Algumas advertências no processo de adquirir uma língua

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Algumas advertências no processo de adquirir uma língua

Advertência 1: Motivação

Motivação é essencial. Se você não tiver motivação própria, você não vai aprender outra língua. Não adianta ter motivação imposta pelos outros, aprender por razões dos outros, simplesmente porque acham que você deve fazer isso (mesmo sendo um ministério). Se essas razões nunca chegam a ser as suas próprias motivações, esqueça. E o prestígio de uma língua também pode afetar a nossa motivação, fazendo com que o aprendizado de uma língua minoritária seja acompanhado por uma motivação menor, pelo menos do lado pessoal, pois ela geralmente não traz benefícios pessoais para o aprendiz.

Advertência 2: O bilingüismo ou multilingüismo do povo alvo – benção ou barreira

O bilingüismo ou multilingüismo do povo alvo pode ser uma benção e ao mesmo tempo uma barreira. Ele é útil quando o aprendiz está empenhado e motivado pra aprender a língua do povo, e usa uma língua em comum só pra fazer perguntas mais abstratas e aprofundadas sobre a língua que ele está aprendendo. A ajuda de um informante bilíngüe é muito útil também no entendimento de textos complexos, e até de estruturas gramaticais.

O bilingüismo é um grande desafio quando o aprendiz e o povo alvo já tem uma língua em comum. Isso pode matar a motivação. A tendência é falar somente a língua que todos têm em comum, pois é mais fácil, desta forma a motivação para aprender a língua alvo começa a desmoronar. Isso é um grande obstáculo para a aquisição.

Devemos entender que o fato de estar em uma situação trans-cultural não significa necessariamente que adquirir a língua tradicional do povo é sempre o melhor caminho. Temos que avaliar a direção futura da comunidade – entender as escolhas deles, e depois adequar as nossas estratégias a essa realidade. Os mesmos fatores que fazem as culturas indígenas ou minoritárias perderem as suas línguas são os mesmos fatores que fazem o aprendizado dessas línguas por parte de um estrangeiro muito difícil. É a aproximação, o contato, e a aculturação dos povos minoritários dentro de contextos nacionais ou majoritários que causa os dois problemas. (No Brasil, por exemplo, quase metade dos indígenas (ou 48%) moram dentro ou próximos de centros urbanos. Veja o banco de dados da AMTB, accessível neste site, intitulado “Etnias Indígenas Brasileiras Relatório 2010”.) Quando se pode comunicar em uma língua majoritária de prestígio, que tem futuro social e econômico, quem gastará todo esse esforço para aprender a falar e comunicar-se bem em uma língua de menor prestígio?

De maneira bem simplificada, vou tentar relacionar alguns contextos sociolingüísticos conforme a dificuldade que eles apresentam pra o aprendizado. Esta lista esta organizada da seguinte forma:

– primeiro vem as situações mais apropriadas ou fáceis para o aprendizado da língua materna do povo alvo (sendo os contextos i-iv), e no final temos as situações mais precárias ou difíceis (v-xi).

Aprendizado mais fácil

Todos são monolíngües na língua materna *

A maioria é monolíngüe e alguns são bilíngües incipientes

Alguns são monolíngües, mas a maioria são bilíngües incipientes

Alguns são monolíngües, mas a maioria são bilíngües intermediários

Alguns são monolíngües, mas a maioria são bilíngües avançados

A maioria são bilíngües avançados, e algumas crianças são monolíngües na língua majoritária (e falantes passivos da língua materna)

Todos os adultos são bilíngües avançados, e a maioria das crianças é monolíngüe na língua majoritária

Todas as crianças e alguns adultos são monolíngües na língua majoritária, e o resto dos adultos são bilíngües (não existe mais a transmissão inter-geracional – fator que indica que a morte da língua materna está prevista)

A maioria do povo é monolíngüe na língua majoritária, com um grupo minoritário de velhos que falam a língua materna.

Praticamente todo o povo é bilíngüe na língua majoritária, com apenas um grupo bem reduzido de velhos que falam a língua materna – ela é considerado moribundo

Aprendizado mais difícil

Todos são monolíngües na língua majoritária – a língua materna foi extinta

(*Esta situação as vezes é mais difícil do que os contextos (i-v), por falta de explicações numa língua comum)

A pessoa que está indo rumo a um contexto trans-cultural deve procurar uma pesquisa realista da situação sociolingüística nesse local. Se uma pesquisa desse tipo não existe, então tente fazer uma avaliação simples, conforme as categorias acima. Se você está vendo que o local apresenta um bilingüismo muito alto, pense duas vezes. Talvez mudando de aldeia ou de comunidade pode melhorar o contexto e dar mais chances pra o aprendizado ser sucedido.

Advertência 3: O iniciante e o aprendiz que concluiu

Este método (como qualquer método) funciona melhor com iniciantes. Isso é por que o iniciante não tem criado hábitos prejudicais. Mas quando tem um aprendiz que já passo um tempo ali no local onde a língua é falada e não tenha aprendido a falar quase nada (mesmo tendo aprendido a leitura ou gramática da língua), é um sinal que há outra língua em jogo – que se trata de um povo bilíngüe. Ninguém consegue ficar por muito tempo sem comunicar, sendo que precisamos da comunicação para sobreviver. Então, nessa situação fica claro que o aprendiz está usando outra língua pra comunicar com o povo. Esse contexto é muito complicado, pois não adianta simplesmente aplicar um novo método – o aprendiz terá que quebrar velhos hábitos de se relacionar com os outros, agora insistindo que seja na língua nativa deles. E isso é muito difícil, tanto pra o aprendiz como pra o próprio povo que se acostumou a se relacionar desta forma. Se você não consegue mudar esses hábitos, o esforço de aprendizado não terá os resultados esperados.

A mesma advertência se aplica à pessoa que começaram a aprender uma língua, e consegue falar bem o básico, mas fica emperrado nas coisas mais complexas ou em certos domínios de uso. Isso se chama fossilização, algo muito comum (veja Ellis). Implica que ele tem achado outra forma de comunicar essas idéias, usando colocações complexas e não naturais na língua alvo, criando até uma língua própria – uma inter-língua (Ellis). A fossilização acontece mais quando uma pessoa está aprendendo uma língua de menos prestígio do que a sua, e acontece menos com pessoas que estão aprendendo uma língua majoritária. (Isso tem tudo haver com motivação.) Ou, em vez de fossilizar numa inter-língua, o aprendiz pode reverter pra o uso da língua majoritária quando a conversa chega a certo nível de abstração ou em certos domínios de uso. Se for o caso, novamente teremos que quebrar velhos hábitos de fala e de comportamento com as outras pessoas. E mas uma vez, isso é muito difícil. Quanto mais tempo ficamos parados no mesmo nível de habilidade, mais difícil será sair dela. Isto exige uma reavaliação.

Advertência 4: Atitude e Identidade

A nossa atitude diante de um povo é fundamental, pois a atitude que temos com o povo atinge e afeta o nosso desempenho na língua deste povo. Porque? Porque as línguas marcam e mostram a nossa identidade – elas são traços que nos identificam como membros de grupos sociais. Então, se temos uma atitude negativa do povo na qual nós vivemos, será com dificuldade que vamos adquirir a língua deles, pois não vamos querer ser identificados como membro desse grupo. Se você está pela primeira vez em um contexto trans-cultural, e se nesse contexto há estrangeiros que moram ali e que tenham atitudes negativas do povo, então corra! Atitudes negativas são como veneno que acaba com aquisição. O melhor remédio é cultivar um gosto pela cultura e pelo próprio povo, e estar rodeado por pessoas com atitudes positivas. Se você conseguir chegar até o ponto de querer ser um deles, o resto é moleza.

Advertência 5: Língua sem cultura

Língua sem cultura – isso não existe. Pois não são duas coisas distintas – são elementos de uma coisa só (veja Agar, Vygotsky). Se você quer aprender uma língua, não vai acontecer trancado dentro de um escritório. Exige um convívio – exige um mergulho dentro da cultura. Não só aprendendo sobre a cultura – mais entrando e PARTICIPANDO da cultura de uma forma contínua – isso vai trazer oportunidades para um aprendizado duradouro. A palavra chave aqui é participar. (Veja Vygotsky para uma discussão maior neste sentido). A participação muitas vezes faz a diferença entre um aprendiz que chega a um alto nível de habilidade, e um que fica emperrado no meio do caminho. Pois quanto mais você participa em todos os aspectos da cultura usando a língua deles, mais o seu domínio dessa língua vai fluir. Quando você para de participar na cultura, a língua para de progredir.

Bibliografia

Agar, Michael. 1994. Language Shock: understanding the culture of conversation. New York: William Morrow.

AMTB, 2010. “Etnias Indígenas Brasileiras Relatorio 2010”. hiptee:/institucionalísticoloads/RelatorioAMTB-DAI-IndigenasDoBrasil.pdf

Ellis, Rod. 1997. Second Language Acquisition. Oxford University Press.

Krashen, Stephen eTracy Terrell. 1983. The Natural Approach: Language Acquisition in the classroom. New York: Pergamon Press.

Thomson, Greg. http://www.languageimpact.com/articles/articles.htm

Vygotsky, L.S. (1978). Mind in society. Cambridge, MA: Harvard University Press.

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