MURA

MURA – PIRAHÃ
11/03/2013
PANARÁ
11/03/2013

MURA

 

Autodenominação: Mura. O termo ‘caboclo’ tem uma significação negativa, mas, hoje é usado pelos Mura para significar ‘índio misturado’, com referência à miscigenação com ribeirinhos nordestinos e outros não-índios através de casamentos, na maioria das vezes, com mulheres mura (Amoroso 2009).

População: 9.299 (DAI/AMTB 2010); 15.713 (FUNASA 2010).

Localização: Nos rios Madeira, Amazonas e Purus. Vivem em 41 Terras Indígenas no estado do Amazonas, nas cidades de Manaus, Autazes, Borba e em outros municípios centrais (Amoroso 2009). Na região interfluvial dos rios Madeira e Purus e no Rio Solimões. As Terras Indígenas estão situadas nos municípios de Alvarães, Anori/Beruri, Autazes, Borba, Careiro da Várzea, Novo Aripuanã, Itacoatiara, Manaquiri, Manicoré e Uarini (Amazonas).

Língua: Português (DAI/AMTB 2010). Os Mura falavam sua própria língua até o início do século 20, mas passaram a usar a língua geral com os regionais e agora falam apenas o português (Amoroso 2009). A língua geral ainda é falada entre os Mura no ambiente doméstico, nunca com estranhos. A língua Mura é da família linguística menor, do sul do Amazonas (Pequeno 2006.133). Somente os Mura Pirahã falam um dialeto dessa língua.

História: No século 17, os Mura tinham migrado da fronteira com Peru e desceram o Rio Solimões para várias regiões penetradas por igarapés, paranás e lagos nos rios Japurá, Madeira, Negro e Trombetas. Nessas regiões, as populações indígenas já eram fragilizadas e diminuídas pelas expedições de “resgate” que escravizavam os índios e os levavam pelo leste para trabalhar nas plantações ou na extração de castanha e látex (Amoroso 2009). No espaço criado entre as tribos enfraquecidas, os dois povos (os Munduruku e os Mura) pelejaram pelo domínio dos rios do lado direito do Médio Amazonas. Os Mura já tinham experimentado a traição de um português que os atraiu para sua embarcação e depois levou muitos deles cativos. A primeira menção deles foi registrada em uma carta do jesuíta Bartolomeu Rodrigues, da missão entre os Tupinambaranas no Rio Madeira. A aldeia da missão foi atacada e, por consequência disso, em 1744, mudou-se para o onde é a cidade de Borba hoje, no Baixo Madeira, mas os Mura investiram contra a nova aldeia facilmente (Pequeno 2006.138).

Em 1749, uma expedição portuguesa abriu caminho para o Mato Grosso subindo o Rio Madeira e repeliu os Mura com armas de fogo. Depois isso, os Mura passaram a fazer emboscadas ou ataques surpresa contra as invasões dos brancos, usando os caminhos fluviais para se esconder e escapar (Hemming 1995.20).

Nos séculos 17 a 19, apesar de terem sofrido ataques por parte dos colonos, os Mura continuavam a viver escondidos em um vasto território da rede de águas dos rios Madeira, Solimões e Purus (Amoroso 2009). Foram chamados ‘gentios ou índios de corso’, ou ‘corsários do caminho fluvial’, por causa do seu estilo de vida nômade. Eram tidos como ‘ferozes e impossíveis de civilizar’. Usavam arcos compridos de 12 palmas e flechas do mesmo tamanho e atiravam deitados usando as pernas (Pequeno 2006.142). Faziam das canoas suas casas em viagens de ataque ou emboscada e depois sumiam, escondendo-se nos igarapés, lagos e igapós dos rios. Não plantavam, nem tinham aldeias ou teciam.

Os Mura mantinham “guerra contínua contra os brancos”, especialmente contra as missões dos Jesuítas, e as tentativas de criar tartarugas no Solimões e perto da Barra do Rio Negro (hoje Manaus) foram abandonadas. Os assentamentos coloniais na Média Amazônia temiam os assaltos rápidos dos Mura e os portugueses recearam que a colonização da região fosse reduzida a nada. Os Mura vieram dos seus esconderijos nos lagos e os Munduruku avançaram do sul, descendo o Rio Tapajós para atacar (Hemming 1995.21).

Eles continuavam a atacar as embarcações no Rio Madeira, pelo qual a coroa portuguesa abriu um caminho para o Mato Grosso em 1753, especialmente depois da descoberta das minas de ouro (Pequeno 2006.143, 145). Atacaram também os índios que colaboraram com os brancos, sobretudo os que estavam fazendo a coleta no mato. Receberam os ‘ladinos’, os índios fugidos das aldeias de trabalho forçado e os negros dos quilombos, ciganos e outros, que provocaram ainda mais a hostilidade dos colonos (Pequeno 2006.137). Nessa época, os Mura sofreram com epidemias de sarampo e varíola. Esses fatores causaram a dispersão dos Mura por todos os afluentes do Amazonas até no Solimões e nos rios Japurá e Negro (Pequeno 2006.138).

Em 1737, os colonos pediram permissão para iniciar uma “guerra justa” contra os Mura, mas foi recusada pelo rei João VI (Pequeno 2006.135). Mesmo assim, os portugueses atacaram os Mura por três anos até que, em 1784, os índios se renderam, em Tefé, Alvarães, Borba e no Baixo Japurá; eles prometeram fornecer produtos do mato e sete aldeamentos foram estabelecidos (Pequeno 2006.147). Eles também foram derrotados pelos Munduruku do Rio Tapajós em 1788. Estes fizeram as pazes com os brancos em 1803.

Todavia, no século 19, a violência recomeçou quando os Mura se tornaram aliados dos Cabanos, porque viram na Cabanagem uma oportunidade de recuperar um pouco da sua liberdade. Depois da derrota dos Cabanos, a repressão dos Mura foi terrível e a sua população foi reduzida a poucos milhares. O governador do Rio Branco (Roraima), ‘Bararoá’ (seu nome de guerra), matou sistematicamente os prisioneiros rebeldes. Ele penetrou os lagos do Madeira e, em 6 de agosto de 1838, foi emboscado pelos Mura, foi preso e torturado até a morte (Hemming 1995.225). Então, os Mura continuaram a atacar viajantes e missões.

Na segunda metade do século 19, os Mura se concentraram em 20 aldeias no Vale do Rio Madeira e uma população de apenas 1.300 pessoas em oito aldeias (Pequeno 2006.149). Os remanescentes eram desprezados pelos brancos e pretos (Hemming 1995.235). Em 1926, os Mura tinham o total de 1.400 ou 1.600 pessoas em 23 aldeias nos rios Madeira, Manicoré, Autaz, Purus e Urubu. O SPI forneceu gêneros de produção agrícola, artigos industriais e iniciou a marcação de territórios, a comercialização da castanha e da pecuária (Pequeno 2006.151). O Núcleo de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais (NPCHS) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) começou, a partir de 2003, a realizar um levantamento das condições de vida da população Mura do município de Autazes. O projeto é denominado “Os Mura: Culturas, Técnicas, Educação e Sustentabilidade para a Amazônia”, com o objetivo de apresentar possibilidades de autossustentabilidade a essas comunidades e fornecer diretrizes para a gestão dos recursos naturais e territoriais (INPA 2006).

Estilo da Vida: Antigamente, os Mura viviam espalhados em grupos de famílias nucleares pela vasta área dos lagos e igarapés do Rio Madeira. Hoje em dia, estão concentrados em aldeias pela atuação do SPI na primeira parte do século 20. As aldeias contemporâneas consistem em menos de 30 casas na terra alta ao lado dos lagos. As famílias podem mudar de lugar até dez vezes durante a vida. Um grupo de casas consiste em uma família em torno das mulheres mais velhas. A mobilidade dos Mura se dá conforme as redes de parentesco e os acordos sobre o aproveitamento dos recursos das terras, que se estendem até os parentes que moram nas cidades do Rio Madeira (Amoroso 2009).

São pescadores e caçadores hábeis. Os homens caçam ou tiram a madeira da mata e abrem as roças ou ampliam as plantações, enquanto as mulheres cuidam das plantações e fornecem o peixe. As roças são trocadas de dois em dois anos. Plantam principalmente mandioca, banana, jerimum, mamão, batata-doce, cana-de-açúcar e cará. A base alimentar é a pesca e é feita com anzol, flecha e zagaia. Uma parte do pirarucu é salgado e destinado à venda. Toda a comunidade participa da colheita de castanha-do-pará. Colhem muitos frutos da floresta e plantam bastante perto das casas (Amoroso 2009).

Sociedade: A sociedade Mura é baseada em famílias extensas matrilocais. Antigamente, o casamento geralmente era realizado com a prima cruzada e o homem simulava o rapto da mulher. Há um alto grau de miscigenação com a população regional, porém, os Mura são ainda predominantemente indígenas (82%), tendo uma mistura de africanos (11%) e caucasoides (7%) (Salzano 1990). Esse processo envolve a inclusão no grupo de pessoas que não possuíam descendência Mura e é conhecido como “murificação” (Pequeno 2006.134). Os Mura Pirahã são os únicos que mantêm a sua língua.

Artesanato: Vendem farinha, madeira e palha nas cidades e participam como tripulantes nos barcos dos empreendimentos de pesca e ecoturismo.

Religião: Os Mura professam de ser 100% Cristãos e 10% são evangélicos.

Comentário: Porções da Bíblia foram produzidas na língua em 1987, mas usam a Bíblia em português.

 

 

 

Bibliografia:

AMOROSO, Maria, 2009, “Mura”, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo, SP, Brasil. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/mura/

DAI/AMTB 2010, Relatório 2010 – Etnia Indígenas do Brasil, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos – http://instituto.antropos.com.br/

HEMMING, John, 1995, Amazon Frontier; The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan.

 

PEQUENO, Eliane S. S. 2006. Mura, guardiães do caminho fluvial. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI, Brasília, v. 3, n.1/2, jul./dez. Pp. 133-155.

SALZANO, FM. et al. 1990, Reconstructing history: the Amazonian Mura Indians., Human Biology, Wayne University Press, USA, Oct 62 (5) pg. 619-635. Os autores são de Departamento de Genética, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.

SIL 2009, Lewis, M. Paul (ed.),. Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth edition. Dallas, Tex.: SIL International. Online version: www.ethnologue.com.


 

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