Como começar um estudo da cultura local entre os Mura, especialmente da fenomenologia da religião?

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PERGUNTA: Como começar um estudo da cultura local entre os Mura, especialmente da fenomenologia da religião, para entendermos melhor algumas questões de sincretismo?

RESPOSTA: Cácio Silva (AMEM/APMT)

Oi gente,

Graças a Deus pela presença de vocês entre os Mura e o desejo de compreenderem melhor seu mundo e forma de pensar.

Uma cultura deve ser estudada de forma multidisciplinar, envolvendo especialmente a etnologia e a fenomenologia. A primeira busca compreender a identidade, seja étnica, social ou cultural, sendo assim mais ampla em busca do todo. A segunda busca compreender as idéias ou noções que estão no nível mais profundo de uma cultura, idéias que geram valores, comportamentos, estruturas.

Quando falamos, portanto, de fenomenologia da religião, nos referimos ao estudo de um recorte [religião] que, no nosso caso missionário, não deve ser feito de forma isolada. Ou seja, é importante proceder a uma análise fenomenológica, porém, paralelo à análise etnológica gerando dados para uma relevante abordagem missiológica.

Temos conceituado sincretismo como “a mistura de princípios religiosos diferentes ou opostos, com a aceitação de todos como verdadeiros, em maior ou menor escala, quer ocorra essa mistura no nível de influência apenas ou da fusão”[i][i]. E para nós, missionários, o sincretismo é tanto um desafio quanto um risco.

Desafio porque a maioria esmagadora dos povos com os quais vamos trabalhar, já apresenta um quadro sincrético, seja islamismo-animista como em vários lugares da África, budismo-xamãnico como em vários lugares da Ásia ou catolicismo fortemente influenciado pelo animismo indígena, que é nosso caso no Brasil. Por simples contato, imposição ou, principalmente, falhas na comunidade, as “grandes religiões” são recebidas e reinterpretadas a partir de uma base religiosa local já existente resultando em uma série de adaptações, distorções ou fusões de elementos diferentes.

Assim, não basta estudar islamismo para comunicar o evangelho a uma culta destas, como não basta estudar apenas historicamente uma cultura indígena, buscando compreender apenas seu animismo tradicional, sem levar em consideração o todo que vivem hoje.

E o sincretismo é também um risco para nós porque se não compreendermos eficazmente uma cultural e não cuidarmos com esmero da comunicação do evangelho, geraremos novos sincretismos ao invés da transmissão compreensível, relevante e aplicável da Palavra.

Dito isto, voltemos à pergunta de vocês. A forma mais prática para estudar uma cultura é usando um método. Temos bons métodos de pesquisa cultural disponíveis. Particularmente usamos o Método Antropos e gostaria de indicar o mesmo a vocês. Podem encontrá-lo integralmente no livro “Antropologia Missionária”, do Ronaldo Lidório. Melhor ainda se puderem participar da “Capacitação Antropológica”, oferecida pelo Instituto Antropos, onde o método é exposto e comentado. São 418 perguntas que funcionam como um guia de pesquisa. Algumas certamente não se aplicam a um contexto ou outro, mas mostram o caminho para se chegar ao que é realmente importante compreender, viabilizando uma segura comunicação do evangelho.

Na área da fenomenologia da religião, vocês pesquisarão elementos e conceitos cruciais para a comunicação e compreensão do evangelho, tais como Deus, pecado e salvação. Quais as idéias existentes ou inexistentes na cultura sobre tais conceitos, o que é similar ou contrastivo com a Palavra, quais serão as possíveis barreiras para a compreensão ao ouvirem a mensagem?

As idéias mais profundas sobre tais conceitos não são geralmente expostas verbalmente ou, pelo menos, são expostas de forma superficial. A melhor forma de compreendê-las relevantemente é estudando os mitos e ritos. Nos primeiros encontrarão as crenças, nos segundos os atos. Quais crenças sobre origem, criação, controle da vida, provisão, solução de conflitos, doença e cura, morte, pós-morte? O que está por trás são forças pessoais (deus, deuses, espíritos) ou forças impessoais (místicas, como sorte e azar)? E o relacionamento com tais forças é de busca e submissão ou controle e manipulação? Quais ritos que marcam a existência, como gestação, nascimento, puberdade, funeral? Como resolvem os problemas da vida como doença, infertilidade, escassez? Todos estes elementos revelam as idéias que norteiam a religiosidade e são estas que importam para a relevante comunicação do Evangelho.

Um elemento que funciona como pano de fundo para tudo isso, especialmente entre nossos indígenas, é a magia. Compreender se a cosmovisão de um povo é mágica ou espiritualista ajuda em muito na compreensão de todo o restante, pois estes são registros culturais dos mais profundos.

A antropologia clássica faz distinção entre magia e religião. Preferimos aqui usar espiritualismo para esta segunda, por entender que tudo é religião. Toda cultura tem os dois elementos, mas sempre pende mais para um. Culturas +espiritualistas buscam relacionar-se com forças pessoas, geralmente envolvendo busca e submissão, enquanto as +mágicas procuram manipular as forças que estão em sua volta, sejam elas pessoais ou impessoais. O resultado é que esta forma de conceber e relacionar-se com o sagrado influencia seriamente a forma como recebem e compreendem o evangelho.

Por exemplo, culturas +mágicas tendem a perceberem Deus mais como uma força do que como uma pessoa, portanto, sem anseio de relacionamento com Ele, vendo a oração como uma fórmula mágica de manipulá-lo. Logo, a idéia de pecado/queda dificilmente será bem compreendida, pois se não há um ser pessoal que se ofende, então pecado não fará sentido algum. E se a queda não faz sentido, também não compreenderão bem a salvação, afinal, salvar de quê? E se esses três, ou mesmo um desses três, conceitos bíblicos estiverem distorcidos, possivelmente todo o restante do evangelho fará pouco ou nenhum sentido.

O resultado será um sincretismo.

Escrevo isso porque, ao que parece, boa parte dos sincretismos que encontramos entre indígenas no Brasil estão relacionados à reinterpretação do evangelho a partir de uma base animista-mágica. Quem sabe não seja o caso de vocês aí?

Espero ter ajudado. Abaixo algumas sugestões de leitura.

Em oração por vocês

Cácio Silva

Fenomenologia/Antropologia

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: Uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo: Paulinas, 2001.

HIEBERT, Paul, SHAW, Daniel & TIÉNOU, Tite. Religião popular: Uma resposta cristã às crenças e práticas populares. Monte Verde: Horizontes, 2009.

LIDÓRIO, Ronaldo. Antropologia missionária: A antropologia aplicada ao desenvolvimento de idéias e comunicação do evangelho em contexto intercultural. São Paulo: Instituto Antropos, 2008.

SILVA, Cácio. Fenomenologia da religião: Compreendendo as idéias religiosas a partir das suas manifestações. Anápolis: Transcultural, 2008.

Magia

FRAZER, James George. O ramo de ouro. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.

MONTERO, Paula. Magia e pensamento mágico. São Paulo: Ática, 1990.

LIDÓRIO, Ronaldo. Magia. http://instituto.antropos.com.br/v3/index.php?option=com_content&view=article&id=445&catid=35&Itemid=3

PIERUCCI, Antônio Flávio. A magia. São Paulo: Publifolha, 2001.



[i][i] SILVA, Cácio. Evangelização de grupos sincretistas. In: WINTER, Ralph, HAWTHORNE, Steven C. & BRADFORD, Kevin D (eds). Perspectivas no movimento cristão mundial. São Paulo: Vida Nova, 2009. p.600. Disponível também em: http://instituto.antropos.com.br/v3/index.php?option=com_content

Última atualização em Sex, 29 de Abril de 2011 23:29

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