PAUMARI – PAMOARI

PANARÁ
11/03/2013
TENHARIM – KAGWAHIVA
11/03/2013

PAUMARI – PAMOARI

 

Autodenominação: Pamoari ou Paumari significa ‘nós’, o coletivo étnico do seu povo. Pode significar ‘freguês’ para com os comerciantes da região (Schröder 2002). Pamoari é usado em vez de ‘nós’ e os Paumari não usam os termos ‘nós’, ‘gente’ ou ‘humano’. Quando os regionais os chamam de Pamoari, eles mesmos entendem como distinção dos outros índios que são chamados ‘caboclos’ ou ‘brabos’ e se sentem aceitos como aqueles adaptados aos modos dos ‘civilizados’ (Bonilla 2005.49).

Outros Nomes: Kurukurú, Palmari, Pamarí, Pammari, Purupuru, Wayai, Yja’ari (Scröder 2002).

População: 892(DAI/AMTB 2010); 1.559 (FUNASA 2010). Contabilizavam 96 pessoas em uma só aldeia em 1964 e cresceram para 600 em 1996, em diversas aldeias no Rio Purus (Cahill 2004).

Localização: Os Paumari vivem nos lagos e nas margens do Médio Rio Purus, Amazonas: na região do Lago Marahã há 700 pessoas, no Rio Ituxi (afluente direito do Purus) há 100 pessoas e nos lagos do Rio Tapauá, afluente esquerdo do Purus, há 200 pessoas (Bonilla 2005.41). Moram nas: T. I. Caititu, T. I. Paumari do Cuniuá, T. I. Paumari Lago Manissuã, T. I. Paumari Lago Paricá, T. I. Paumari do Rio Ituxi, e T. I. Paumari Lago Maranhã.

Língua: Paumari. O povo chama a sua língua de pamoari. Pertence à família linguística Arawá. O que há de estudo sobre essa língua foi feito pelas missionárias Shirley Chapman, Mary-Anne Odmark, Meinke Salzer e Beatrice Senn, do SIL (Schröder 2002). Os Paumari usam entre si uma mistura de português com vocabulários paumari. Há três dialetos de acordo com as três localidades (Bonilla 2005.41). A taxa de alfabetismo em Paumari é de 70% (Cahill 2004).

História: No século 19, eles eram chamados de os ‘Purupuru’, que na língua geral significa ‘pintados’, por causa de uma doença de pele que causa manchas nas extremidades. São descendentes sobreviventes de uma seção dos Purupuru, agora extintos, que moravam no território entre a foz do Rio Purus e a foz do Ituxi. Os últimos Purupuru foram mencionados na região em cerca de 1850. Os Paumari foram mencionados pela primeira vez em 1845 (Schröder 2002). Eles moravam em casas flutuantes – jangadas – no meio dos lagos ou nas margens. Gostavam de cantar, preferiam negociar a brigar e eram considerados pacíficos. Eram bons canoeiros, viviam nas praias, expostos aos ataques dos outros índios e sofreram com a exploração dos regionais. Nas suas viagens às praias, construíam abrigos semicirculares simples. Foram atacados pelos Muras e fugiram ao invés de enfrentar o inimigo. Os Paumari se mudaram para a terra firme na floresta e viveram de forma seminômade, indo a diversos lugares conforme as estações do ano. Mas, sempre se mantiveram nas proximidades dos lagos e igarapés (Bonilla 2005.44).

São considerados bons pescadores, conseguem pegar tartarugas e peixes com arco e flecha direto das suas canoas, mas são péssimos caçadores. O comércio de tartarugas e seus ovos estava ameaçando a sobrevivência da espécie em meados do século 19. Os Paumari mergulhavam nove metros para pegá-las, ou atraiam-nas com uma isca de fruta e, na superfície, pegavam-nas com lanças. Um viajante viu os Paumari trazerem duzentas ou trezentas tartarugas por dia. Os ovos forneciam o óleo para as lâmpadas e para a cozinha. As carapaças serviam como baldes ou, cortadas, para a fabricação de pentes. Da pele eram feitas pequenas bolsas de couro e a carne era boa para comer. Nesse comércio, os índios sofreram muito com exploração (Hemming 1987.242).

Na década 20 do século 20, Kenneth Grubb (da Missão Coração da Amazônia-M. Amem) comentou sobre essa exploração, dizendo que para os civilizados, o mundo era divido entre os “Cristãos” caraterizados por uma impiedosidade ilimitada e os índios, tratados como “bichos do mato” (Hemming 1987.292). Os regionais diziam que a língua paumari era a língua dos animais, por isso, os Paumari ficaram envergonhados de falar abertamente. As bebidas alcoólicas também não faziam parte da sua cultura, mas, os patrões começaram a lhes oferecer e, um tempo depois, a maioria dos homens passou a ter problemas com o alcoolismo (Cahill.2004).

Poucos anos depois das expedições de descobrimento, o Rio Purus foi invadido pelos seringueiros por causa da abundância de árvores hevea. Os Paumari foram explorados pelos comerciantes que dominavam o Rio Purus e, em 1862, 600 Paumari e Juberi (outro grupo sobrevivente dos Purupuru) foram obrigados a fazer uma grande roça para um comerciante. Na época da borracha, nordestinos invadiram a região. Em 1881, um cearense chamado Labre fundou a cidade de Lábrea e que explorou os índios pela extração do látex, peixe e quelônios. Parece que os Paumari se integraram no sistema de clientes e patrões sem muita resistência (Schröder 2002). Em 1889, 120 mil “civilizados” moravam no Purus e as cidades cresceram; contabilizaram 22 mil em Lábrea,15 mil em Canutama e 13.500 em Entemari (Hemming 1987.566 nota 292, citando Labre).

Os Paumari interpretam suas relações com outros em termos comerciais e de exploração e querem se colocar como “empregados” em qualquer relacionamento. Seu interesse no comércio foi descrito pelos primeiros viajantes no Rio Purus. Eles trabalharam conforme a estação com os seringalistas ou com os madeireiros. Tornaram-se fregueses (pamoari) de diversos patrões e avançaram no cumprimento da produção e no pagamento das suas dívidas. Foram explorados pelos regatões nos rios e acumulam grandes dívidas (Schröder 2002). Assim, ganharam produtos industriais em troca de peixe salgado, quelônios, madeira e, às vezes, andiroba, castanha, copaíba, seringa e sorva (Bonilla 2005.44).

Os jovens saíam da aldeia voluntariamente para trabalhar como seringalistas, madeireiros ou nos barcos dos regatões, aprendiam ‘o jeito do branco’ de negociar, de falar o português e estabeleciam um relacionamento durador com um empregador até que ele voltasse para a aldeia e se casava. Quando o relacionamento passou de freguês para “empregado”, o vínculo foi considerado pelo Paumarí como um padrinho e seu “filho”. Sofriam ameaças, “castigos” e violência na época. No fim da década 60, o sistema terminou com a chegada da Funai, a legalização das Terras e a chegada do SIL, que começou a providenciar os bens (Bonilla 2005.45).

Em 1964, quando Shirley Chapman e Mary Ann Odmark do SIL começaram a viver entre os Paumari, a população era apenas de 96 pessoas. Muitos tinham morrido de sarampo e tuberculose, infectados pelos regionais (Cahill 2004). O tempo que os missionários do SIL ficaram lá foi considerado de boas condições de vida e de saúde e os Paumarí se sentiram abandonados depois da sua saída (Bonilla 2005.42, 56). A doença de pele, ‘Pinta’, que os Paumari sofreram foi causada pela espiroqueta Treponema carateum. A doença foi erradicada pelas missionárias do SIL com administrações de penicilina. As missionárias também trataram e quase eliminaram a tuberculose entre eles e treinaram paramédicos paumari. Em 1996, a população cresceu para 600 pessoas e eles não tinham mais vergonha de se chamar Paumari ou de falar a sua língua. A Funai vacinou o povo contra o sarampo (Cahill 2004).

Estilo da Vida: Os Paumari são pescadores, coletores dos frutos da floresta e plantam pequenas roças de mandioca, cará, inhame e bananas. Quando as águas estão baixas durante o verão amazônico, os Paumari usam as praias para aumentar o plantio. Eles capturam as tartarugas e os ovos; vendem uma boa parte da colheita para os regatões ou para os comerciantes em Lábrea (37 mil). Os grupos vivem com grande mobilidade conforme as estações e o nível das águas, a pesca é o método de sustento. A mandioca com 28 variedades, a macaxeira, o cará, a batata-doce, o ariá, o milho e o feijão são cultivados na várzea e na terra firme. Eles também cultivam árvores frutíferas e coletam frutas silvestres (Schröder 2002). Hoje em dia, os Paumari cultivam diversas frutas, legumes e plantas medicinais e coletam frutas silvestres (Schröder 2002).

Artesanato: Os Paumari são dependentes dos produtos industriais e trocam o que precisam por peixe, quelônios, castanha-do-pará, copaíba, látex e sorva. Geralmente, são explorados nas trocas e contraem grandes dívidas.

Sociedade: Antigamente, os Paumari formavam clãs chamados os Povos da Lontra, do Jacaré, do Urubu e da Queixada, mas não há traços mais dessa organização. Hoje, os grupos locais dos Paumari não são clãs (madilha) nomeados por animais, são apenas conhecidos pelo nome do lugar e são idealmente endógamos. A aldeia consiste em 8 a 15 casas de uma família extensa. O fogo e a cozinha ficam na margem do lago perto das casas. Eles conservam tartarugas vivas em currais na água. Atualmente, a maioria mora em casas tipo regional na terra firme e alguns em casas isoladas.

O casamento acontece, de preferência, entre primos cruzados. O genro trabalha para o sogro antes do casamento. O casal mora durante um mês com os pais da noiva, depois um mês com os pais do noivo e fazem mudanças constantes entre as duas famílias até nascer o primeiro ou segundo filho (Schröder 2002). O relacionamento de patrão-empregado predomina. Filhos adotivos ou de criação são considerado “empregados’” dos pais (Bonilla 2005.48). A adoção de netos pelos avós é marcante na sociedade paumari. As moças são fechadas em uma casinha de reclusão depois da primeira menstruação de 7 a 12 meses. A reclusão termina com uma festa de toda a aldeia e o noivo, já escolhido pelos pais, começa a morar com a moça. Mas, hoje em dia, a escolha é feita pelos prórpios jovens, depois de um namoro (Bonilla 2010).  Tradicionalmente, as aldeias não têm chefes ou caciques.

Religião: Os Paumari creem que os espíritos capturam a alma-corpo (adonai) da pessoa e fazem-na adoecer. Os pajés procuram a alma-corpo (abonai) tomando alucinógenos e é auxiliado por cantoras. O pajé tem que negociar com o espírito que transformou a alma-corpo em seu “empregado”. Chupam o membro do corpo doente, vomitam a doença na mata e voltam com uma pequena criatura, alegando que seja a que provocou a doença (Schröder 2002).

A morte é uma captura permanente da pessoa pelos espíritos e o abonai vai para o Lago da Renovação, situado rio acima no Purus e perto do rio Celestes. Após um banho mágico, os mortos são transformados com um novo corpo e podem escolher entre repousar em uma esteira e gozar a vida eterna no Lago e a cadeira de balanço (símbolo do patrão), dessa forma se tornam empregados do espírito Patrão Chuva e passam a buscar água dos reservatórios no leste para derramar nas terras paumari. O Patrão Chuva é considerado bom e generoso. Os empregados do Patrão Chuva se comunicam com os pajés através do trovão. Esse Patrão fornece diretamente ou indiretamente todos os bens para a vida terrestre. Porém, os evangélicos vão para a Casa de Deus (Bonilla 2005.47-48). Um alucinógeno, feito das folhas da vinha Bignomiaceae (Tanaeciuma nocturnum), é ainda inalado em duas formas pelos homens e é tomado na forma de um chá pelas mulheres. Essas práticas diminuíram em algumas aldeias devido à influência evangélica (Schröder 2002).

Cosmovisão: A festa ihinika é para os espíritos dos alimentos e essas entidades são chamadas pelos pajés. Os espíritos também se organizam em relações de patrão e empregados, os espíritos empregados chegam às festas primeiro para anunciar a chegada do seu patrão espírito. Diversos animais representam os patrões e os empregados espíritos, como, por exemplo, o patrão peixe-boi que é assistido pelo boto tucuxi como seu timoneiro, ou o carrapato que é empregado da anta espírita (Bonilla 2005.47).

Os Paumari acreditam que os animais têm uma vida social semelhante à deles e que possuem qualidades semelhantes à humanidade social. Eles podem ser vistos na mata com aparência humana, que é chamada pamoarihi, semelhante aos pamoari (Bonilla 2005.50). Quando o caçador ou pescador mata um animal ou peixe, ele leva para casa apenas uma ‘esteira’ (jorai) que o animal lhe entrega; os paumari não acreditam que comem a alma-corpo (abonoi). A morte da caça é considerada um tipo de troca pelas armas usadas. Os espíritos dos animais caçados dão artigos culturais ou mercadorias ao povo.

Comentário: O conceito de um relacionamento de dependência, dívida e provisão de bens necessários é vital para os Paumari. Para comunicar o propósito de Deus devem usar o conceito do homem como a imagem de Deus para com a criação, governando o meio ambiente e sempre em relacionamento de dependência da graça e de serviço em obediência ao Criador “Patrão”. ‘Dominar’ deve ser traduzido por ‘governar’, conforme as instruções do Criador (Gn 3.1-6). Um animal, a serpente demonstrou rebelião desde o princípio, indicando a necessidade do papel da humanidade. A mulher precisou ser “amansada” com a firmeza da obediência. Esse Patrão é sempre generoso e compassivo e provou no Filho sua tarefa de obediência à cruz. Assim, todas as dívidas pecaminosas estão canceladas, o relacionamento é reconciliado e o homem é transformado para cumprir o seu papel de imagem pela graça. O conceito bíblico de aliança ensina sobre dependência e responsabilidade. As promessas e as alianças são cumpridas em Cristo e a união com Cristo pela fé estabelece um relacionamento de aceitação, segurança e serviço no reino de Deus.

Shirley Chapman e Mary Ann Odmark, da Sociedade Internacional de Linguística, chegaram a Marahã em 1964 e trabalharam durante 30 anos nessa área (Bonilla 2005). Meinke Salzer foi em 1978. O ministério da Missão ajudou a restaurar a autoestima dos Paumari através de assistência médica, cursos de alfabetização e da tradução do Novo Testamento. As missionárias trataram a doença ‘pinta’, a tuberculose e treinaram alguns Paumari para fazer tratamentos básicos. Quando os Paumari viram sua língua escrita pelas obreiras, reconheceram que ela tem tanto valor quanto o português e quiseram aprender a ler. Também quiseram aprender aritmética para que os comerciantes não os trapaceassem mais. Agora, as matérias de leitura são produzidas pelos próprios Paumari. A autoestima deles aumentou muito quando começaram a ler as Escrituras de um Deus que os ama como gente, não os trata como animais e criou sua língua. A embriaguez diminuiu e foi eliminada entre os Evangélicos (Cahill 2004). Casais assistiram a cursos bíblicos em Porto Velho.

 

 

 

Bibliografia:

BONILLA, Oiara, 2005, O Bom Patrão e o Inimigo Voraz: Predação e Comércio na Cosmologia Paumari, Mana 1 (1) pag. 41-66, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), RJ.

BONILLA, Oiara, 2011, “Paumari”, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo, SP, Brasil. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/paumari/

CAHILL, Michael, 2004. From endangered to less endangered: case histories from Brazil and Papua New Guinea.SIL Electronic Working Papers 2004-004. S.l.: s.n. n.p. http://www.sil.org/silewp/abstract.asp?ref=2004-004

DAI/AMTB 2010, Relatório 2010 – Etnia Indígenas do Brasil, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos – http://instituto.antropos.com.br/

HEMMING, John, 1987, Amazon Frontier-The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan.

SCHRÖDER, Peter, 2002, “Paumari”, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo, SP, Brasil. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/paumari/

SIL: 2009. Ethnologue: Languages of the World, Lewis, M. Paul (ed.), Sixteenth edition. Dallas, Tex.: SIL International, http://www.ethnologue.com/

 

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