TIRIYÓ – TARËNO

TINGUI BOTÓ – KARIRI XOCÓ
11/03/2013
WAYANA
11/03/2013

TIRIYÓ – TARËNO

 

Autodenominação: Wü Tarëno, que significa ‘eu sou daqui’, ou tarëno, ‘o povo d’aqui’. Aceitam Tiriyó para se identificar em português com pessoas de fora, não-Tiriyó.

Outros Nomes: Trio, Pianokoto, Marachó, Tiriyó, Tirió, Tereno, Trió, Tarona, Yawi, Piano, Wu Tareno, Txukuyana, Ewarhvana.

População: Brasil: 1.156, Suriname: 1.400 (DAI/AMTB 2010); 1.464 (Brasil PIB); 1400 no Suriname, 900 no Brasil (SIL); 1.464 (FUNASA 2010); 1.845 (Ellen-Rose Kambel 2006). A população total é estimada em 1.908 por De Goeje. Eram calculados em 800 pessoas, mas, nas décadas de 60 e 70, diminuíram para 600, 700 índios (Frikel 1970) e cresceram novamente para 1.350, 1.550 (Fajardo 1992), 1.760 (Fajardo 1997) e para mais de dois mil atualmente (Grupioni 2003).

Localização: Vivem com os Katxuyana e com os Txikuyana na faixa oeste do Parque Indígena do Tumucumaque (3.071.070 hectares), nos estados do Amapá e do Pará. O Parque tem com 27 mil quilômetros quadrados e se sobrepõe ao território dos municípios de Oriximiná, Almeirim, Alenquer e Óbidos. É mais antigo que seu vizinho, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque. Algumas famílias vivem com os Aparai e os Wayana nos Médio e Alto Rio Paru de Leste. O maior parte mora no Suriname nos rios Tapanahoni, Sipariweni e Paroemeu.

Língua: Trió (SIL), da família linguística Karib do Norte, Guiana Leste-Oeste, Wayana-Trio. A atitude é positiva para com a língua, mas não é considerada apropriada para o ensino escolar. A taxa de alfabetismo é de 10 a 30%, na segunda língua calcula-se 25 a 50%. A tradução do Novo Testamento foi concluída em 1979. Há também um livro de frases Tëhtëke panpira. O Pianokotó era um dialeto provavelmente extinto (SIL). Os Tiriyó vivem em um ambiente multilinguístico com grupos Tupi e Aruak representados com os outros Karib, além dos africanos fugidos das plantações e falantes de inglês, holandês e português (Grupioni 2003).

História: Os grupos dos Tiriyó foram conhecidos no século 17, mas ficavam mais ou menos isolados dos brancos até o contanto com os missionários nos anos 60 do século 20. Mantinham redes de troca, alianças e guerras entre si e com outros grupos indígenas, como os Aramixó, Aramayana, Akuriyó, Pi(y)anokotó, Saküta, Ragu, Yawi, Prouyana, Okomoyana, Wayarikuré, Pianoi, Aramagóto, Kirikirigoto, Arimihoto e Maraxó. Todos são considerados Tarëno, mas, com a chegada dos missionários protestantes no Suriname e dos franciscanos no lado brasileiro, todos foram conhecidos como os Tiriyó no Brasil e os Trio no Suriname.

A questão da fronteira exata entre a Guiana Britânica e o Brasil surgiu quando o Frade José dos Santos Inocentes, em 1840, estabeleceu sua Missão entre os Makuxi, em um território considerado britânico. O protestante Youd teve que se retirar do território brasileiro com os protestos dos Wapixana. Para resolver as negociações sobre a fronteira foi decidido que o melhor era fazer um mapeamento da região, como os irmãos Schomburgk. Eles fizeram uma viagem em 1843, atravessaram a divisa das águas no lado brasileiro e contataram os Wai Wai, os Pianokotó e outros Tiriyó. A princípio, os Pianokotó fugiram, mas, depois, receberam-lhes em sua aldeia. Eles descobriram que esses índios tinham uma fisionomia impressionante: todos se pintavam de vermelho e se decoravam bastante com colares de contas e “cintos bem tecidos de algodão pelas mulheres, iguais aos tecidos europeus” (Hemming 1987.328).

No século 18, escravos africanos de três etnias fugiram das plantações de cana na Guiana Holandesa para as florestas da Guiana Francesa, eles foram chamados de Negros Marrons ou Meikoro pelos Wayana. Os africanos se estabeleceram nas margens dos rios principais e começaram a comercializar os bens europeus com os Wayana e os Tiriyó nos Meio e Alto Rio Paru de Leste, com os Aparai no sul no Rio Amazonas e com os Waiãpi a leste. O comércio dos Negros Marrons explorava os indígenas na troca. Mas, no final do século 19, os Wayana e os Aparai começaram a ganhar comercializando com outros povos indígenas no Brasil (Barbosa e Morgado 2003).

Em 1900, Olga Coudreau descreveu os índios da região em um processo de desintegração. As florestas próximas às cachoeiras dos rios estavam despovoadas de indígenas devido à escravidão e às epidemias. Os Negros Marrons tentaram escravizar os índios e as aldeias armaram defesas contra os ataques vindos dos macambos ou quilombos, que cresceram em poder com os fugidos da repressão da revolta da Cabanagem nos anos 30 do século 19. Um velho Pianokotó contou a Coudreau que em cerca de 1875, um Negro estabeleceu um acampamento de macambolas e capturou muitas mulheres tiriyó, forçando-as trabalhar sob chicotadas. Os Tiriyó resgataram as mulheres, mas o Negro as capturou novamente. Por fim, os índios mataram o seu opressor. Outros Negros tentaram fingir amizade e acabaram matando alguns indígenas, depois fugiram rio abaixo no Rio Cuminá para escapar das represálias (Hemming 1987.343).

No princípio do século 20, (1913-16) William Farabee, numa expedição, alcançou os Pianokotó e os Tiriyó e foi bem recebido. Os homens de uma aldeia Parikotó (Pianokotó) os receberam com flechas prontas para atirar, mas, depois, deram hospedagem por 15 dias. Quando a expedição chegou a uma aldeia Tiriyó, na cabeceira do Rio Paru de Oeste, o chefe os recebeu com um discurso e Farabee o respondeu, apesar de nenhum dos dois entenderem as palavras do outro. Serviram muita comida, seguida por danças que demonstraram as atividades da sua vida indígena (Hemming 1987.340).

O General Rondon encontrou alguns Tiriyó em 1928. Rondon, sendo adepto do Positivismo, não gostou da forma como os missionários católicos e protestantes tentaram suprir as necessidades dos índios, ao invés de o SPI fazer o trabalho, mas a verba do órgão governamental foi cortada nos anos 30. A Constituição do Novo Estado, em 1934, continha princípios sobre uma política de territórios indígenas (Hemming 2003.210). Os Tiriyó mantinham o comércio de troca com os Mekoro e com os africanos fugidos ou quilombolas no lado da Guiana Holandesa. O Frei Protásio Frikel, em 1950 e 1952, visitou três desses grupos e permaneceu entre os Aramagóto de 1958 a 1959, nesse tempo a FAB construiu uma pista de avião ao lado e a Missão Tiriyó teve início no Alto Paru de Oeste. Ao mesmo tempo, duas missões se estabeleceram no lado surinamês e muitos Tiriyó foram atraídos para atravessar a fronteira.

Os salesianos pediram ao Coronel Camarão da FAB que expelisse a missão UFM (MEVB – registrada até 1972 como Cruzada de Evangelização Mundial, da original Missão Coração da Amazônia) de Roraima, mas o Coronel Camarão recusou, porque, naquela área, os missionários eram muito efetivos em se dedicar ao bem-estar dos índios. O coronel apoiou o trabalho dos franciscanos alemães entre os Tiriyó no Rio Paru de Oeste e persuadiu Protásio Frikel a se transferir para o meio dos Tiriyó em 1959. Nos anos 70, Protestantes norte-americanos converteram alguns Tiriyó no Suriname (Hemming 2003.265). Mas os índios interpretaram as diferenças entre os dois ramos do Cristianismo de uma maneira interessante. Não entenderam porque os católicos toleravam as festas, danças e bebidas, enquanto os missionários da UFM proibiam essas tradições. Os índios concluíram que os franciscanos não eram mestres completos da religião. Depois de algum tempo, os padres responderam intensificando sua instrução religiosa. Frikel considerou que a concorrência entre os dois ramos do Cristianismo era um infortúnio.

Os Franciscanos mantinham assistência médica excelente e a população cresceu de 200 para 380 pessoas. Uma epidemia de sarampo foi bem tratada e 60 índios pegaram a doença, mas não houve mortes. Também em 1982, nenhum dos pajés praticava mais seus papéis e as festas foram abandonadas. Outro problema surgiu quando a concentração dos índios vivendo na Missão esgotou a fertilidade da terra das roças ao redor do assentamento (Hemming 2003.392). A concentração dos índios era temporária e nos anos 80 voltaram a viver de forma mais descentralizada (Hemming 2003.393). A população sofreu uma queda em meados do século 20, mas, com a assistência médica prestada pelos missionários protestantes no Suriname e os católicos no Brasil, ela continuou a aumentar (Grupioni 2003).  O Governo do Amapá e a Funasa começaram a dar assistência médica e escolar. Hoje, a Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque (Apitu), fundada em 1996, tem convênios para facilitar esse amparo. Uma campanha de vacinação da Coordenação Regional da Funasa no Amapá realizou a cobertura de quase todos os índios no Parque em 2007. Quatro funcionários se tornaram reféns dos Tiriyó, que reivindicavam a liberação da parcela de um convênio entre a Apitu e a Funasa.

O Parque Indígena de Tumucumaque foi criado no norte do Pará, entre os rios Marapi, Paru de Leste e Jari e as fronteiras com o Suriname e a Guiana Francesa. Os índios do Parque vivem em 33 aldeias e estão participando do mapeamento dos locais e plantas utilizadas pelas etnias com a Funai (PIA). Outra estimativa conta dois mil indígenas em 50 aldeias das etnias:  Akurió 10. Apalai (Aparai) 415 (DAI/AMTB 2010) 398 (PIB). 398 (Funasa, 2010), 40 (Eliane Camargo, 2011), 10 (Eliane Camargo, 2011).  Vivem com os Wayana. Kaxuyana 900 (DAI/AMTB 2010) 350 (PIB), 350 (João do Valle Kaxuyana, 2009). Waiãpi Brasil: 905, Guiana Francesa: 412 (DAI/AMTB 2010).905 (Apina/Funai, 2008) 710 (Tinoco, 2002). Tupi-Guarani, relacionado com povos do Baixo Xingu. Wayana, Brasil: 415, Suriname: 400, Guiana Francesa: 800 (DAI/AMTB 2010), Brasil; 304 (PIB). 304 (Funasa, 2010), 800 (Lopes, 2002), 500 (Lopes, 2002). Os índios se beneficiaram com a criação do Parque das Montanhas do Tumucumaque ao oeste (Hemming 2003.394).

Estilo da Vida: O território dos Tiriyó é dividido pela fronteira entre o Brasil e o Suriname e pela divisão das águas. Os rios têm cachoeiras que dificultam a navegação, por isso, durante um tempo, a região ficou isolada e desconhecida. O local é cortado por rios que descem para o Oceano Atlântico no norte e outros que correm para o Amazonas no sul. Os afluentes do Amazonas são: do oeste para o leste, os rios Marapi, Paru de Oeste, Citaré e Paru de Leste; e os que correm para o norte no Suriname, Sipariweni, Tapanahoni e Paroemeu. No Brasil, os Tiriyó se concentram em dois lugares: nos Médio e Alto Paru de Oeste e Marapi com os Katxuyana, na cabeceira do Rio Paru de Leste – Citaré e separados dos Wayana e dos Aparai no meio curso do rio. O Natal é a época de caçar jabuti e jacarés (Grupioni 2003).

Sociedade: Antigamente, cada aldeia (pata) da população dispersa tinha seu tuxaua (tamutupë) ou cacique (pataentu). Os habitantes (pakoro) se consideram descendentes dos tamutupë, assim são seus filhos solteiros e suas filhas casadas com os genros. O chefe era visto como o dono do lugar da aldeia. Um conjunto de parentes bilaterais (imoitü) pode viver em duas ou mais pata (Grupioni 2005).

Com a concentração nas três missões, as posições de chefe e de curandeiro perderam a autoridade. Os protestantes condenaram a prática de xamanismo e os franciscanos mantiveram certo constrangimento em relação à prática. A geração mais jovem tomou a frente nas relações com os missionários e passou a ser ‘Capitão’ e ‘pastor indígena’. No lado brasileiro e católico surgiu o ‘diácono indígena’. Dessa forma, ter uma posição de liderança religiosa também trouxe funções políticas. Os franciscanos mudaram a missão para um lugar neutro, a dois quilômetros de distância, depois da sugestão dos índios, para que ninguém fosse ‘dono do lugar’. Cada parentela tinha um representante e formaram um tipo de conselho de ‘caciques’. No Suriname, o pregador evangélico se tornou também o líder com poder de aplicar a disciplina eclesiástica. Mas, nos anos 80, a Funai começou a atuar na região e a nova geração escutou as críticas acerca dos motivos dos missionários franciscanos e formou outra liderança.

Religião: As festas tinham a forma de um diálogo cerimonial entre as aldeias (patahton), seja entre as parentelas (itupü) com foco no tamutupë (chefe de itupü), seja entre as próprias aldeias (patahton). Elas põem em foco as relações entre os membros da aldeia e sua figura do dono do lugar (pataentu). As festas podem ter resultados positivos ou negativos nas possibilidades de trocas matrimoniais ou materiais e, por iss,o podem abrir gerar novos conflitos. Antes da chegada dos missionários, os Tiriyó dizem que as aldeias viviam brigando entre si por causa de “fuxicos”, os quais provocaram desentendimentos dentro de uma pata e ocasionaram em descordo do grupo com uma série de vinganças e vendetas. Quando o fuxico era entre as aldeias, provocava ataques que podiam resultar na morte total dos membros de um dos povoados. Hoje, as festas são brincadeiras que imitam o passado, quando, por exemplo, as mulheres tentam ‘roubar a caça dos caçadores’. As festas são a oportunidade para consumir grandes quantidades de sakura, uma bebida de mandioca fermentada, preparada com o beiju pelas mulheres do anfitrião. (Grupioni 2005).

Cosmovisão: Os Tiriyó têm uma cosmologia sofisticada. Kuyuri é o primeiro ser que existiu, ou brotou por si mesmo, sem forma ou semelhança de animais ou de homem porque ele não foi feito, simplesmente “brotou” da mistura da origem dos tempos. Antes dele havia escuridão, silêncio e ausência de tempo. Ele era a luz que brilhava onde havia apenas escuridão e a fonte da vida. Ele iniciou o espaço em uma paisagem terrestre clara, circundada por água e escuridão, mas não tinha tempo porque nada acontecia para ter a sucessão de eventos. Kuyuri vivia sozinho, tinha sentidos, voz e visão, mas não tinha ninguém para enxergar ou com quem conversar.

Não querendo ficar só, ele criou as coisas de barro (takuren) do espaço da luz e breu (warunu), que representavam a escuridão de fora. Da mistura desses, formou um fluido vital sanguíneo (munu) que tomou a forma do fio da vida (warumunu). Kuyuri fez sua mulher do barro, como um pote frágil, mas com sangue dentro. Assim, começou o tempo como o movimento da vida e com a multiplicação de criaturas. O espírito de Kuyuri é transmitido para cada criatura em um processo de recriação e, através disso, tornam-se oto, corpos animados. Os humanos são distinguidos das outras criaturas pela capacidade de referir a si mesmos como oto.

Cada criança é ensinada a manter o espírito de Kuyuri. Ele dá presentes, como comida, àqueles que continuam com o seu espírito e, por sua vez, eles dão mais espírito a ele. O princípio é: quem dá um presente ganha mais espírito no dar. Kuyuri se revela aos homens dando ou recusando as condições de vida de acordo com o comportamento de coragem e força física para proteger o espírito dentro, que dá a existência.

Yaraware e Urutura representam os princípios masculino e feminino que são complementares. O espírito feminino é associado à escuridão e o masculino à luz.

Comentário: A missão UFM (atualmente, Crossworld) trabalhou por muitos anos entre este povo. A MEVA trabalha na região. O primeiro Conplei (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Indígenas) de Roraima foi realizado em 2011.

 

 

 

Bibliografia:

DAI/AMTB 2010, Relatório 2010 – Etnia Indígenas do Brasil, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos – http://instituto.antropos.com.br/

GRUPIONI, Denise Fajardo, 2005, “Tiriyó”, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/tiriyo/

HEMMING, John, 1987, Amazon Frontier-The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan.

HEMMING, John, 2003, Die If You Must – Brazilian Indians in the Twentieth Century, London; Pan Macmillan.

SIL 2009, Lewis, M. Paul (ed), Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth Edition. Dallas, Tex: SIL International. Versão on-line: http://www.ethnologue.com/

 

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