TERENA

WAIÃPI
11/03/2013
TINGUI BOTÓ – KARIRI XOCÓ
11/03/2013

TERENA

 

Autodenominação: Terena.

Outros Nomes: Tereno, Eteiena, Txane.

População: 19.961 (DAI/AMTB); 24.776 (FUNASA 2009).

Localização: Terra Indígena Água Limpa (MS): 69; T. I. Limão Verde (Aquidauana MS): 1.335; T. I. Taunay/Ipegue (Aquidauana MS): 4.090; T. I. Aldeinha (Anastácio MS): 356; T. I. Araribá (Avai SP): 527; T. I. Buritizinho (Sidrolândia MS): 668; R. I. Dourados (Dourado MS): 11.800; T. I. Icatu (Braúna SP): 155; T. I. Kadiwéu (Corumbá e Porto Murtinho (MS): 1.629; T. I. Lalima (Miranda MS): 1.374; T. I. Nioaque (MS): 1.429; T. I. Pilade Rebuá (Miranda MS): 2.104; T. I. Umutina (Barra do Bugres MT): 367; T. I. Nossa Senhora de Fátima (Miranda MS): população não indicada; T. I. Terena Gleba Iriri (Matupá MT): 680; T. I. Cachoeirinha (Aquidauana e Miranda MS): 4.920; T. I. Buriti (Dois Irmãos do Buriti e Sidrolândia MS): 2.543. Os Terena possuem 12 pequenas reservas de terra que somam um total de 19.017 hectares, onde residem 13.643 pessoas aldeadas. Conforme um censo realizado pela prefeitura de Campo Grande, havia na periferia de Campo Grande 820 famílias de índios não aldeados em 1999.

Língua: Terena. Uma das 59 línguas Aruak (Arawak): Maipuran sulista – do grupo boliviano – paraná. Falado por 15 mil, 20% alfabetizados, 80% alfabetizados em português. Há dicionário e gramática na língua. O Novo Testamento foi publicado em 1994 (SIL). A última pessoa que falava a língua Guaná morreu em 2006, mas alguns jovens demonstram interesse em revivê-la. O uso da língua Terena varia entre as Terras Indígenas e a maioria tem orgulho em dominar o contato com a sociedade nacional, que favorece o uso do português.

História: O Chaco Boreal forma a maior parte do território do Paraguai e se estende até o Pantanal no Mato Grosso do Sul, formando a região do Gran Chaco de mais de 600 mil quilômetros quadrados. Mais de 20 povos indígenas viviam na área. Entre eles, os Guaná, um povo agricultor e mais pacífico do que seus vizinhos, os Guaikurú. Suas aldeias eram grandes, compostas por 30 a 40 casas, cada casa com 20 a 30 pessoas, mais as famílias de irmãos e a população chegou a cerca de mil pessoas. A aldeia estava situada no meio de um território extenso de roças. A sociedade era estratificada em classes: ‘nobres’, ‘guerreiros’ e ‘alheios’ (cativos e escravos) (Ladeira e Azanha 2004). Os Guaná gostavam de música. Sua população cresceu mais do que a dos outros.

Os Guaikurú eram nômades, ganharam cavalos dos espanhóis e guerrearam contra todos. Eles desciam às aldeias dos Guaná e trataram-nos como escravos, pois não gostavam de trabalho manual. Depois muitos ataques contra os portugueses e espanhóis, os Guaikurú, acompanhados de escravos Guaná, iniciaram a paz em 1791 com os portugueses, mas temeram a vingança dos espanhóis. Por isso, 400 Guaikurú e 600 Guaná viajaram para o norte e pediram ao governador do Mato Grosso permissão para ficar nas terras entre Cuiabá e Albuquerque (Hemming 1995.120-123). Uma nova fortaleza portuguesa no Rio Miranda os protegeu de um ataque dos espanhóis. Um grupo de Guaná fez parte de uma expedição com os Bororo em 1829 (Hemming 1995.199).

Quando chegaram ao Mato Grosso ainda eram guerreiros e atacavam outros povos para ganharem escravos. No meio do século 19, os Guaimuré no Mato Grosso se dividiram. Alguns deles continuaram nômades, levaram todos os seus pertences nos cavalos e atacaram os indígenas do outro lado do Rio Paraguai. Os outros formaram os Kadiwéu. Os Guaná formaram os Kinikinao e os Terena (Hemming 1995.420). Era um povo trabalhador, com boas relações com os colonos e que cultivavam milho, mandioca, cana, algodão, aipo e tabaco. As mulheres fabricavam cobertores e redes de algodão. Os homens faziam cintos, selas e também pescavam. Estabeleceram um comércio vendendo esses produtos nas cidades, inclusive em Cuiabá. Todos aprenderam a falar o português e professaram o catolicismo sob a influência da missão dos Capuchinhos. A aldeia Terena tinha 110 casas com duas mil pessoas e mais mil em outros assentamentos (Hemming 1995.421).

Os indígenas sofreram durante a Guerra do Paraguai, pois os paraguaianos invadiram o Mato Grosso em 1864 e espalharam os índios. Depois da guerra, em 1870, quando a colonização de brasileiros aumentou nos vales dos rios Miranda e Aquidauana, os Terena perderam suas terras, foram escravizados por causa de dívidas e passaram a trabalhar nas novas fazendas estabelecidas nos vales. A polícia da nova República apoiou os patrões nesse sistema. Os Terena chamam a época de ‘o tempo de servidão’. Em 1903, chegou o então Tenente Cândido Rondon; ele, indignado pela situação dos Terena, reorganizou as aldeias de Bananal, Ipegue e suas terras contra as invasões dos fazendeiros. Ele garantiu que os índios voltassem às suas aldeias e vivessem de acordo com as suas tradições. Essa proteção por Rondon contribuiu para a sobrevivência do povo Terena (Hemming 1995.426).

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, com um falso otimismo, encararam a Amazônia como uma fonte alternativa de recursos para substituir as outras, negadas pelas hostilidades. Em 1941, um inventário dado ao governo norte-americano exagerou nos recursos. Porém, um relatório feito pelos americanos falou da decadência da região e respondeu que os brancos precisam de ser civilizados primeiro antes dos índios, dos vícios de embriaguez e da promiscuidade (Hemming 2003.261). Mas, em 1953, Nelson Rockefeller comprou 50% de uma fazenda no território dos Kadiwéu e Terena no sul do Mato Grosso e não na Amazônia. Coincidentemente, Dale Kietzman do SIL começou o estudo da língua Terena em 1956, a convite de Darcy Ribeiro, e fundou um departamento linguístico da Universidade de Brasília. Os dois teriam muita influência sobre o futuro da Amazônia e dos índios (Hemming 2003.261).

Na década 60, os Kadiwéu receberam o auxilio de missionários protestantes em educação e saúde, mas os Terena prosperam e ficaram mais aculturados. A aldeia Bananal foi alcançada primeiro pelos missionários evangélicos da Igreja da Escócia Livre em 1913, eles protestaram contra as invasões dos fazendeiros, apoiados pelo SPI em 1933 (Veja abaixo). Ribeiro e Kietzman observaram que a mensagem da minoria protestante atraiu os índios porque o Catolicismo era identificado com todas as maldades do contato com a maioria dos brasileiros (Hemming 2003.446). As terras reservadas para os Terena eram pequenas, mas suficientes para cada família cultivar sua roça e criar 10 ou 15 cabeças de gado. O território dos Kadiwéu foi reduzido a uma fração da terra maior por causa da exploração dos fazendeiros e de dez mil posseiros apoiados pelos funcionários da Funai. Só nos anos 80 a Funai começou a corrigir a situação, provocada por uma incitativa armada da parte dos índios (Hemming 2003.447).

Estilo da Vida: O terreno foi dividido em lotes de 45 por 45 metros para um homem construir a sua casa e cultivar um jardim. Outras partes podem ser cultivadas fora da aldeia. Os missionários ensinaram aos indígenas a usar roupa dos brancos, a usar ferramentas modernas e a falar e ler o português. O SPI lhes ensinou sobre a construção de casas regionais, como cultivar arroz etc. Eles também aprenderam outros ofícios como os de pedreiro, ferreiro e costureira. Muitos Terena trabalharam nas plantações de cana (com contratos de 70 a 90 dias), na estrada de ferro ou comercializando seus produtos, como farinha de mandioca, cana e redes de algodão. Outros foram “contratados” para trabalhar nas usinas de açúcar e álcool, um processo, na região, chamado de ‘changa’. Esses trabalhadores são organizados em turma sob um ‘cabeçante’, que resulta em abuso de poder.

Contudo, a horticultura de mandioca, feijão, milho, cana, arroz, banana, laranja, abóbora, melancia, batata-doce e maxixe continua sendo a base da economia. A criação de gado e de cavalos é importante e os Terena trabalham nas fazendas como peões. Os Terena plantam porque está no sangue, mas as roças são pequenas e a renda não dá para sustentar as famílias. Em cada família, uma pessoa recebe aposentaria (ISA). Alguns ainda caçam, pescam e coletam nos cerrados e floresta ciliar. Nos anos 50, indivíduos Terena passaram a viver nas cidades, hoje, aproximadamente dois mil moram em Campo Grande e um número menor em Aquidauana e Dourados (Ladeira e Azanha 2008). Muitos procuram trabalho nas cidades ou produzem cerâmicas para o comércio.

Sociedade: Os Terena chamam suas aldeias de ‘setores’ e são autônomas com um cacique ou um conselho. A eleição dos caciques locais é administrada pelo cacique geral em T. I. Cachoeirinha ao lado do Posto da Funai. Assuntos que influenciam todos os setores são debatidos em uma reunião em Cachoeirinha. Nessa Reserva, 27% vivem da renda de serviço fora da reserva e 55% trabalham fora quando há oportunidade (Ladeira e Azanha 2004). No chaco, as aldeias eram dividas em: os ‘mansos’ e os ‘bravos’, cada um com seu chefe. Nas cerimônias, os ‘bravos’ faziam brincadeiras com os ‘mansos’. Quando eles se mudaram para o Brasil, o SPI escolheu apena um chefe ou capitão para cada aldeia, que contrariou a organização antiga de metades, a parentela perdeu sua importância e passaram a ser usados para os parentes os termos portugueses (Oberg 2009).

A maioria das casas abrigam famílias estendidas, pai e mãe com seus filhos casados e solteiros. O costume de residência é patrilocal. Mas, depois, o novo casal tem filhos e podem construir a sua própria casa perto da casa do pai. Há muitos casos de casais uxorilocais e a sociedade não exige dote ou outros requerimentos do marido. As divisões religiosas têm modificado esse sistema.

Religião: Os koixomunetí (pajés ou curandeiros) atuam na cura das doenças causadas por espíritos ou feitiços, auxiliados por ‘espíritos companheiros’. A sua maior festa (oheokotí) acontece quando a constelação das plêiades aparece no horizonte. Todos os pajés, enfeitados e sacudindo seus maracás, passam a noite cantando para pedir aos seus espíritos companheiros que deem boas colheitas (Ladeira e Azanha 2004). Muitos são evangélicos.

Cosmovisão: O ser-herói Yurikuvakái tirou os antepassados dos Terena de debaixo da terra e os ensinou a usar o fogo e as ferramentas agrícolas. Ainda considerados assimilados, os Terena dão valor à identidade ética.

Comentário: Os missionários Harry e Sra. Whittington com o missionário Hay da Igreja da Escócia Livre, trabalharam entre os índios no Paraguai, viajaram a cavalo e tiveram o primeiro contato com os indígenas em Niosac, Mato Grosso, em 21 de agosto de 1912. Lá, um Capitão dos Terena os convidou para visitar sua aldeia. Viajaram cinco dias para a aldeia principal de Bananal e Ipegue (com uma população 450 pessoas). Os visitantes foram bem recebidos e convidados também para ir às aldeias Caxueirinha e Pasuerinha. Os líderes sugeriram que os obreiros voltassem para estabelecer escolas nas aldeias (Whittington 1965.116ss). Eles voltaram a remo de Miranda (MT) nos rios para o Paraguai.

Respondendo ao convite, o casal Whittington e um casal Howard – novato no campo – voltaram ao Brasil em 1913, porém, os indígenas não permitiram que os missionários entrassem em Bananal sem autorização do SPI, que foi recebida depois um mês de espera, enquanto os obreiros acampavam ao ar livre. Começaram uma escola e cultos com uma boa assistência, mas os Terena se recusaram a construir uma sala de aula, porque suspeitaram que os brancos queriam tomar conta das terras e expulsar os índios. O governo prometeu um professor, que não veio (Whittington 1965.138). Os missionários se mudaram uns 15 quilômetros para fora de Bananal e fecharam a escola, mas faziam visitas para dirigir os cultos. O povo demonstrou interesse e ânimo em aprender a cantar e aconteceram as primeiras conversões.

O SPI enviou um professor à aldeia, que influenciou os índios contra a “heresia” protestante, ao mesmo tempo, ofereceu a nova sala de aula para os cultos e, depois, convidou um padre para aumentar a oposição que dividiu a comunidade (Whittington 1965.145). Ele pediu a um pajé que enviasse um espírito para matar os missionários e depois prenunciou que Deus ia matá-los. Dias depois, os Whittington foram atingidos por um raio, mas não sofreram danos permanentes. Os índios, perturbados com o acontecimento, ficaram ainda mais convencidos do Evangelho. Apesar da oposição, o primeiro culto de batismo foi realizado em 31 de dezembro de 1915 com quatro batizandos e “a primeira igreja indígena no Brasil” foi fundada dias depois entre os Terena (Whittington 1965.148).

Em 1920, o SPI prendeu os missionários foram presos em sua própria casa. Uma visita à sede do SPI no Rio de Janeiro era necessária para continuar o trabalho (Whittington 1965.163ss). Quando essas dificuldades passaram, o trabalho recomeçou com a escola durante o dia e o instituto bíblico para os evangelistas Terenas à noite. Os missionários observaram que os evangélicos brasileiros da época não levavam o Evangelho aos índios, então, resolveram treinar os índios para alcançar seu próprio povo.

Hoje, o fruto deste trabalho pioneiro é a Missão Indígena Uniedas (União das Igrejas Evangélicas da América do Sul), que serve com missionários e com a Escola Evangélica Lourenço Buchman, fundada em 1954. Também há o Instituto Bíblico Cades Bárnea, fundado em 1988 com alunos Terena e Xavante, que oferece um curso de missões com duração de três anos. A União é composta por 33 igrejas entre os Terena, Kadwéu, Xavante e três em Rondônia. A Igreja de Bananal tem 136 membros e a de Ipegue 18.

Muriel Ekdahl, Nacy Butler e Muriel Perkins do SIL traduziram o Novo Testamento durante 35 anos. Para aproveitar a oralidade do povo, filmes e outras mídias são usados para promover o uso da tradução. Um rádio terena transmite programas usando a tradução. Dois obreiros terena, Ladislau Faris e Cenisio Custodio, estão traduzindo livros do Antigo Testamento (SIL).

Alunos terena também foram treinados no Instituto Filipe Landes e no Centro de Treinamento Ami. A Global Recordings produziu o áudio de histórias bíblicas e o filme Jesus é em Terena.

Um mini Conplei (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas) foi realizado entre os Terena em 2010; o Pr Henrique Terena é o presidente desse Conselho.

 

 

 

Bibliografia:

DAI/AMTB 2010, Relatório 2010 – Etnia Indígenas do Brasil, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos – http://instituto.antropos.com.br/

HEMMING, John, 1995, Amazon Frontier-The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan.

HEMMING, John, 2003, Die If You Must – Brazilian Indians in the Twentieth Century, London; Pan Macmillan.

LADEIRA, Maria Elisa e AZANA, Gilberto, 2004, “Terena”, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/terena/

MNTB 2005, Missão Novas Tribos do Brasil, Anápolis, GO, http://www.mntb.org.br

OBERG, Kalervo, 2009, “Terna Social Organization and Law”, American Anthropologist, Vol. 50, Issue 2, On line 28 Oct 2009.

SIL 2009, Lewis, M. Paul (ed), Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth Edition. Dallas, Tex: SIL International. Versão on-line: http://www.ethnologue.com/

WHITTINGTON, Harry, 1965: On the Indian Trail in Paraguay and Brazil, Edinburgh: Knox Press.

 

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