Como teve início a antropologia missionária ?

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PERGUNTA: Como teve início a antropologia missionária ? Desde quando missionários usam a antropologia em seu trabalho ?

REPOSTA: Ronaldo Lidório

Fico grato por este interesse na antropologia missionária. Copio abaixo parte de um livro ainda não publicado que tenho preparado sobre o assunto. Espero que lhe seja útil.

O estudo e uso da antropologia nas ações missionárias tem início em meados do século dezenove, porém recebeu um forte impulso a partir da publicação do artigo de Malinowski intitulado Practical Anthropology em 1929, ironicamente ele mesmo um opositor à atuação missionária, com algumas exceções. Um dos pioneiros no incentivo do uso da antropologia nas ações missionárias foi Edwin Smith (1876-1957), filho de missionários e nascido na África do Sul, tendo servido também como missionário entre 1902 e 1915 entre o povo Baila-Batonga na Zâmbia. Apesar de se considerar apenas um antropólogo amador, sua constribuição nesta área junto aos movimentos missionários foi marcante, bem como o reconhecimento da comunidade antropológica internacional da época, tornando-se membro da Royal Anthropological Institute of Great Britain de 1909 até sua morte e tendo atuado por alguns anos como presidente da mesma.

Nos Estados Unidos da América a publicação do periódico com o mesmo título – Practical Anthropology – em 1953 serviu à comunidade missionária evangélica pela iniciativa de Robert Taylor no Wheaton College. Esta publicação gerou um crescente interesse e uso da antropologia no treinamento missionário e associaram-se a ela os escritos de Eugene Nida, William Smalley, William Reyburn e Charles Taber, entre outros (WHITEMAN, 2004).

Enquanto o estudo do homem pelo homem encontra suas raízes nos primórdios da sociedade, a antropologia, como ciência social, manifesta seu desenvolvimento teórico nos séculos dezenove e vinte, sob a influência de um ambiente de transformação social, descobertas científicas e exposição das idéias de Karl Marx, Émile Durkheim, Max Weber e outros pensadores. A partir daí a antropologia passa a ser construída pelo estruturalismo de Lévy-Strauss, o culturalismo de Franz Boas, a proposta interpretativista de Clifford Geertz e a abordagem pós moderna de James Clifford, entre diversas outras influências, moldando variadas perspectivas sobre o mesmo objeto de estudo, o homem, e a busca por conhecê-lo em sua multiforme área de vivência. A divisão incipiente da Antropologia em física e cultural não resulta puramente dos métodos usados para estudá-la, mas de sua própria história no desenvolvimento de teorias físicas (biológicas) e culturais (sociais) na pesquisa do homem, sua existência e comportamento (BARRETT, 2009).

Tradicionalmente a Escola Americana divide a antropologia em física, cultural, arqueológica e linguística, demarcando mais amiúde suas áreas de pesquisa. A antropologia cultural, bem como outras, possui uma ampla variedade de aplicações e pesquisa como a arte, saúde, educação, alimentação, comunicação, religião, imagem e etnicidade em franca demonstração da necessidade dos óculos antropológicos na abordagem acadêmica ou prática de qualquer área de experimentação e interação humana.

É nesta esteira da busca pela compreensão do homem que algumas obras influenciaram profundamente o treinamento missionário incorporando ao mesmo o estudo antropológico. Marvin Mayers, Ph.D. em antropologia, publicou Christianity Confronts Culture: A Strategy for Cross-Cultural Evangelism em 1974 contribuindo para a construção de uma ponte entre a evangelização e a sensibilidade cultural. Charles Kraft publicou Christianity in Culture em 1979, demonstrando o quanto a cultura influencia a maneira de compreendermos a teologia. Apesar dos questionamentos teológicos à sua obra houve uma positiva influência no treinamento missionário e na observação das influências culturais. Paul Hiebert, antropólogo, missiólogo e missionário, defendeu em seu livro Anthropological Insights for Missionaries, em 1985, que o missionário precisava conhecer as Escrituras para compreendê-la e conhecer o homem para com ele se comunicar. Ao longo de seus 10 livros e 150 artigos expôs a necessidade de uma antropologia aplicada ao contexto, necessidades e ações missionárias, e é provavelmente a maior influência nesta geração quanto ao uso da antropologia no treinamento missionário.

Diversas conferências evangélicas com a intenção de valorizar o uso da antropologia no meio missionário ganharam forma desde meados do século dezenove. As mais conhecidas foram as de Nova York em 1854, a de Liverpol em 1860 e a de Londres em 1888, esta com 1.600 pessoas representando 53 sociedades missionárias. Porém, neste período, o marco de despertamento para o estudo da antropologia no meio missionário ocorreu na Conferência Mundial de Missões em Edimburgo[1] em 1910: “Edimburgo é importante porque mostra que missionários lutavam com todas as críticas que antropólogos faziam” (WHITEMAN, 2004, p. 40). O resultado desta conferência foi um amplo e crescente envolvimento com o estudo antropológico no meio missionário mundial.

Podemos aqui propôr que a antropologia missionária visa o estudo do homem como ser biológico e cultural, com a finalidade de desenvolver relações interpessoais equilibradas e comunicação inteligível, em um ambiente de partilha das verdades de Cristo e envolvimento com a sociedade abordada, suas virtudes e desafios.



[1] Edimburgo 1910 foi a conferência precursora do Conselho Missionário Internacional (CoMIn).

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14 de dezembro de 2014

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