Desejo saber mais sobre os mitos e as implicações de usá-los em processos de evangelização.

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PERGUNTA: Sabemos que os mitos de um grupo revelam parte de sua cosmovisão, a forma como eles entendem a própria identidade e o mundo. Por outro lado, na evangelização do grupo, é correto pensar que qualquer uso dos mitos para explicar alguma verdade (bíblica, por exemplo) pode ajudar o desenvolvimento de um eventual sincretismo?

RESPOSTA: Cácio Silva (AMEM/APMT)

Olá!

É sempre muito bom interagir com quem está envolvido ou interessado na comunicação do evangelho.

Como você disse, o estudo dos mitos é importantíssimo, pois temos ali a “biblioteca” cultural. Muito das crenças e valores estão expressas nos mitos. Ficamos sempre com a pergunta se os mitos são causadores ou resultados de tais crenças, pergunta difícil de responder, mas o importante é que eles realmente expressam o pensamento coletivo.

Respondendo à sua pergunta: não. O uso do mito nem sempre causará sincretismo, assim como nem sempre garantirá uma boa comunicação. A questão, portanto, é a forma como se usa os mitos.

O sincretismo é um risco sempre presente e o que propicia seu surgimento é a má compreensão do evangelho, problemas de comunicação, independente de usarmos ou não os mitos em nossa pregação.

Em nossa experiência, percebo que eles são excelentes recursos de ilustração. Não contêm a Verdade, mas abordam temas centrais que precisamos comunicar. Se vou falar, por exemplo, da criação segundo a Palavra, utilizo um mito de origem em termos comparativos. Na verdade, não apenas comparativos, mas sim contrastivos.

Ao contrário do que muitos pensam, que devemos buscar o que há de comum na mitologia com a Palavra e deixar de lado o que há de diferente, fazemos um caminho contrário. Procuramos “descolar” cada verdade fundamental do evangelho do que se crê mitologicamente, pois, afinal, se a Palavra não for aceita e compreendida como fonte da verdadeira revelação, construiremos encima dos frágeis alicerces mitológicos e não nos firmes alicerces bíblicos.

No noroeste da Amazônia brasileira, os povos das famílias Aruak, Tukano e “Maku”[i] ) possuem um mito que, com pequenas variantes, versa sobre a origem da noite. Só existia o dia, pré-existente e infindo, o que causava um sério transtorno. Na versão dos povos agricultores, as pessoas não conseguiam descansar, trabalhavam muito, pois o dia nunca acabava. Na versão dos povos caçadores-coletores nômades, a comida nunca era suficiente, pois as pessoas não paravam de comer. Assim, seus respectivos heróis míticos saíram à procura e “acharam” a noite, que teve origem com insetos que cobriram o sol.

Usei certa vez esse mito como ilustração ao falar da criação, fazendo um contraste entre o que eles ouviram dos seus avós e o que a Palavra nos ensina. Depois de alguns dias um indígena me procurou para dizer que havia entendido a mensagem. O que em sua cultura parecia com Deus, de fato não tinha nada a ver com Ele, já que o dia foi a primeira criação de Deus.

O que aconteceu foi que em sua cultura a vida gira em torno de uma força mística impessoal (mana), a qual está relacionada com o dia. Se o dia foi criado, logo, aquela força é menor que Deus, é criada e não criadora, e, portanto, não pode ser Deus. Pronto. O caminho estava aberto para ele compreender a verdadeira revelação da pessoa de Deus. Enquanto não houvesse esse “descolamento”, tudo que eu falasse sobre Deus seria compreendido pelo viés da força impessoal, pré-existente, imanente, grandiosa, porém, não relacional, aética e manipulável. O sincretismo estaria instaurado.

Portanto, os mitos podem e devem ser usados, porém, de forma criteriosa. O risco é “colar” o que deve ser “descolado”. Na verdade, a maior utilidade dos mitos não é a ilustração, mas sim, o fato de neles estarem contidas as principais idéias ou noções que formatam o pensamento coletivo. O que o povo compreende sobre Deus, deuses ou espíritos, queda ou pecado, controle da vida, ética, moralidade, expectativas quanto ao futuro, pós-morte e assim por diante.

O recurso didático é bom, auxilia, mas o que nos interesse de fato são essas noções. Somente compreendendo as mesmas é que saberemos como comunicar o evangelho de forma que ele seja inteligível, relevante e aplicável àquela determinada cultura. Este sim é o grande valor do mito.

Abaixo algumas sugestões de leitura.

 

Forte abraço,

Cácio Silva

Para uma leitura acadêmica sobre mitos:

CRIPPA, Adolpho. Mito e cultura. São Paulo: Convívio, 1975.

GIORGIS, Paula Caleffi. A história no mito – Proposta metodológica. In: SIDEKUM, Antônio (org.). História do imaginário religioso indígena. São Leopoldo: UNISINOS, 1997.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e significado. Lisboa: Edições 70, 1989.

LÉVI-STRAUSS, Claude. A estrutura dos mitos. In: LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

 

Para uma leitura missiológica sobre mitos:

LIDÓRIO, Ronaldo. Mitos. http://instituto.antropos.com.br/v3/index.php?option=com_content&view=article&id=446&catid=35&Itemid=3

SILVA, Cácio. Mito: O relato de fatos fundantes. In: SILVA, Cácio. Fenomenologia da religião: Compreendendo as idéias religiosas a partir das suas manifestações. Anápolis: Transcultural, 2008, pp.83-98.


[i] Termo pejorativo, usado inapropriadamente para se referir aos povos Nadëb, Dâw, Yuhupdeh e Hupdah, significando algo como “primitivo, selvagem” ou “serviçal, inferior”. Uso aqui por falta de uma melhor opção e as aspas indicam meu desconforto.

 

 

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