AJURU – WAJURU

AIKANÃ
07/03/2013
AMANAYÉ – AMANAGÉ
07/03/2013

AJURU – WAJURU

Autodenominação: Wajuru.

Outros Nomes: Wayoró (DAI/AMTB 2010), Wayurú, Ayurú, Wajuru ou Ajuru (Pinto 2010).

População: 94 (DAI/AMTB 2010), 213 (FUNASA 2010).

Localização: No Rio Colorado e seu afluente Terebito, na margem direta do Baixo Rio Guaporé com o Rio Mamoré na Terra Indígena (T.I.) Rio Guaporé (115.788 hectares) no município Guajará Mirim, com grupos das etnias Makurap, Djeromitxi, Tupari, Arikapo, Aruá, Massacá (Aikanã), Canoé, Cujubim e indivíduos dos Wari. Total na T.I.: 600 habitantes (Pinto 2009.13).

Língua: Português (DAI/AMTB 2010).  Wayoró (SIL) com 80 pessoas, mas quase extinta. Wajuru, Makurap e Tupari são línguas classificadas na família Tupari do tronco Tupi (Pinto 2009.18). Os mais velhos falam essas línguas na vida doméstica. Hoje, existem apenas uns dez falantes da língua; os jovens falam o português (Pinto 2009.18).

História: O Rio Guaporé formou uma barreira natural entre as colônias espanholas e portuguesas depois do Tratado de Madri de 1750, mas a região somente começou a ser ocupada na segunda metade do século 19 com a procura para a borracha (Pinto 2009.24). Não se sabe muito sobre o que aconteceu no tempo entre a marcação da fronteira e o círculo da borracha e as histórias de sociedades inteiras são completamente desconhecidas.

O antigo território dos Wajuru era o Igarapé Preto, nas cabeceiras do Rio Terebito, afluente do Colorado. Existiam três subgrupos entre os Wajuru: Guayurí (‘povo da pedra’), Kündir iat (‘povo do mato’) e Wakünan iat (‘povo da cotia’), os quais mantinham para si territórios diferentes, porém falavam a mesma língua. Os Wajuru tinham a reputação de ser mais bravos do que os outros povos, inclusive, fala-se que matavam seus cunhados. Os Wajuru e Jaboti deixavam os inimigos mortos para que os urubus os comessem. Mas os Tupari destinavam os inimigos aos ritos canibais. Faziam as pazes visitando os outros nas festas de chicha. Nessas ocasiões eles dançavam, cantavam trocavam artesanatos e, às vezes, trocavam também mulheres. Eram nas chichadas que aconteciam os namoros e casamentos entre as aldeias, os quais eram marcados pelo uso da terminologia de consanguinidade entre os povos diferentes. A hospitalidade era considerada um processo de ‘amansar’ os outros (Pinto 2009.43).

Os indígenas ficaram isolados nas áreas de mais difícil acesso até o século 20. A procura da borracha ficou mais escassa devido a nova demanda do látex durante a Segunda Guerra Mundial. Os povos das cabeceiras dos afluentes do Rio Guarporé, em ordem decrescente na margem direita, nos rios Mequéns, Colorado, São Simão, Branco e São Miguel sofreram as consequências do contato (Pinto 2009.24 citando Maldi 1991). Em 1914, o inglês P. H. Fawcett, encarregado do Governo Boliviano, encontrou-se com dois mil ou mais ‘Maxubi’ no Rio Colorado, os quais na realidade eram Arikapo (Pinto 2009. 25).

Nos anos entre 1910 e 1920, dois seringais foram montados no Alto Rio Branco, dessa forma, o contato foi intensificado para os Wayuru, Makurap e, mais tarde, para os Jaboti e Aruá. Os seringalistas incorporaram os índios no trabalho pelo sistema de escravidão de dívida.

Alguns dos seringueiros nordestinos se casaram com as indígenas, inclusive com mulheres Wajuru. Os Kündir iat aprenderam a “amansar” os brancos mais cedo que os outros. Já os Jaboti queriam fazer guerra contra os brancos, alegando que não eram aceitos por tais como seres humanos (Pinto 2009.47). Os brancos que aprenderam a língua Wajuru eram tratados como parentes, mas “tiraram muito ouro e o levaram por avião” (Pinto 2009.50).

Em 1930 o SPI começou a demarcar o território da Área Indígena. Nos mapas da época, os Ajuru ou Wajuru viviam na margem esquerda do Alto Rio Branco ou no Rio Colorado. No mesmo ano, o SPI estabeleceu um Posto no Médio Rio Guaporé, e transferiu compulsoriamente parte dos povos para sua colônia agrícola, inclusive 70 Ajuru e Makurap, sendo na maioria jovens do sexo masculino separados das suas famílias (Pinto 2009.30). Os índios se revoltaram em 1954 e uma epidemia de sarampo dizimou a população. Os Ajuru atuais são descendentes de outra geração que desceu ao Posto na década 70 voluntariamente.

Os missionários Bontkes e Campbell do SIL fizeram um mapeamento dos povos da região em 1967 e 1968. Os Wayuru estavam situados cerca de dez quilômetros acima das cabeceiras do Rio Colorado, mantendo “fronteiras de caça” nos dois lados com os Arikapo e com os Tupari (Pinto 2009.29). A FUNAI fez a demarcação da área em 1976, e a revisou em 1985 para incluir marcações de espaços importantes de castanhais, seringais e florestas de caça que foram homologadas em 1996 como a T.I. Rio Guaporé (Pinto 2009.38). A T.I. Rio Branco foi organizada em 1986, porém nenhum Wajuru vive lá. Os Wajuru dividem a sua história entre o ‘tempo da maloca’ e ‘ser brabos’ e ‘tempo no meio dos brancos’ e ‘ser amansados’, essa divisão foi marcada pela descida deles para trabalhar na seringa (Pinto 2009.54).

Estilo da Vida: Os Ajuru ou Wajuru têm caraterísticas culturais em comum com os Tupari, Arikapo, Aruá, Japoti, Koatiara, Makurap, Sacarabiat, e outros, um fenômeno que Denise Maldi chamou de o “Complexo Cultural do Marico” (Pinto 2009.13). A Terra Indígena é composta de quatro aldeias: o Posto Ricardo Franco; a Baía da Coca; Baía das Onças e Baía Rica; e Mata Verde e o Bairro. No Posto estão as casas dos homens Wajuru e suas famílias. Nos outros lugares vivem as outras etnias. As casas têm forma regional de sala, dois quartos e cozinha, com telhado de palha e paredes de pranchas. Elas são construídas em fileiras seguindo o curso do rio. A aldeia não tem pátio central. Todas as casas têm energia elétrica, geladeira e algumas possuem televisão. Cada casa tem um pátio ao redor e as mulheres o limpam todo dia. No pátio criam galinhas, patos e porcos. Ali também guardam o pilão para moer macaxeira e fazer chicha (Pinto 2010).

As roças são distantes das aldeias e são compreendidas como o espaço de cada casal, por isso, muitas vezes o homem e sua mulher trabalham juntos. Planta-se macaxeira, milho, arroz, feijão, cará, amendoim e abacaxi. O alimento preferido é a macaxeira com peixe e carne de caça. As famílias ganham bolsa-família e aposentaria para comprar café, açúcar, óleo, sal e outros produtos industrializados. Os homens caçam por duas ou três noites com espingarda. Eles abrem a floresta e derrubam as árvores das novas roças. As mulheres fazem coleta de frutas, limpam as casas e as abastecem com água e lenha (Pinto 2010). A chicha é uma bebida fermentada feita de macaxeira, mas, no passado podia ser produzida com milho, cará ou amendoim. As chichadas acontecem duas ou três vezes por semana. As chichas remetem ao passado do tempo da maloca e guardam um mistério cosmológico, que somente os pajés podem enxergar.

Sociedade: Conforme Maldi, a sociedade Wajuru tinha quatro divisões que não existem mais: Kup diriat (pau ou mato), Kup goviat (urucum), Üpeg iat (urubu) e Üagá iat (sapo). De acordo com Pinto, existiam três subgrupos entre os Wajuru: Guayurú (‘povo da pedra’) eram aqueles que viviam próximos à serra de pedra, eles abrigavam os espíritos de seus mortos e se consideravam os verdadeiros Wajuru; Kündir iat (‘povo do mato’), eram aqueles que viviam no mato como nômades, sem fazer maloca ou roça; e os Wakünan iat (‘povo da cotia’) eram considerados preguiçosos por não fazer roça (Pinto 2009.75).

Cada casa é habitada por uma família nuclear ou um casal. O casamento é patrilocal, ou pelo menos as mulheres mudam de casa enquanto os homens ficam quase sempre no mesmo lugar. No Posto, os casais são em maioria exogâmicos interétnicos. Então quando os pais casam uma filha estão formando mais um lugar para ir e tomar chicha, nesse caso, fala-se que os caminhos entre os assentamentos estão “limpos” ou “cerrados” conforme a frequência dos convites para chichadas. O casamento acontece quando a filha é entregue à casa do noivo, quando o casal foge ou quando a moça é raptada. Os filhos pertencem à etnia do pai (Pinto 2010). Os Wajuru têm um sistema de virás – ou companheiros – que pode ser um relacionamento de amizade entre os homens ou de apoio mútuo.

Os Wajuru estão em terceiro lugar quanto à população, mas ocupam os cargos políticos de cacique da T.I. e a presidência da Associação Indígena.

Artesanato: São chamados de povo do complexo cultural do marico. Os maricos são cestas/bolsas de fibras de tucum, tecidas em pontos miúdos ou médios, de vários tamanhos. São carregados por uma alça que é cuidadosamente ajeitada na testa, a fim de que o peso seja distribuído pelas costas. Sua confecção é exclusivamente feita por mulheres, apesar de serem utilizados tanto por homens quanto por mulheres para transportarem produtos da roça e da coleta, que são atividades majoritariamente femininas. (Silva 2009.13). Os homens trançam esteiras e cestos. Os netos talham o banquinho de pajé para seu avô.

Religião: Os pajés trazem as almas dos céus para que uma mulher engravide e o “sangue” do marido durante o ato sexual é considerado necessário para o desenvolvimento do bebê. Dessa forma, o filho pertence ao pai e à sua etnia. Depois do nascimento, os pais respeitam resguardos de comer carne de caça ou caçar predadores, para evitar que os espíritos roubem as almas das crianças.

Os espíritos são definidos conforme sua maneira de morrer: awariat são aqueles espíritos, parentes, que morreram por doença e moram no céu, são o povo do céu; ügupuiat são aqueles que morreram na água (ügu, água) e vivem lá, são o povo da água; e wãinkoiat são os espíritos que morreram por homicídio, wãinko é a alma que virou bicho, espírito maligno que vaga pela floresta (Pinto 2009.73).

Cosmovisão: O antigo território dos Wajuru, o Igarapé Preto, é situado ao pé da serra e, conforme os mitos, era a maloca dos espíritos dos mortos Wajuru, mas quando uma mulher os amaldiçoou eles foram embora para o céu e por isso os vivos não puderam conversar mais com seus parentes falecidos, exceto os pajés que ainda podem ter esse contato.

No começo do mundo, dois irmãos demiurgos roubaram o fogo do diabo que era um urubu-gente. O irmão mais novo não tirou o fogo direito, por causa disso um mundo foi queimado e ele morreu em chamas ao pé da serra, que depois ficou conhecido como Campo Grande. Todas as vezes os Wajuru atravessavam o campo e avistavam uma pedra que parecia uma mãe com um filho no colo, não deveriam auxiliar o filho, pois o fogo incendiaria de novo (Pinto 2009.43). Mais tarde os americanos tiraram o ouro do Campo Grande (Pinto 2009.52).

Os espíritos são os donos do mato e especialmente dos animais, por isso são perigosos. A onça também é considerada dona do mato e os Wajuru dizem que o caçador rouba a caça da onça. É preciso observar as seguintes regras: sair para caçar em silêncio, caçar somente no território próprio e só caçar o suficiente para a família próxima. Os casais ou homens e mulheres sozinhos voltam da roça, da pesca e da caça sem falar com ninguém até chegar nas suas casas. Depois tomam um banho no igarapé (Pinto 2010).

 

Bibliografia:

DAI/AMTB 2010, Relatório 2010-Etnia Indígenas do Brasil, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos – http://instituto.antropos.com.br/

HEMMING, John, 2003, Die If You Must – Brazilian Indians in the Twentieth Century, London; Pan Macmillan.

PINTO, Nicole Soares, 2010, ‘Waiuru’, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/wajuru/

PINTO, Nicole Soares, 2009, Do poder do sangue e da chicha: os Wajuru do Guaporé (Rondônia), Dissertação: Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes Departamento de Antropologia Social Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social- PPGAS, wwwantropologiasocialufpr.br/dissertacoes/56pdf

SIL 2009, Lewis, M. Paul (ed), Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth Edition. Dallas, Tex: SIL International. Versão on line: http://www.ethnologue.com/

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