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Fronteiras da contextualização (1)

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Nesta primeira palestra sobre Fronteiras da Contextualização tenciono abordar a comunicação do Evangelho como mandamento bíblico e desafio comunicacional, demonstrando alguns objetivos e também limitações da contextualização. Ao fim desejo concluir com a menção do que chamaremos de “elementos essenciais” em um processo de plantio de igrejas, que foco na contextualização da mensagem proclamada.

Quando Hesselgrave afirma que contextualizar é tentar comunicar a mensagem, trabalho, Palavra e desejo de Deus de forma fiel à Sua Revelação e de maneira significante e aplicável nos distintos contextos, sejam culturais ou existenciais, ele expõe um desafio à Igreja de Cristo: comunicar o Evangelho de forma teologicamente fiel e ao mesmo tempo humanamente inteligível e relevante. E este talvez seja o maior desafio de estudo e compreensão quando tratamos da teologia da contextualização. A ausência de uma teologia bíblica de contextualização, historicamente, tem gerado duas conseqüências desastrosas no movimento missionário mundial: o sincretismo religioso e o nominalismo evangélico.

Proclamação do Evangelho: Mandamento bíblico e desafio comunicacional

Gostaria de expor introdutoriamente sobre o mandamento à Igreja para a proclamação do Evangelho e seu desafio comunicacional, devido à diversidade de contextos. Faremos isto observando Mateus 24:14.

Ali Jesus se reunia com seus discípulos, pouco antes de ser elevado aos céus, e responde a estes sobre os sinais que antecederão a sua vinda. Após dissertar sobre evidências mais cosmológicas (guerras e rumores de guerras) e eclesiológicas (perseguição e falsos profetas) Jesus lança uma evidência puramente missiológica dizendo que “e será pregado o Evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim”.

A expressão grega para ‘e será pregado’[i] tem como raiz kerygma, uma proclamação audível e inteligível do Evangelho paralelamente à martyria[ii] que evoca um sentido mais pessoal, de testemunho de vida. Esta ação kerygmática aponta para o fato de que o Evangelho será pregado de forma compreensível. O ‘mundo’ aqui exposto no texto é a tradução de ‘oikoumene’ que significa ‘mundo habitado’. A idéia textual, portanto, não é geográfica, territorial, mas sim demográfica, onde há pessoas, mostrando que este Evangelho do Reino será pregado kerygmaticamente, inteligivelmente, em todo o mundo habitado. A forma disto acontecer, segundo o texto, é através do testemunho a todas as nações. A raiz para ‘testemunho’ aqui é ‘martyria’ que nos ensina que esta ação proclamadora, kerygmática, do Evangelho acontecerá através de uma Igreja martírica, que tenha o caráter de Cristo. Ou seja, apenas os salvos pregarão este Evangelho do Reino. Finaliza a frase dizendo que o testemunho chegará a todas as nações, onde traduzimos o termo ‘ethnesin’, de ‘ethnia’, para nações, ou seja, grupos lingüística e culturalmente definidos. Poderíamos parafrasear o verso 14 dizendo que ‘o Evangelho do Reino será proclamado de forma inteligível e compreensível por todo o mundo habitado, através do testemunho martírico, de vida, da Igreja, a todas as etnias definidas’. Então a frase final nos diz que ‘então virá o fim’ e ‘fim’ aqui (‘telos’) aponta para a volta do Senhor Jesus, ligado comumente à sua ‘parousia’, seu retorno.

Gostaria de chamar sua atenção para o princípio bíblico da comunicação. Jesus diversas vezes nos ensina que a transmissão do conhecimento do Evangelho não será uma ação realizada sem a participação comunicativa da Igreja. E esta participação envolve duas ações principais: a vida (testemunho), bem como a atitude de proclamar (expor verbalmente) o Evangelho de Cristo. Esta comunicação do Evangelho, portanto, em uma perspectiva de distintos contextos, necessita de um trabalho de ‘tradução’ em duas áreas específicas: a língua e a cultura.

Da mesma forma em que línguas diferentes dispõem de códigos diferentes para viabilizar a comunicação, o mesmo ocorre com a cultura. Quando se expõe a um Inuit, esquimó, que o sangue de Jesus nos torna branco como a neve, ele rapidamente nos perguntaria qual categoria de branco, já que em sua visão culturalizada de quem convive com a neve e o gelo por milênios, há 13 diferentes tipos de ‘branco’. Ignorar tal extrato cultural culminará em uma pregação rasa ou distorcida da Palavra de Deus. Quando se expõe a um Konkomba que fomos lavados pelo sangue do Cordeiro Jesus é necessário inicialmente identificar o termo correto para “sangue”, visto que há uma marcante diferença conceitual entre o sangue que indica vida e o sangue que indica morte. Quando se expõe sobre a salvação para um adolescente pós-moderno em uma mega cidade de país desenvolvido em cenário ocidental, é necessário aplicá-la à sua linguagem e contexto visto que o pressuposto de perdição bem como de salvação na sua sociedade são puramente humanizados. Em seu pensamento Deus não está presente em suas escolhas de perdição nem em suas tentativas de salvação, que são puramente ações humanas e sociais.

Contextualização: alguns pressupostos

Alguns princípios textuais podem nos ajudar nesta introdução, pensando em Mateus 24:14. Primeiramente que a transmissão de uma mensagem inteligível em sua própria língua e contexto, portanto contextualizada, é pressuposto para o cumprimento da grande comissão já que a nós cabe não somente viver Jesus, mas também proclamá-lo de forma compreensível. Também que apenas a Igreja, redimida, cumprirá esta tarefa. Ou seja, não é o Cristianismo que evangelizará o mundo mas sim a Igreja redimida, que passou por um novo nascimento.

Tendo em mente estes conceitos permitam-me mencionar alguns pressupostos que utilizo ao escrever este capítulo.

a) A Palavra é supracultural e atemporal, portanto viável e comunicável para todos os homens, em todas as culturas, em todas as gerações. Cremos, assim, que a Palavra define o homem e não o contrário.

b) Contextualizar o Evangelho não é reescrevê-lo ou moldá-lo à luz da Antropologia, mas sim traduzi-lo lingüística e culturalmente para um cenário distinto a fim de que todo homem compreenda o Cristo histórico e bíblico.

c) Apresentar a Cristo é a finalidade maior da contextualização. A Igreja deve evitar que Jesus Cristo seja apresentado apenas como uma resposta para as perguntas que os missionários fazem – uma solução apenas para um segmento, uma mensagem alienígena para o povo.

O conceito da contextualização evoca toda sorte de sentimentos e argumentações. Por um lado encontramos a defesa de sua relevância, com base na culturalidade e princípios gerais da comunicação. Crê-se, de forma geral, que sem contextualização não há verdadeira comunicação e aqueles que assim entendem procuram estudar as diversas possíveis abordagens nesta comunicação contextualizada. Por outro lado encontramos a exposição de seus perigos quando esta contextualização se divorcia de uma teologia bíblica essencial que a norteie e avalie, especialmente tendo em mente que o próprio termo ‘contextualização’ foi abundantemente utilizado no passado por Kraft a partir do relativismo de Kierkegaard com fundamentação em uma teologia liberal que não cria na Palavra de Deus de forma dogmática, mas sim adaptada, ou seja, que a Palavra de Deus se aplica apenas a contextos similares de sua revelação, não sendo assim supracultural e nem atemporal. Nossa proposta é entendermos que a contextualização não é apenas possível, com uma fundamentação bíblica que a conduza, mas necessária para a fidelidade na transmissão dos conceitos bíblicos.

É preciso avaliar nossos pressupostos teológicos a fim de guiarmos nossa ação missionária. Martinho Lutero, crendo na integralidade da verdade Bíblica, expôs um Evangelho que fosse comunicável, na língua do povo, com seus símbolos culturais definidos, porém escriturístico e sem diluição da verdade. Sem receio, por diversas vezes ensinou Melanchton dizendo: prega de forma que odeiem o pecado ou odeiem a você. Se por um lado defendeu uma contextualização eclesiológica traduzindo a Bíblia para a língua do povo, tendo cultos com a participação dos leigos, pregando a Palavra dentro do contexto da época, por outro deixou claro que o conteúdo da Palavra não deve ser limitado pelo receio do confronto cultural. Se sua sensibilidade cultural fosse definidora de sua teologia, e não o contrário, teríamos tido uma Reforma humanista e não da Igreja.

Um início de um movimento de libertação apenas do pensamento e da expressão. Um grito por justiça social que não inclui Deus e nem a salvação. Um apelo pelo resgate da identidade cultural, mas não a condução do povo ao Reino de Deus.

Os mais evidentes perigos na contextualização do Evangelho

Antes de seguirmos adiante gostaria de expor três perigos fundamentais quando tratamos da contextualização.

O primeiro perigo, que é político, tem sua origem na natural tendência humana de impor a outros povos sua forma adquirida de pensar e interpretar, prática esta realizada em grande escala pelos movimentos imperialistas do passado e presente, bem como por forças missionárias que entenderam o significado do Evangelho apenas dentro de sua própria cosmovisão, cultura e língua. Desta forma as torres altas dos templos, a cor da toalha da ceia, a altura certa do púlpito e as expressões faciais de reverência tornam-se muito mais do que peculiaridades de um povo e uma época, mas misturam-se com o essencial do Evangelho na transmissão de uma mensagem que não se propõe a resgatar o coração do homem, mas sim moldá-lo à uma teia de elementos impostos e culturalmente definidos apenas para o comunicador da mensagem, apesar de totalmente divorciados de significado para aqueles que a recebem. As conseqüências de uma exposição política do Evangelho tem sido várias, porém mais comumente encontraremos o nominalismo, em um primeiro momento e, por fim, o sincretismo quase irreversível. David Bosch afirma que o valor do Evangelho, em razão de proclamá-lo, está totalmente associado à compreensão cultural do povo receptor. O contrário seria apenas um emaranhado de palavras que não produziriam qualquer sentido sócio-cultural. George Hunsburger observa também que não há como pregarmos um Evangelho a - cultural, pois o alvo de Cristo ao se revelar na Palavra foi atingir pessoas, vestidas com sua identidade humana. A perigosa apresentação política do Evangelho, a que nos referimos, portanto, confunde o Evangelho com a roupagem cultural daquele que o expõe, deixando de apresentar Cristo e propondo apenas uma religiosidade vazia e sem significado para o povo que a recebe.

Um segundo perigo, que é pragmático, pode ser visto quando assumimos uma abordagem puramente prática na contextualização. Como a contextualização é um assunto freqüentemente associado à metodologia e processo de campo somos levados a entendê-la e avaliá-la baseados mais nos resultados do que em seus fundamentos teológicos. Conseqüentemente o que é bíblico e teologicamente evidente se torna menos importante do que aquilo que é funcional e pragmaticamente efetivo. Estou convencido que todas as decisões missiológicas devem estar enraizadas em uma boa fundamentação bíblico-teológica se desejamos ser coerentes com a expressão do mandamento de Deus (At 2:42-47). Entre as iniciativas missionárias mais contextualizadas com o povo receptor encontramos um número expressivo de movimentos heréticos como a Igreja do Espírito Santo em Gana, África, onde seu fundador se autoproclama a encarnação do Espírito Santo de Deus. Do ponto de vista puramente pragmático, porém, é uma igreja que contextualiza sua mensagem sendo sensível às nuances de uma cultura matriarcal, tradicional, encarnacionista e mística. Devemos ser lembrados que nem tudo o que é funcional é bíblico. O pragmatismo leva-nos a valorizar mais a metodologia da contextualização do que o conteúdo a ser contextualizado. A apresentação pragmática do Evangelho, portanto, privilegia apenas a comunicação com seus devidos resultados e se esquece de se ater ao conteúdo da mensagem comunicada.

Um terceiro perigo, que é sociológico, é aceitar a contextualização como sendo nada mais do que uma cadeia de soluções para as necessidades humanas, em uma abordagem puramente humanista. E esta deve ser nossa crescente preocupação por vivermos em um contexto pós-cristão, pós-moderno e hedônico. Isto ocorre quando missionários tomam decisões baseadas puramente na avaliação e interpretação sociológica das necessidades humanas e não nas instruções das Escrituras. Neste caso os assuntos culturais, ao invés das Escrituras, determinam e flexibilizam a teologia a ser aplicada a certo grupo ou segmento. O desejo por justiça social não deve nos levar a esquecermos da apresentação do Evangelho. Vicedon afirma que somente um profundo conhecimento bíblico da natureza da Igreja (Ef. 1:23) irá capacitar missionários a terem atitudes enraizadas na Missio Dei e não apenas na demanda da sociedade. A defesa de um Evangelho integral e desejo de transmitir uma mensagem contextualizada não devem ser pontes para o esquecimento dos fundamentos da teologia bíblica.

Conclusão

Avaliando um bom número de iniciativas de plantio de igrejas percebe-se que há elementos essenciais que sempre estão presentes nos processos de maior expansão e multiplicação. Os 7 elementos essenciais são: Fidelidade à Palavra, Oração, Abundante Evangelização, Intencionalidade, Discipulado e Liderança local, Edificação Comunitária e DNA multiplicador.

Todo este processo, desde a evangelização até o desenvolvimento de uma comunidade local, necessita de inteligibilidade e aplicabilidade do Evangelho, o que não é feito sem o conhecimento da sociedade e contextualização bíblica. Contextualizar o Evangelho é fazê-lo compreensível e aplicável a todo homem, em sua própria língua e cultura, na expectativa de que haja salvação em Cristo Jesus.

Trabalhos citados


Bosch, David J. 1983. The structure of mission: An exposition of Matthew 28:1-20. In Exploring church gorwth, ed. Wilbert R. Shenk, 218-248. Grand Rapids, MI: Eerdmans.

---------. 1991. Transforming mission: Paradigm shifts in theology of mission. Maryknoll, New York: Orbis.

Hesselgrave, David. 1980. Planting churches cross-culturally: A guide to home and foreign missions. Grand Rapids, MI: Eerdmans.

Hibbert, Richard. 2005. Paper: A survey and evaluation of contemporary evangelical theological perspectives on church planting.

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[i] ‘kerychtesetai’: e será proclamado de forma inteligível

[ii] ‘martyria’ (testemunho) indica uma ação informal de vida enquanto ‘kerygma’(proclamação) pressupõe uma pregação mais sistemático do Evangelho.

Última atualização em Qua, 03 de Agosto de 2011 16:20

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