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Fronteiras da contextualização (2)

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Nesta segunda palestra sobre Fronteiras da Contextualização gostaria de defender a grave necessidade de conciliação entre Teologia e Missiologia, estudar com vocês alguns princípios bíblicos de contextualização da mensagem do Evangelho e concluir com algumas aplicações em cenários de plantio de igrejas.

O presente embate mundial entre teologia e contextualização é possivelmente um reflexo do divórcio no ensino entre missiologia e teologia. Para alguns a missiologia é vista como simplista, teologicamente, e consequentemente varrida para fora dos centros acadêmicos e de preparo teológico em diversas partes do mundo, ou mesmo tratada como de menor valor.

Este terrível engano freqüentemente produz pastores sem sonhos, missionários despreparados e teólogos cujo conhecimento poderia ser grandemente usado para as necessidades diárias de uma Igreja que está com as mãos no arado, mas por vezes não sabe para onde seguir.

Missiologia e Teologia não devem ser tratadas como áreas separadas de estudo, mas sim como disciplinas complementares. A Teologia coopera com a Igreja ao fazê-la entender o sentido da Missão e a base para a contextualização do Evangelho. A Missiologia, por outro lado, dirige teólogos para o plano redentivo de Deus e os ajuda a ler as Escrituras sob o pressuposto de que há um propósito para a existência da Igreja.

Na ausência de um estudo teologicamente sadio sobre a contextualização bíblica, vários segmentos da Igreja, ao longo da história, foram influenciados pelo liberalismo teológico que encontrou na contextualização uma fácil apresentação de seus valores.

Soren Kierkegaard, com seu relativismo pragmático, propôs o entendimento da verdade a partir da interpretação individual, sem conceitos absolutos e dogmáticos. Willian James em 1907 lançou a base para o ‘movimento de contextualização filosófica e teológica’ defendendo a atualização teológica a partir da necessidade sócio-cultural ou lingüística. Na mesma linha Rudolf Bultmann defendeu a contextualização filosófica do Evangelho mitificando tudo aquilo que não fosse relevante ao homem moderno em seu próprio contexto. Estes e outros pensadores influenciaram a base conceitual da contextualização desenvolvendo uma nova proposta: não há verdade dogmática, supracultural e cosmicamente aplicável. A verdade é individual e como tal deve ser compreendida e aplicada de acordo com o molde receptor.

De forma mais institucional esta vertente foi bem demonstrada na Assembléia Geral do Concílio Mundial das Igrejas, em Upsala, em 1968. Ali a ênfase na humanização da Igreja permitiu o desenvolvimento do estudo da contextualização mais a partir da Antropologia do que da Teologia. A conferência sobre o “Diálogo com Povos de Religiões e Ideologias Vivas”, em 1977 em Chiang Mai, Tailândia, reforçou também o universalismo e a contextualização como forma de relativização de valores.

O contrapeso teológico deste assunto floresceu de forma mais ampla apenas em 1974 com Lausanne onde, apesar de reconhecer as diferenças culturais, lingüísticas e interpretativas nas diversas raças da terra, afirmou-se que a Palavra era o único mecanismo gerador da verdade a ser anunciada. Sobre evangelização e cultura o Pacto de Lausanne declara que “afirmamos que a cultura de um povo em parte é boa e em outra parte é má, devido à queda. Por isto deve sempre ser julgada e provada pelas Escrituras, para que possa ser redimida e transformada para a glória de Deus. Diante disto a evangelização mundial requer o desenvolvimento de estratégias e metodologias novas e criativas (Mc 7:8,9,13; Rm 2:9-11; 2Co 4:5)”.

Permitam-me chamar sua atenção para uma inquietante e acertada interpretação de Bruce Nicholls sobre o perigo do sincretismo e nominalismo como conseqüência de uma contextualização existencial sem fundamentação teológica. Ele diz que o sincretismo religioso "é uma síntese entre a fé cristã e outras religiões, a mensagem bíblica é progressivamente substituída por pressuposições e dogmas não-cristãos, e as expressões cristãs da vida religiosa de adoração, do testemunho, e da ética, conformam-se cada vez mais àquelas da parte não-cristã no diálogo. No fim, a missão cristã é reduzida a uma assim-chamada ‘presença cristã’, e na melhor das hipóteses, a uma preocupação social humanista. O sincretismo resulta na morte lenta da igreja e no fim da evangelização".

Vicedom nos apresenta um manto de cuidados teológicos para o processo da contextualização. Lembra-nos que, se cremos que Deus é o autor da Palavra, é o Criador que conhece e ama sua criação, portanto devemos crer que o Evangelho é dirigido a todo homem. A minimização da mensagem perante assuntos desconfortáveis como poligamia, por exemplo, não coopera para a inserção do homem, em sua cultura, no Reino de Deus. Ao contrário, propõe um Evangelho partido ao meio, enfraquecido, que irá cooperar com a formação de um grupo sincrético e disposto a tratar o restante da Escritura com os mesmos princípios de parcialidade. Hibbert alerta-nos que, no afã de parecermos simpáticos ao mundo (como a Igreja em Atos 2) nos esquecemos que a mensagem bíblica confrontará as culturas, mostrará o pecado e clamará por transformação através do Cordeiro.

Hasselgrave nos alerta também sobre o perigo de dicotomizarmos a mensagem crendo na Palavra de forma integral para nós, mas apresentando-a parcialmente a outros. Ele nos ensina que o Evangelho é libertador mesmo nas nuances culturais mais desfavoráveis.

O liberalismo teológico de Kierkegaard, Bultmann e James, portanto, ameaça a compreensão bíblica da contextualização uma vez que leva-nos a crer na apresentação de um Evangelho que não muda (pois toda mudança cultural seria negativa), não confronta (pois a verdade é individual e não dogmática) e não liberta (pois a liberdade proposta é apenas social).

Se cremos que Deus é o autor da Palavra, que o Evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16), e que “a justiça de Deus se revela no Evangelho” (v.17), passaremos a nos preocupar com a melhor forma de comunicar esta Verdade, de maneira inteligível e aplicável, sabendo que, promovendo confrontos e mudanças, é a Verdade de Deus que liberta todo aquele que crê.

O Evangelho: a necessidade de uma compreensão bíblica

Uma das maiores barreiras na evangelização é a nossa própria compreensão do Evangelho. Por diferentes motivos humanizamos o Evangelho nas últimas décadas em um processo reducionista. Passamos a igualar o Evangelho a nós mesmos. Quando se diz que o Evangelho está crescendo, ou está sofrendo oposição, o que de fato desejamos comunicar é que a “Igreja” está crescendo ou sofrendo oposição. Paulo, escrevendo aos Romanos no primeiro capítulo, porém, deixa bem claro algo que parece estar esquecido em nossos dias: nós não somos o Evangelho – o Evangelho é Jesus Cristo. Portanto, apresentar a Igreja não é evangelizar. Expor a ética cristã para a família não é evangelizar. Anunciar a própria denominação não é evangelizar. Evangelizar é apresentar Jesus Cristo, sua vida, morte e ressurreição, para salvação de todo aquele que crê.

Modelo bíblico de contextualização da mensagem

Vejamos o assunto da contextualização a partir da experiência bíblica de Paulo em três momentos específicos. Apesar de Paulo ser o apóstolo para os gentios (Gal. 1:16) ele era um judeu devoto. Desta forma, a partir de seus sermões e ensinos podemos garimpar princípios norteadores da contextualização da mensagem.

Observaremos três passagens bíblicas no livro de Atos nas quais Paulo proclama o Evangelho. Primeiramente a um grupo formado puramente por judeus, em outra ocasião a judeus, mas com presença gentílica simpatizante ao judaísmo e por fim para gentios totalmente dissociados do mundo judaico e de seus valores vetero-testamentários. Ficará evidente, creio que Paulo jamais compromete a autenticidade da mensagem bíblica, porém a comunica com aplicabilidade cultural de forma que haja boa comunicação utilizando os elementos necessários para tal.

Em Atos 9:19-22 encontramos Paulo em Damasco com os discípulos proclamando Cristo nas sinagogas apresentando-O como “o Filho de Deus” e “confundia os Judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo”. Aqui encontramos Paulo logo após ser salvo e expondo nas Escrituras que o Jesus que ele perseguia no passado tão próximo era de fato o Filho de Deus. A expressão grega para ‘demonstrando’ (que Jesus era o Messias prometido), no verso 22, implica em demonstração com evidências objetivas, visíveis, o que nos dá a impressão que Paulo o fazia através do próprio texto sagrado, as Escrituras. Sua forma de pregação seguia a mesma dinâmica que ele viria a usar em todo o seu ministério entre os Judeus: demonstrando a partir de comprovação escriturística que Jesus é o Messias esperado (At 17:1-3). Paulo bem sabia que se alguém desejasse mostrar aos Judeus que uma pessoa era o Messias, teria que fazê-lo através das Escrituras. Assim sua abordagem foi baseada nas Escrituras, centralizada na promessa do Messias e promotora de evidências que este era Jesus. Paulo aqui falava aos filhos de Israel, que se viam como os filhos da Promessa e, portanto, em toda sua pregação ele utilizava elementos históricos e marcos da relação entre Deus e seu povo escolhido.

Em Atos 13: 14-16, encontramos Paulo “atravessando de Perge para a Antioquia da Psidia, indo num sábado à sinagoga”. Logo depois ele, erguendo a mão passou a lhes proclamar a Cristo. Neste texto o grupo, culturalmente definido, é o mesmo de antes: Judeus. Porém havia também presença gentílica de simpatizantes da fé judaica. Paulo inicia com um dos principais fatos da história judaica, o Êxodo. Ele então os relembra da história de Israel até Davi quando então, intencionalmente, lhes introduz a promessa do Messias (At 13:23) e a liga a Jesus. Interessante como Paulo neste caso prega a Cristo a partir do “Deus de Israel” e se fundamenta no Antigo Testamento para lhes apresentar o Messias por saber que os gentios ali presentes não apenas conheciam o Antigo Testamento, mas também procuravam segui-lo. Porém, sua pregação tem também forte teor moral e escatológico, que a distingue da primeira em Atos 9, apenas para aos judeus, demonstrando sua sensibilidade para um auditório misto, mesmo que prioritariamente judeu e judaizante. No verso 39 Paulo utiliza um texto de inclusão (todo aquele), que se contrapõe ao discurso mais exclusivo que seguia com os judeus, dizendo que todo aquele que cresse seria salvo. Certamente os gentios judaizantes, fora da história biológica de Israel, se viam aí incluídos: um Messias judeu para judeus e gentios.

Na terceira passagem, em Atos 17: 16-31, Paulo proclama a Cristo para gentios que nenhum conhecimento tinham das Escrituras. Paulo está em Atenas, o centro filosófico do mundo da época, e é conduzido até o areópago pelos epicureus e estoicos. Neste momento Paulo se encontrava em um cenário totalmente paganizado sem pressupostos judaizantes. O sermão de Paulo desta vez não se iniciou nas Escrituras vetero-testamentárias ou mesmo na promessa do Messias. Paulo lhes pregou Deus a partir das evidências da criação e do deus desconhecido, “pois este que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio” (At 17: 23) passando a apresentar-lhe os atributos de Deus que “fez o mundo... sendo Ele Senhor do céu e da terra” (v. 24), “de um só fez toda a raça humana” (v. 26), “não está longe de cada um de nós” (v.27), “notifica aos homens que todos em toda parte se arrependam” (v.30), “por meio de um varão... ressuscitando-o dentre os mortos” (v.31). Note que no verso 24 Paulo utiliza ‘Theos’ para se referir ao “Deus que fez o mundo”, sendo o mesmo termo utilizado (‘Theos’) para mencionar o deus desconhecido. Ele utiliza da idéia existente de deus para apresentar revelacionalmente o Deus da Palavra, criador de todas as coisas. O fim da mensagem é o mesmo: Jesus que morreu e ressuscitou.

Notem que aos Judeus Paulo lhes fala sobre “o Deus da promessa”, Aquele que lhes trouxe do Egito, pois estes conheciam o Deus da Escritura e se viam como os filhos da promessa. Eles entendiam que Deus se revelou a seus pais, que interagiu com seu povo ao longo da história, que lhes deixou as Escrituras.

Ao segundo grupo Paulo lhes fala sobre o Deus das promessas e da história de Israel, mas, como havia entre eles gentios, lhes fala também do Messias que há de vir para a salvação de todo aquele que crê. Percebemos aqui neste texto que Paulo apresenta-lhes o Evangelho com fortes evidências escriturísticas, para os Judeus, além de um forte apelo moral e escatológico, para os gentios judaizantes.

Ao terceiro grupo, puramente gentílico, o Messias que há de vir não lhes transmitia nenhuma mensagem aplicável à sua história, pois era visto tão somente como o Messias Judeu. Eles não tinham as Escrituras que O revelavam nem as promessas e alianças. Eles não se enxergavam como filhos da promessa e não se identificavam com Abrão e Moisés. Porém eles se viam como os filhos da Criação. Possuíam tremenda atração pelas obras criadas e fascinação pela figura do Criador. Eram caçadores de respostas, estudiosos da religiosidade, qualquer religiosidade. Portanto Paulo lhes pregou o Deus da criação, aquele que era antes de qualquer outro, que detém o poder de fazer surgir, e mantém a humanidade e o cosmos. Ele lhes fala demoradamente sobre os atributos deste Deus que é único, soberano, próximo e perdoador. Finalmente lhes fala de Jesus como o centro do plano salvífico de Deus, apresentando-O como o Messias para toda a humanidade.

Algumas conclusões a partir do modelo Paulino de exposição do Evangelho, em relação à contextualização da mensagem.

1. A mensagem, em um processo de comunicação contextual, jamais deve ser diluída em seu conteúdo. A fidelidade às Escrituras deve ser nossa prioridade à semelhança de Paulo que falou da ressurreição de Cristo no areópago mesmo sabendo que seria um tema controverso para a crença filosófica presente.

2. O público alvo, seus pressupostos culturais, língua e entendimento sobre Deus são fatores relevantes para a apresentação do Evangelho. Paulo não pregou a Cristo da mesma forma aos três grupos. Sua sensibilidade ao ouvinte conduziu sua abordagem.

3. O uso de simbologias culturais explicatórias das verdades bíblicas podem ser utilizadas desde que apresentem claramente a relevância do Evangelho, como Paulo fez utilizando o ‘deus desconhecido’ partindo de um elemento sócio-cultural para expor, com clareza, a verdade do Evangelho. Em outros momentos ele o faz a partir da criação, do contraste entre Deus e os deuses adorados e do próprio sentimento humano de desencontro com a vida e perdição.

4. O Evangelho deve ser explicado a partir do Evangelho e não da cultura. O conteúdo do Evangelho não é negociável. Quando Paulo fala aos judeus sobre o Messias e lhes apresenta Jesus, ele estava ali em uma linha ‘segura’ de comunicação. Porém, seu desejo por criar uma atmosfera propícia para a comunicação não fez com que minimizasse as verdades mais confrontadoras, que o levariam a ser expulso, ignorado e questionado.

5. O alvo final da apresentação da mensagem é levar o homem ao conhecimento de Cristo e não simplesmente comunicar. A comunicação de Paulo pavimentava o auditório para a apresentação da verdade, tanto para os filhos da promessa quanto para os filhos da criação.

6. A contextualização da mensagem, linguística e culturalmente, é um instrumento para uma boa comunicação, que transmita o Evangelho de forma clara e compreensível, e Paulo a utilizava abundantemente ao falar distintamente com judeus e gentios, escravos e livres, senhores e servos. Também Jesus, ao propor transformar pescadores em pescadores de homens, ao utilizar em seus sermões a candeia que ilumina, a semente lançada em diferentes solos, o joio e o trigo no mesmo campo, a dracma que se perdeu, e as redes abarrotadas de peixes, Ele o faz para que o essencial da Palavra chegue de maneira inteligível para a pessoa, sociedade e cultura que o ouve.

7. O resultado esperado da apresentação contextualizada do Evangelho é o arrependimento dos pecados e sincera conversão. Qualquer apresentação do Evangelho que leve o homem a sentir-se confortável em seu estado de pecado é certamente inconclusiva e parcial. Paulo deixa isto bem claro quando lhes expõe um Evangelho libertador e transformador.

Critérios bíblicos para a contextualização

Tippett enfatiza que quando um povo passa a ver Jesus como Senhor pessoal, e não um Cristo estrangeiro; quando eles agem de acordo com valores cristãos aplicados à própria cultura vivendo um Evangelho que faz sentido à sua cosmovisão; quando eles adoram ao Senhor de acordo com critérios que eles entendem, então teremos ali uma igreja entre eles.

Apesar de o Evangelho ser supracultural e atemporal, para todos os povos em todos os tempos, cada cultura, por si, possui sua própria fórmula de elaboração de perguntas a serem respondidas pela Palavra. A sensualidade é condenada pela Bíblia, mas cada povo desenvolve uma compreensão cultural distinta do que é ou não sensual. A contextualização da mensagem, portanto, é um processo necessário para que a mesma seja transmitida com fidelidade.

Podemos exemplificar pensando na figura de um homem ocidental urbano com pneumonia. No ocidente tal enfermidade é tratada de acordo com o conhecimento acumulado sobre a enfermidade e a história prescrita de cura. A pergunta que surge, portanto, é apenas como tratá-la. No contexto africano, a principal pergunta a ser debatida não é como, mas sim porquê. A causa da enfermidade é a questão mais relevante e nenhuma ação será tomada até que haja uma iniciativa na direção de se produzir esta resposta. Trata-se uma mesma enfermidade objetiva, gerada pelos mesmos mecanismos biológicos, mas com abordagens culturais distintas. A compreensão das perguntas que inquietam os corações é fundamental para a proclamação do Evangelho de forma decodificada e transformadora. Se fecharmos os olhos para a necessidade da contextualização iremos comprometer o conteúdo do Evangelho na transmissão do mesmo. Possivelmente passaremos adiante apenas sinais sem significados que produzirão valores sincréticos e não bíblicos.

Devemos, porém, perceber que a contextualização não possui valor em si mesma. Seu valor é proporcional ao conteúdo a ser contextualizado. Nielsen afirma que a Ubanda no Brasil é a forma mais perfeita de contextualização de valores religiosos. Trazida pelos escravos moldou-se ao Catolicismo europeu, forneceu uma mensagem pessoal e informal, gerou células que ganham vida de forma independente e cria cenários atrativos para novos adeptos. Portanto a pergunta não é apenas “como contextualizar”, mas especialmente “o que contextualizar”.

Na tentativa de avaliar a compreensão (e transformação) do Evangelho em um contexto transcultural, ou mesmo culturalmente distinto, proponho três principais questões que deveríamos tentar responder perante um cenário onde o mesmo já foi pregado:

a) Eles percebem o Evangelho como sendo uma mensagem relevante em seu próprio universo?

b) Eles entendem os princípios cristãos em relação à cosmovisão local?

c) Eles aplicam os valores do Evangelho como respostas para os seus conflitos diários de vida?

Contextualizar o Evangelho é traduzi-lo de tal forma que o senhorio de Cristo não será apenas um princípio abstrato ou mera doutrina importada, mas sim um fator determinante de vida em toda sua dimensão e critério básico em relação aos valores culturais que formam a substância com a qual experimentamos o existir humano.

Para que isto aconteça é necessário observar alguns critérios para a comunicação do Evangelho:

1. Toda comunicação do Evangelho deve ser baseada nos princípios bíblicos não sendo negociada pelos pressupostos culturais das culturas doadoras e receptoras do mesmo. Entendo que a Palavra de Deus é tanto transculturalmente aplicável quanto supraculturalmente evidente. É, portanto suficiente para todo homem, seja o urbano ou o tribal, o passado ou o presente, o acadêmico ou o leigo.

2. A comunicação do Evangelho deve ser uma atividade realizada a partir da observação e avaliação da exposição da mensagem que está sendo comunicada. O objetivo desta constante vigilância é propor um Evangelho que possa ser traduzido culturalmente fazendo sentido também para a rotina da vida daquele que o ouve. É necessário fazer o povo perceber que Deus fala a sua língua, em sua cultura, em sua casa, no dia a dia.

4. A rejeição do Evangelho não deve ser visto, em si, como equivalente à má contextualização. O confronto da Palavra com a cultura ocorrerá, como também a rejeição.

5. Ao elaborarmos a abordagem na apresentação do Evangelho deve-se partir da Bíblia para a Cultura e não o contrário.

Não interessa o que mais um missionário faça, ele precisa proclamar o Evangelho. Trabalho social, ministério holístico e compreensão cultural jamais irão substituir a clara comunicação do Evangelho ou justificar a presença da Igreja. O conteúdo do Evangelho exposto em todo e qualquer ministério de plantio de igrejas deve incluir a Deus como Ser Criador e Soberano (Ef. 1:3-6); b) O pecado como fonte de separação entre o homem e Deus (Ef. 2:5); c) Jesus, Sua cruz e ressurreição como o plano histórico e central de Deus para redenção do homem (Heb. 1:1-4); d) O Espírito Santo como o cumprimento da Promessa e encarregado de conduzir a Igreja até o dia final.

Conclusão

Concluo com rápidas palavras. Precisamos conciliar a sensibilidade e interesse cultural com uma teologia bíblica que fundamente o ministério. Se uma sugestão pudesse ser dada seria esta: reavaliarmos nossa atividade missionária e eclesiástica à luz daquilo que é teologicamente fundamentado e não apenas praticamente frutífero, seja do ponto de vista da comunicação da mensagem ou da formação da igreja.

Colhemos hoje frutos amargos do nominalismo cristão e do sincretismo religioso que germinaram a partir de um enfraquecimento na centralidade da Palavra durante o trabalho de comunicação do Evangelho. As justificativas históricas para tal quase sempre orbitaram em dois pontos: a ênfase na justiça social e a procura por uma comunicação culturalmente mais sensível. Porém, se cremos que Deus é o Criador e Senhor da história, dos povos, das línguas e culturas, precisamos crer que Sua Palavra não é apenas verdadeira, mas também fomentadora de justiça (libertando os fracos e oprimidos) e também comunicável, ao coração de todo homem, e destinada a todo homem.

Paralelamente também colhemos frutos amargos pela ausência de compreensão cultural na apresentação de Cristo. Dois destes frutos são o nominalismo cristão e sincretismo religioso. Olhando as frentes missionárias despreocupadas com a contextualização encontraremos abundamente, templos de cimento para culturas de barro, pianos de calda para povos dos tambores, terno e gravata para os de túnica e turbante, sermões lineares para pensamentos cíclicos, sapatos engraxados para pés descalços. Tão ocupados em exportar nossa cultura nos esquecemos de apresenta-lhes Jesus, Deus encarnado, totalmente contextualizado, luz do mundo.


 

Trabalhos citados

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Última atualização em Qua, 03 de Agosto de 2011 16:19

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