangélica pela iniciativa de Robert Taylor no Wheaton College. Esta publicação gerou um crescente interesse e uso da antropologia no treinamento missionário e associaram-se a ela os escritos de Eugene Nida, William Smalley, William Reyburn e Charles Taber, entre outros (WHITEMAN, 2004).

Enquanto o estudo do homem pelo homem encontra suas raízes nos primórdios da sociedade, a antropologia, como ciência social, manifesta seu desenvolvimento teórico nos séculos 19 e 20 sob a influência de um ambiente de transformação social, descobertas científicas e exposição das idéias de Karl Marx, Emile Durkheim, Max Weber e outros pensadores. A partir daí a antropologia passa a ser construída pelo estruturalismo de Lévy-Strauss, o culturalismo de Franz Boas, a proposta interpretativa de Clifford Geertz e a abordagem pós moderna de James Clifford, entre diversas outras influências, moldando variadas abordagens sobre o mesmo objeto de estudo, o homem, e a busca por conhecê-lo em sua multiforme área de vivência. A divisão incipiente da Antropologia em física e cultural não resulta puramente dos métodos usados para estudá-la, mas de sua própria história no desenvolvimento de teorias físicas (biológicas) e culturais (sociais) na pesquisa do homem, sua existência e comportamento (BARRETT, 2009, pp. 5-10).

Tradicionalmente a Escola Americana divide a antropologia em física, cultural, arqueológica e linguística, demarcando mais amiúde suas áreas de pesquisa. A antropologia cultural, bem como outras, possui uma ampla variedade de aplicações e pesquisa como a arte, saúde, educação, alimentação, comunicação, religião, imagem, etnicidade e outras, em franca demonstração da necessidade dos óculos antropológicos na abordagem acadêmica ou prática de qualquer área de experimentação e interação humana.

É nesta esteira da busca pela compreensão do homem que algumas obras influenciaram profundamente o treinamento missionário incorporando ao mesmo o estudo antropológico. Marvin Mayers, Ph.D. em antropologia, publicou Christianity Confronts Culture: A Strategy for Cross-Cultural Evangelism em 1974 contribuindo para a construção de uma ponte entre a evangelização e a sensibilidade cultural. Charles Kraft, com treinamento em antropologia, publicou Christianity in Culture em 1979, demonstrando o quanto a cultura influencia a maneira de compreendermos a teologia. Apesar dos questionamentos teológicos à sua obra houve uma positiva influência no treinamento missionário e na observação das influências culturais. Paul Hiebert, antropólogo, missiólogo e missionário, defendeu em seu livro Anthropological Insights for Missionaries, em 1985, que o missionário precisava conhecer as Escrituras, para entendê-la e interpretá-la, e conhecer o homem, para se comunicar com ele. Ao longo de seus 10 livros e 150 artigos expôs a necessidade de uma antropologia aplicada ao contexto, necessidades e ações missionárias, e é provavelmente a maior influência nesta geração quanto ao uso da antropologia no treinamento missionário.

Diversas conferências evangélicas com a intenção de valorizar o uso da antropologia no meio missionário ganharam forma desde meados do século 19. As mais conhecidas foram as de Nova York em 1854, a de Liverpol em 1860 e a de Londres em 1888, esta com 1.600 pessoas representando 53 sociedades missionárias. Porém, neste período o marco de despertamento para o estudo da antropologia no meio missionário ocorreu em Edimburgo em 1910: “Edimburgo é importante porque mostra que missionários lutavam com todas as críticas que antropólogos faziam” (WHITEMAN, 2004, p. 40). O resultado desta conferência foi um amplo e crescente envolvimento com o estudo antropológico no meio missionário mundial.

Podemos aqui propor que a antropologia missionária visa o estudo do homem como ser biológico e cultural com a finalidade de desenvolver relações interpessoais equilibradas e comunicação inteligível em um ambiente de partilha das verdades de Cristo e envolvimento com a sociedade abordada, suas virtudes e desafios.

CONTRIBUIÇÃO MISSIONÁRIA PARA A ANTROPOLOGIA

Segundo Taber (2000) a primeira explícita interação entre missionários e antropólogos ocorreu em 1860 quando missionários passaram a servir como pesquisadores de campo para antropólogos que se alojavam no ambiente acadêmico.

Darrell Whiteman nos diz que “ é importante relembrar que os primeiros antropólogos coletaram informações para a construção de suas teorias a partir de viajantes e, mais tarde, missionários, e não a partir de encontros diretos com ‘os nativos’” (WITHEMAN, 2004, p. 36) e expõe que antropólogos como Tylor e Morgan, dentre tantos outros, utilizaram a força missionária mundial como seus pesquisadores de campo: “Lewis Henry Morgan, autor de Systems of Consanguinity and Affinity in the Human Family (1871) enviou seu questionário sobre parentesco para missionários em todo o mundo, pedindo que preenchessem as informações e enviassem de volta para ele” (WHITEMAN, 2004, p. 36).

Vários outros missionários no fim do século 19 e início do século 20 colaboraram e produziram vasto material para a antropologia mundial, como as importantes etnograficas do missionário anglicano Robert Codrington (1830-1922) que escreveu a obra The Melanesians: Studies in Their Anthropology and Folkore em 1891, John Batchelor (1854-1944) que publicou Ainu Life and Lore em 1927, Charles Fox (1878-1977) que lançou The Threshold of the Pacific: An Account of the Social Organization, Magic, and Religion of the People of San Cristoval in the Solomon Islands em 1924, o missionário francês Maurice Leenhardt (1878-1954), autor do clássico Do Kamo: Person and Myth in the Melanesian World em 1947, (citado por Evans-Pritchard como o autor de uma das melhores monografias antropológicas jamais escritas), William Wiser (1890-1961) que publicou, juntamente com Charlotte Wiser (missionários presbiterianos na Índia) um dos primeiros trabalhos antropológicos sobre aquele país intitulado Behind Mud Walls, em 1930, entre vários outros como Alfred Peny (1845-1935), A. Hopkins (1869-1943) e Walter Ivens (1871-1939), todos missionários-antropológos e pesquisadores de campo.

Além do trabalho etnográfico de campo pode-se também observar as contribuições no treinamento missionário-antropológico como a iniciativa de Wilhelm Schmidt (1868-1954) que fundou em 1906 o periódico Anthropos para publicação da vasta quantidade de etnografias produzidas por missionários, chegando a mais de 650 publicações, as quais muniam universidades e os mais diversos círculos antropológicos com toda a diversidade de pesquisa e registro (TABER, 1991) .

Apesar da antropologia ser reconhecida como ciência social nos séculos mais recentes ela encontra sua inspiração e fundamento nos encontros de culturas entre os séculos 16 e 19 relatados por viajantes, exploradores, comerciantes e missionários. Durante o chamado “grande século missionário” (1792 a 1914) o movimento missionário evangélico mundial atuou intensamente em cenários interculturais e desenvolveu uma grande quantidade de estudos etnográficos (EKSTRÖM, 2001, pp. 67-73). Este contexto intercultural, bem como a ênfase missionária na formação de líderes locais, plantio de igrejas autóctones e tradução da Bíblia para as línguas maternas, influenciou a expectativa e treinamento missionário mundial incluindo em seu currículo assuntos como linguística, antropologia, interculturalidade e contextualização, com várias outras vertentes.

Em seu livro Anthropology Debt’s to Missionaries os autores destacam a expressiva contribuição das pesquisas e experiências interculturais missionárias ao longo de mais de 3 séculos para a construção da etnografia e moderna antropologia, e destacam que isto ocorria em uma época quando ainda não existia o ambiente de rivalidade entre os segmentos. É comum, ainda em nossos dias, observar a quantidade de informações etnográficas de coleta missionária nas pesquisas e dissertações acadêmicas de terceiros, mesmo que nem sempre tal contribuição receba a devida menção (BROWN, PLOTNICOV, SUTLIVE, 2007).

Eugene Nida explica que esta contribuição missionária para a pesquisa antropológica se dá na coleta, organização e distribuição de informações etnográficas através da sua vivência prolongada com o grupo com o qual se relaciona, o aprendizado da língua materna e busca por um relacionamento aproximado. Não é incomum encontrar missionários vivendo décadas entre um mesmo povo, ou gerações de missionários em uma permanência prolongada no mesmo grupo.

ANTROPÓLOGOS VERSUS MISSIONÁRIOS

Utilizo ‘versus’ de forma exploratória, expondo uma realidade vivida, porém não desejada. Antropólogos e missionários possuem nas últimas décadas uma história de encontros e desencontros devido a vários fatores, conceituais e metodológicos, e talvez especialmente à própria natureza de suas funções na relação com a sociedade. Ao passo que antropólogos se propõe à produção de conhecimento, a partir de uma abordagem de pesquisa e reflexão, missionários se dedicam principalmente à produção de serviço, em ações de relação e intervenção. Antropólogos se aproximam dos grupos humanos com a pergunta “o que significa?”, enquanto missionários o fazem indagando “qual é o sofrimento?”. A primeira pergunta induz à pesquisa e a segunda à evangelização e/ou um projeto social.

Esta diferença funcional explica também as raízes da mútua frustração. Antropólogos percebem as ações missionárias como sendo intervencionistas, geradoras de mudanças e, em uma perspectiva relativista, nocivas ao grupo. Por outro lado, missionários percebem as pesquisas antropológicas como sendo estéreis, com desencanto por não se associarem diretamente às necessidades do segmento humano estudado. Não é incomum observar antropólogos questionando a base do conhecimento teórico de missionários em relação à antropologia e cultura (“são despreparados para a interpretação cultural”), como missionários questionando a utilidade da pesquisa antropológica, sobretudo em áreas de grave sofrimento humano (“são dedicados à pesquisa de interesse próprio, mas insensíveis ao outro”).

Quanto ao conhecimento encontramos discordâncias metodológicas. No meio missionário há forte ênfase na permanência prolongada com o grupo com o qual se relaciona, aprendizado da língua e integração com o grupo. São comuns os relatos missionários de permanência prolongada, acima de 10 anos de relação direta com o grupo, com ênfase na relação pessoal. No meio antropológico há forte ênfase na pesquisa, não tanto na relação pessoal. São comuns as pesquisas antropológicas realizadas a partir de uma permanência curtíssima (6 a 12 meses), e com ênfase na metodologia. As críticas que se cruzam seguem este processo de relação com a sociedade da qual se aproximam. Antropólogos diriam que missionários são intuitivos e pouco metodológicos, portanto sem utilização de um processo científico para as interpretações culturais e ações sociais. Missionários diriam que antropólogos são pouco relacionais, insensíveis às demandas comunitárias e, portanto, sem uma integração social necessária para as interpretações culturais. Se nos bastidores das universidades de ciências sociais se cultivam as histórias de missionários que, de forma intuitiva, estariam provocando abusos na relação com outros grupos, nos centros de treinamento missionário são comuns as histórias de antropólogos e suas pesquisas que abrigariam equívocos devido ao pouco conhecimento geral, linguístico e relacional com grupo.

Utilizo estereótipos de antropólogos e missionários para fins de comparação, o que não abrange toda a vivência antropológica nem mesmo missionária. Este distanciamento entre antropólogos e missionários não é uniforme no mundo, havendo lugares com maior ou menos aproximação. Também creio que uma aproximação entre estes dois segmentos – antropólogos e missionários – geraria um ganho científico e social, pois integraria uma pesquisa metodológica mais científica com uma relação social mais integral. Estou certo que tal aproximação acontecerá a partir das relações pessoais entre os segmentos, e a queda de preconceitos.

Ainda pensando nas distinções comparadas, é notável o compromisso do antropólogo com um processo científico-político. As pesquisas e produções literárias seguem escolas e se comprometem com suas teorias, sem transitar entre escolas rivais e evitando cruzamento de citações. Este compromisso científico-político do antropólogo gera cadeias de apoio (e desagravo) a pensadores, escolas e obras. O compromisso do missionário é menor com o processo científico-político e maior com o objetivo sociocomunitário. Neste trânsito, e com estes objetivos, missionários frequentemente pinçam das diversas escolas, teorias e pensadores, as ‘partes’ que se mostram úteis para a leitura de certa realidade e com a finalidade aplicada. Isto se deve a alguns motivos, mas principalmente à necessidade de ver seus estudos e pesquisas transformados em ações comunitárias relevantes que serão testadas logo a seguir em projetos e programas junto a um grupo. Esta distinção, quanto ao compromisso, também é norteadora da metodologia adotada pelas partes e suas expectativas.

MISSIONÁRIOS-ANTROPÓLOGOS

É ainda incipiente a presença de missionários-antropólogos no universo missionário mundial, porém não é nova esta função. Desde 1868 até nossos dias diversos acadêmicos missionários desenvolveram pesquisas e elaboraram estudos motivados pela produção de uma linha de treinamento antropológico e missionário, como George Harris, Wilhelm Schmidt, Edwin Smith, Eugene Nida, Louis Luzbetak, Paul Hiebert, Alan Tippett, Charles Kraft, David Hasselgrave, David Barrett e David Bosh, apenas para citar alguns.William Cameron Towsend (1896 – 1982), fundador das organizações Wycliffe Bible Translator e SIL International gerou o foco na tradução da Bíblia para línguas minoritárias fomentando uma grande ênfase no estudo das comunicações interculturais com fundamentação antropológica que segue ainda hoje com a renomada publicação Ethnologue (LEWIS, 2009) e tantas outras ações.

Hiebert (1999, p. 15-6) nos diz que a antropologia colabora com as ações missionárias por (1) fazer compreender situações transculturais, (2) esclarecer tarefas missionárias como a tradução da Bíblia e aquisição de uma nova língua, (3) auxiliar a compreensão dos processos de conversão, incluindo a mudança social, (4) ajudar a comunicar o evangelho de forma relevante para aquele que o ouve, (5) construir relacionamentos interculturais criando pontes de compreensão e comunicação.

Ainda que haja grandes controvérsias a respeito da antropologia aplicada é indiscutível a invariável tendência mundial instrumentalista a qual caminha para, cada vez mais, utilizar a antropologia como área do conhecimento humano aplicada nas soluções dos problemas sociais. A antropologia aplicada é reconhecida como a união entre o conhecimento e a ação, a pesquisa e a atividade. A antropologia missionária pode ser vista, portanto, como a antropologia aplicada às pesquisas e ações missionárias.

No Brasil, a antropologia aplicada ao trabalho missionário foi orientada, em um primeiro momento, por algumas pessoas, dentre as quais destaco os professores Barbara Burns, Frances Popovich, Isabel Murphy, Paul Freston e Rinaldo de Mattos os quais, em suas relevantes e diferentes ações de treinamento, lançaram luz sobre o valor da sociologia, antropologia e fenomenologia da religião no currículo missionário, cujo resultado é visto em quase todos os centros de treinamento missionário em nosso país. Além dos diversos centros de treinamento missionário, algumas iniciativas complementares como o Instituto MultiEthnos e o Instituto Antropos cooperam com a conscientização e formação missionária evangélica com ênfase na antropologia aplicada. A Capacitação Antropológica coordenada pelo Instituto Antropos contribuiu nesta direção treinando 237 missionários entre 2001 e 2009. Também a Faculdade Etnia, estabelecida em 1997, é uma das primeiras pós graduações com ênfase antropológica de orientação missionária. A UniEvangelica e Instituto Antropos lançaram em 2010 a primeira pós graduação em antropologia intercultural no país, e coordenada pelo segmento missionário, crendo ser possível gerar no Brasil um número crescente de missionários-antropólogos nos próximos anos com um efeito positivo também nos centros de treinamento missionário (e não apenas presente atuação de campo) onde boa parte dos missionários-antropólogos devem investir em algum momento de suas vidas e trabalho.

Além das preciosas obras com teor antropológico aplicáveis às ações missionárias no mundo, e várias traduzidas para o Português, algumas publicações neste viés foram escritas no Brasil, nesta incipiente produção de literatura em antropologia missionária: Antropologia Aplicada (Roger Bastide, 1979), Missões e a Igreja Brasileira - Perspectivas Culturais (Timóteo Carriker, 1993), De Todas as Tribos (Isaac Souza, 1996), A Manipulação no Processo de Evangelização (Stephenson Araújo, 1996), Messianismo e modernidade – Repensando o messianismo a partir das vítimas (Luiz Rossi, 2002), Religião e Política, Sim; Igreja e Estado, não (Paul Freston, 2006), Indígenas do Brasil (Organizado por Ronaldo Lidório, 2006), Contextualização: A Fiel Comunicação do Evangelho (organizado por Bárbara Burns, 2007), A Questão Indígena (Organizado por Isaac Souza & Ronaldo Lidório, 2008), O Evangelho e a Cultura, Leituras para uma Antropologia Missionária (Timóteo Carriker, 2008), Antropologia Missionária (Ronaldo Lidório, 2008), Fenomenologia da Religião (Cácio Silva, 2009), além do periódico Antropos – Revista de Antropologia, em formato online lançado pelo Instituto Antropos em 2007 e atualmente na 4ª edição.

Foram também publicados no Brasil mais de uma centena de artigos tratando de aspectos da antropologia aplicada às ações missionárias desde a década de 70 e publicados em sites especializados como o periódico Antropos (www.revista.antropos.com.br), Departamento de Assuntos Indígenas da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (www.indigena.org.br) e Instituto Antropos (www.instituto.antropos.com.br).

Devemos perceber, portanto, que missionários-antropólogos estiveram sempre presentes ao longo da história das missões desde 1868 com forte produção literária e também grande influência nos centros de treinamento missionário mundial.

ANTROPOLOGIA DA COMUNICAÇÃO E AS DEMANDAS MISSIONÁRIAS

Há contínua necessidade da Antropologia missionária prosseguir em outros degraus de estudo, pesquisa e aplicação. Por um lado, devido a sua ênfase etnográfica estudos foram feitos em milhares de grupos e segmentos sociais nos ultimos 150 anos envolvendo cosmovisão, organização social e análise linguística.

Se a experiência de campo é um ponto forte entre a comunidade missionária mundial, a ausência de métodos de pesquisa tem sido um de seus desafios. Diversos métodos surgiram no intuito de fornecer ao segmento missionário ferramentas de pesquisa, estudo e comunicação em contexto intercultural, especialmente ligados às sociedades missionárias no século 19 e início do século 20. Outros, com maior rigor científico, surgiram a partir da década de 60. Basicamente são métodos em três áreas distintas: a antropologia (métodos etnográficos e de registro cultural), a linguística (métodos de análise linguística e tradução da Bíblia), e a missiologia (métodos de evangelização transcultural e plantio de igrejas culturalmente relevantes).

De forma geral poderíamos afirmar que o contexto de treinamento missionário necessita passar de sua fase etnográfica e adentrar a etnológica. É preciso não se contentar tão somente na coleta sistemática de dados culturais, mas também em sua análise e compreensão, e nesta direção há duas áreas de forte carência de atenção nos estudos e preparo missionário mundial: o estudo da identidade cultural e a comunicação intercultural.

Laburthe-Tolra e Warnier conceituam identidade como “um princípio de coesão por uma pessoa ou grupo. Ela permite que se distinguam dos outros, se reconheçam e sejam reconhecidos” (1997, p. 420). Os estudos identitários são de vital importância para uma compreensão mais profunda do outro (como ele se vê), sua percepção de pertencimento e para tornar os encontros e diálogos inteligíveis e aplicáveis. A ausência deste estudo fatalmente conduzirá a intervenções desfavoráveis ao contexto e real necessidade do grupo com o qual se relaciona. Identidade cultural é um estudo utilizado para o desenvolvimento de padrões de observação, compreensão e relacionamento entre culturas, o que sugere uma forte influência não apenas nos aspectos relacionais mas também comunicacionais entre os grupos.

William Gudykunst e Bella Mody em sua obra Handbook of Intercultural and International Communication fazem uma diferenciação intencional e sistemática entre comunicação transcultural, intercultural e internacional. Identifica comunicação transcultural como sendo comparativa, entre elementos e segmentos de culturas distintas. O objetivo primário da comunicação transcultural é a compreensão a partir do ponto de vista do experimentador da cultura observada ou estudada. Desta forma, a transculturalidade torna-se, como área de pesquisa e estudo, ferramental e útil, sobretudo para ambientes de construção de relacionamentos, negociações e comércio (GUDYKUNST & MODY, 2002)

Poderíamos afirmar que comunicação intercultural, por sua vez, tem o seu foco na comunicação entre pessoas de culturas distintas sendo menos comparativa e mais relacional . O objetivo principal da comunicação intercultural é a troca (de informação, conceitos, vivência e/ou qualquer outra área de conhecimento e cultura) a partir das relações comunicacionais. A interculturalidade, portanto, pode ser vista como um fenômeno de encontro de culturas e troca de conhecimento e vivência. Se por um lado é menos utilitária que a comunicação transcultural, em que distingue de forma plena o transmissor do receptor, por outro propõe-se a gerar um ambiente favorável a relações mais profundas em que transmissor e receptor se fundem na busca pelo sentido, conhecimento e diálogo.

De certa forma poderíamos afirmar que enquanto a comunicação transcultural objetiva a compreensão (de um sobre outro), a intercultural propricia o diálogo (de um com o outro). Comunicação intercultural e internacional também constituem áreas de diferentes focos e pesquisas, visto que nasceram a partir de demandas igualmente distintas. A comunicação intercultural parte da análise do indivíduo e sua sociedade, seu bojo cultural e sua cosmovisão. A comunicação internacional parte de uma análise mais contextual, da nação, país, empresa ou qualquer outro ambiente que lhe sirva de plataforma para a definição do contexto de análise, com suas normas, conceitos, organização e cultura. Enquanto a primeira se propõe a gerar elos de ligação, relacionamentos dialógicos na construção de valores, a segunda busca soluções para mútuo entendimento na construção de programas e projetos.

Poderíamos, portanto, sugerir que a antropologia missionária seja dialógica (por se fundamentar na troca de informações e percepções da visão de mundo), relacional (que se desenvolve nos ambientes de relacionamento pessoal), intercultural (ambienta-se na sociedade humana e no encontro de culturas), ideológica (objetiva comunicar valores bíblicos) e comunicacional (valoriza os processos de transmissão da mensagem na língua do grupo com o qual se relaciona).

EVANGELIZAÇÃO E CATEQUESE

A antropologia missionária cristã, buscada e defendida, não é impositiva nem destruidora de culturas, pois contém salvaguardas éticas e relacionais, que são também bíblicas. As ações missionárias, porém, são julgadas ao longo da história (e ainda o são hoje) a partir dos fantasmas da imposição catequista que houve durante os processos colonialistas. Deve-se fazer, portanto, a diferença entre evangelização e catequese, diferenciação esta não apenas metodológica mas conceitual, ou seja, que expressa as transformações quanto a abordagem do outro e exposição do evangelho nos últimos séculos.

Por catequese me refiro não apenas ao modelo tradicional católico romano, mas a qualquer modelo – cristão ou não cristão, católico ou evangélico – que se baseie (1) na imposição de valores em lugar de sua exposição, (2) nos códigos de quem transmite e não de quem recebe, (3) na proposta de relação do grupo alvo com a igreja-instituição e não com a igreja-pessoas, (4) no alvo de adequar o ouvinte a uma forma religiosa nominal, e (5) não ajudá-lo a compreender o sentido do evangelho.

Assim, propõe-se uma comparação didática. Enquanto a evangelização se dá com os códigos do ouvinte, (língua materna e cultura) a catequese ocorre com os códigos do transmissor. A evangelização se concentra na mensagem do evangelho a ser transmitida enquanto a catequese se centraliza nos símbolos e estrutura da igreja que o faz. Se por um lado a evangelização tem como alvo o povo e a geração de um acesso ao conhecimento de Cristo, a catequese visa a igreja-instituição e seu fortalecimento estrutural. A evangelização é dialógica e relacional, uma vez que utiliza de processos de conversação, exposição e discipulado, que visa o entendimento da mensagem e sua aplicação na vida diária. A catequese é impositiva e distanciada, pois ocorre no ensino não dialogado e em um ambiente de transmissão sem conversação, quase puramente litúrgico.

A antropologia missionária possui a função de, por meio da educação antropológica, evitar os processo de catequese e fomentar a evangelização com característica dialógica, ética, relacional, inteligível e funcional.

ÚLTIMAS PALAVRAS

Ao longo de 1 século e meio de publicações antropológicas com aplicabilidade missionária podemos observar o grande valor que antigos missionários, bem como sociedades missionárias, deram ao uso da antropologia para o direcionamento de suas abordagens de campo e o treinamento das novas gerações. Pontuo alguns valores da antropologia missionária:

1. Leva a perceber os diferentes contextos no qual se está inserido, e prepara para neles transitar.

2. Expõe a importância e complexidade da cultura, bem como as possibilidades científicas de interpretá-la.

3. Identifica os mecanismos sociais que colaboram para melhor aquisição linguística e integração pessoal no grupo abordado.

4. Conscientiza que todo encontro cultural é um processo de troca e, como tal, ao mesmo tempo rico e sensível.

5. Destaca a relevância da compreensão da cultura para o desenvolvimento de ações comunitárias que evitem o paternalismo, o assistencialismo e o imposicionismo.

6. Colabora na identificação, com o grupo, das áreas de carência e demanda social e as possibilidades de ações de minimização do sofrimento humano.

7. Instrui sobre a abordagem evangelizadora, para que seja inteligível para o receptor e ética entre as partes.

8. Apresenta a sociedade humana de forma completa, inserida em sua cultura, e não divorciada do seu contexto e história.

9. Capacita metodológica e cientificamente para a análise cultural e os processos de comunicação interpessoal, cultural, transcultural, intercultural e internacional.

10. Ajuda a apresentar Jesus Cristo como a verdade de Deus para o próprio povo, em sua visão de mundo, e não como uma história distanciada do grupo.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BARRETT, Stanley. Anthropology – A student guide to theory and methods. Toronto, 2009.

BROWN, Paula; PLOTNICOV, Leonard; SUTLIVE, Vinson. Anthropology's Debt to Missionaries. Pittsburg, 2007.

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TABER, Charles. To Understand the World, to Save the World: The interface between Missiology and Social Science. Harrisburg, PA, 2000.

______. The World is Too Much With Us: “Culture” in Modern Protestant Mission. Macon, GA, 1991.

WITHEMAN, Darrell L. Anthropology and Mission: The Incarnational Connection. International Journal of Frontier Missions, 2004.

 

Última atualização em Dom, 28 de Novembro de 2010 03:13

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