TENHARIM – KAGWAHIVA

PAUMARI – PAMOARI
11/03/2013
WAIÃPI
11/03/2013

TENHARIM – KAGWAHIVA

 

Autodenominação: Kagwahiva (Kagwahibm, Kagwahiv, Kawahip, Kavahiva, Kawaib, Kagwahiph). Para o Tenharim o nome significa ‘nós’ ou ‘a gente’ (Peggion 1999). Os Tenharim, Amundava, Kayabi, Júma e Karipuna se autodenominam Kagwahiva (SIL).

 

Outros nomes: Kagwahiv, Kawaib, Tenharem, Tenharin.

 

População: 699 (DAI/AMTB 2010). 409 em 1999, 699 em 2006 (Peggion 1999). 703 (FUNASA 2010). SIL dá o total 790.

 

Localização: No curso médio do Rio Madeira: 66 Tenharim na Terra Indígena Sepoti (AM) de 251.349 hectares. 535 Tenharim na T. I. Tenharim Marmelos (AM) de 497.521 hectares. 100 Tenharim na T. I. Tenharim do Igarapé Preto (AM) de 87.413 hectares. 393 indígenas na T. I. Tenharim Rio Marmelos (Gleba B) (AM) de 473.961 hectares, totalizando 1100 ou 707 + 393 (Peggion 1999).

 

Língua: Tenharim, da família linguística Tupi-Guarani, subgrupo VI com: Amundava, Apiaká, Júma, Karipúna, Karipuna, Morerebi, Paranawát, Tukumanféd, Uru-Eu-Wau-Wau, Uru-Pa-In e Wiraféd. Kayabi é também semelhante (SIL).

Dialetos: Tenharim (Tenharem, Tenharin), Parintintín, Kagwahiv (Kawaib), Karipuna Jaci Paraná, Mialát, Diahói (Jahui, Giahoi). Também usam o português. Alfabetismo em Tenharim: 10 a 30%; em português: 15 a 25%. Uma gramática foi produzida e a tradução do Novo Testamento foi completa em 1996. A Global Recordings produziu um vídeo de 40 histórias bíblicas. Uma tradução resumida de Gênesis, Jypya, foi disponibilizada pela Imprensa Bíblica Brasileira.

 

História: Os Kagwahiva ou Tenharim foram conhecidos em mesdos do século 18, quando viviam no Rio Juruena, grande afluente na margem esquerda do Rio Tapajós. A região em que estavam foi invadida por garimpeiros que vinham de Cuiabá a procura de ouro e ali também estourou ma guerra entre os Mundurku e os Kagwahiva, os quais se deslocaram para os afluentes do Rio Madeira, a uma distância de 500 quilômetros em linha reta. Nas prolongadas migrações, eles passaram pelas serras e pelos cerrados e essas viagens são descritas nas narrativas dos Tenharim do Igarapé Preto. Eles ficaram espalhados em pequenos grupos entre o Tapajós e o Rio Madeira. O faccionalismo entre eles criou uma vida de alianças e conflitos, reuniam-se apenas para confrontar os brancos (Peggion 1999).

Houve guerra por 70 anos até a “pacificação” em 1922. Em 1852, os Kagwahiva atacaram os neobrasileiros que trabalhavam na extração de copaíba e, em 1858, mataram sete seringueiros no Rio Merari e outros no Rio Madeira. O governo tentou estabelecer missões nos rios Madeira e Machado, porém, os Kagwahiva atacaram a missão no Machado em 1871. O engenheiro inglês Matthews viu como única solução o uso de armas de fogo. Três regatões foram mortos no Madeira em 1895 (Hemming 1995.286).

Durante o século 19, eram conhecidos pelo nome Parintintin. Só depois de 1922, quando Nimuendajú realizou a “pacificação”, foi descoberto que só um grupo eram os Parintintim e os outros eram os Kagwahiva. Mais tarde no século 19, um chefe, Byahu, tentou ser líder dos diversos grupos dos Kagwahiva, mas foi morto pelos Pirahã. Sua morte motivou uma nova divisão entre o povo. Depois da “pacificação”, o SPI estabeleceu Postos em Canavial, no Rio Ipixuna e na foz do Rio Maici Mirim, perto de Calamas. Os Kagwahiva foram convertidos ao Catolicismo pelos salesianos e abandonaram seus ritos, mas mantiveram sua organização social. Uma equipe do SIL estava em Canavial, de 1960 a 1976, analisando a língua e dando assistência médica (Kracke 1996).

 

Estilo de Vida: Os Tenharim do Rio Marmelos vivem nas beiras desse rio, afluente do Rio Madeira. Na década de 50, um comerciante persuadiu os indígenas a se transferirem para a beira da rodovia BR-230. Hoje, a aldeia é dividida pela estrada, nela vendem suas castanhas-do-pará, farinha de mandioca e o óleo de copaíba e compram produtos industriais. Muitos morreram com a mudança, por causa da gripe e de outras infecções que contraíram no contato com os habitantes regionais (Peggion 1999). As famílias vão para os seus sítios e suas roças durante a estação seca (junho) para derrubar a mata e fazer o plantio. Algumas famílias permanecem perto das roças, mas fora da aldeia a maior parte do tempo.

Os Tenharim do Igarapé Preto viveram dispersos na região com os seringueiros nas décadas de 40 e 50. Nos anos 60, seu território foi invadido por garimpeiros em busca de cassiterita, facilitados pela abertura das rodovias BR-364 e BR-230. Com a redução das jazidas de cassiterita, as companhias de mineração deixaram a região. Hoje, localizam-se numa aldeia à margem esquerda do Igarapé Preto, entre o mato e o cerrado, e vivem da caça e da pesca. Conseguem comercializar castanha-do-pará e farinha de mandioca (Peggion 1999).

Os Tenharim do Rio Sepoti também fazem comércio com os regatões no Rio Marmelos.

 

Artesanato: Alguns Tenharim fabricam arco e flechas, colares, pulseiras e anéis para vender em Porto Velho. A farinha de mandioca é o produto principal para ser trocado pelos produtos industriais encomendados dos comerciantes da cidade, porém, as diferenças nos preços resultam em exploração dos indígenas. O óleo de copaíba e a castanha-do-pará são transportados para a cidade no caminhão do povo ou da prefeitura.

 

Sociedade: Os Tenharim são divididos em duas metades, associadas a duas aves e são exogâmicas. A da Mutum Nanguera (o significado da última palavra é desconhecido) e a da Kwandu (gavião-real) ou Tarave (maracanã). Há um terceiro grupo Gwyrai’gwara (associado ao japú), que se casam com as duas metades. A pessoa pertence à metade do seu pai.

O casamento é decidido logo depois do nascimento da criança e ela recebe o nome pelo irmão da mãe, de tal modo é determinado o seu casamento com a criança do irmão. O pai dá um nome associado à metade dele, que será a metade da criança. A iniciação da moça é organizada pelo irmão do pai da menina e acontece no tempo da primeira menstruação. Ela é separada na casa, observa certos tabus de comida e depois recebe um banho cerimonial no rio pelo pai (Kracke 1996).

No dia do casamento, dois irmãos são os “padrinhos da noiva” e têm o direito de nomear e determinar o casamento dos filhos da noiva. O casal vive com os pais da esposa e o marido trabalha durante cinco anos para o sogro. Depois desse tempo, eles são livres para mudar de casa, mas a maioria continua onde está (Kracke 1996). Outros dizem que a residência é patrilocal (Peggion 1999).

Os Tenharim do Rio Marmelos têm uma aliança com os do Igarapé Preto desde antes do contato com a sociedade nacional. Os Tenharim do Rio Sepoti são descendentes de duas mulheres que, nos anos 40 do século 20, casaram-se com regionais. Apesar da sociedade Tenharim ser patrilinear, a comunidade do Sepoti ainda se considera Tenharim. Todos os três grupos são bilíngues (Peggion 1999).

 

Religião: Todos os grupos Kagwahiva narram sobre suas proezas na forma de cantos. Os cantos terminam com uma frase que distingue o grupo: os do Igarapé Preto falam da serrania onde o grupo vive, os dos outros grupos no Rio Marmelos, referem-se ao rio.

As curas são feitas pelas ervas ou pelos pajés em uma cerimônia chamada tokaia. O ipaji (pajé) entra em transe, sem alucinógenos, atrás de um pari (tokaia) no pátio da aldeia e viaja pelas camadas do universo, pedindo a ajuda de espíritos para encontrar com Pindovaúmi’ga, chefe do Povo do Céu. Um pajé fora da tokaia fala com cada espírito e o pajé que está dentro responde cantando na voz do espírito.

Os sonhos são associados aos espíritos e o pajé ou outros podem se encontrar com os eles. Antigamente, os futuros pajés eram preditos por sonhos antes de nascer e o novato passava por uma aprendizagem com um pajé até receber o seu espírito auxiliar. Mas, o processo falhou há anos, quando o último pajé morreu sem passar o seu conhecimento ao rapaz do sonho (Kracke 1996).

Os Tenharim observam diversos tabus de comida e de sexo. Há tabus de certas comidas para os pais desde o nascimento do primeiro filho até a velhice. Há outros tabus durante a gravidez e nos meses depois do parto. Comer a carne da cutia faz a pessoa ficar preguiçosa, por isso, não deve ser comida pelos guerreiros. Mexer com a mandioca quando a pessoa está doente é perigoso. O sexo é proibido durante a pesca com timbó, porque o veneno vai perder o seu efeito com o peixe. O sexo entre primos paralelos pode causar a morte dos pais ou dos filhos. Há tabus de comida para o caçador ser capaz de matar certas espécies (Kracke 1996).

Antigamente, o objetivo na guerra era trazer a cabeça do inimigo de volta para a aldeia e exibi-la em uma festa chamada akagwera toryva (festa do troféu da cabeça), isso conferia o status de honra ao guerreiro e ele recebia um novo nome.

 

Cosmologia: O poderoso chefe da antiguidade, Pindovaúmi, chateado pelas brigas entre seus filhos, levou a sua casa e os melhores recursos naturais para o céu.

Mbahira (Mira, nas outras mitologia Tupi), herói mítico e enganador, mora nas serras e muitos outros aspectos da natureza são associado a ele. Ele possui uma série de animais de estimação e foi o criador ou doador de muitos artigos da cultura Tenharim. Gwaivi é uma velha ancestral que morreu queimada pelos seus filhos e se transformou em muitas colheitas cultivadas pelos Tenharim (Kracke 1996).

 

Comentário: A missionária norte americana do SIL LaVera Betts, permaneceu por 45 anos no Brasil, a maior parte desse tempo ela morou e trabalhou entre os Tenharim com uma colega canadense Helen Pease, e morreu em São Paulo com 79 anos.

 

 

 

 

Bibliografia:

DAI/AMTB 2010, Relatório 2010 – Etnia Indígenas do Brasil, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos – http://instituto.antropos.com.br/

HEMMING, John, 1995, Amazon Frontier; The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan.

HEMMING, John, 2003, Die if You Must: Brazilian Indians in the Twentieth Century, London: Panmacmillan.

KRACKE, Waud. 1996, “Kagwahiv”.  Encyclopedia of World Cultures. Acessed abril 22, 2012 da Encyclopedia.com:  http://www.encyclopedia.com/doc/1G2-3458001203.html

PEGGION, Edmundo Antonio, 1999, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo, http://pib.socioambiental.org/pt/povo/tenharim/.

SIL 2009, Lewis, M. Paul (ed.),. Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth edition. Dallas, Tex.: SIL International. Online version: www.ethnologue.com.

 

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