WAIMIRI ATROARI

TUYUKA
09/04/2011
WANANO (Kotiria)
09/04/2011

WAIMIRI ATROARI

Nome Próprio: Kinja, quer dizer “gente verdadeira”. Waimiri Atroari era usado desde os primeiros contatos pelo SPI (Serviço de Proteção aos Índios). Na língua geral, Waimiri significa “flecha curta” e os Kinja usam flechas pequenas.

Outros nomes: Atroahy, Atroaí, Atroarí, Atrowari, Atruahí, Ki’nya, Kinã, Uaimiri, Wahmiiri, Jawapweri, Yauaperi.

População: 350 (SIL 1995); 913 (ISA 2001); 450 (Milliken); 930 (ISA 2001); 1.120 (PWA – 2005); 931 (Inst. Antropos 2008).

Localização: Um território no Amazonas e em Roraima, ao sul, demarcado pelos rios Camanau e Curiuaú e toda a área para o norte até os afluentes do Rio Alajau e seu afluente, o Rio Jauaperí. Ao todo 24 aldeias.

Língua: Atruahí. Da família Carib, com algumas diferenças de dialeto entre as aldeias. Dialetos: Atruahi, Waimirí (Uaimirí, Wahmirí), Jawaperi (Yauaperi). Relacionado com as línguas Sapara, Pauxiana, Piriutite e Tiquiriá. Classificação: Carib, Norte, Leste-Oeste, Guiana-Waimiri.

História: Os Waimiri Atroari ou Kinja eram conhecidos como guerreiros que defendiam seu território. Os próprios Kinja dizem que havia dois povos chamados iky e wekmiri, que se uniram sob a ameaça dos brancos, porém é provável que formassem uma só etnia, apesar das diferenças de dialetos (Milliken 1992:11). Durante o século 17, os brancos buscavam escravos na área. Há evidências de expedições de “resgate” e de missionários católicos no Rio Jauaperí. Houve muitos conflitos entre os indígenas. Quando os povos Aruak deixaram a região para mudar-se para o norte, em cerca de 1780, os Waimiri Atroari ficaram no território – kinja itxiri (terra de kinja)- como os únicos habitantes. O governo da Província do Amazonas organizou ataques contra os índios. O contato com os brasileiros que penetravam subindo o Rio Negro começou em cerca de 1850; os indígenas atacaram três assentamentos, o que provocou expedições militares em 1874 que massacraram muitos índios. Em 1885, o antropologista brasileiro João Barbosa Rodrigues, enviado pelo governo, tentou apaziguar a situação com algum sucesso, mas, no século 20 o Governador do Estado, Nery, ordenou a matança de 283 índios. Alípio Bandeira estabeleceu contato pacífico de novo em 1911.

 

Em 1940, o SPI fundou um Posto no Rio Jauaperí que foi mudado para cima das invasões sertanejas, mas foi destruído pelos brancos e abandonado. Depois, o SPI estabeleceu um Posto no Rio Camanaú. Os Waimiri atacaram os postos e recuaram para as cabeceiras dos rios.

A construção da estrada BR 174 entre Manaus e Boa Vista provocou mais violência, os índios mataram uma equipe pacificadora liderada por um padre, porque mostraram uma atitude superior e insensível aos indígenas. Durante a construção da BR 174, a FUNAI tentou forçar os Waimiri a mudar-se da área da construção. Os indígenas sofreram epidemias que mataram aldeias inteiras e criam ser um resultado de feitiçaria. A Terra Indígena Waimiri-Atroari foi criada em 1971. A FUNAI, liderada por Gilberto Pinto Figueiredo conseguiu bons contatos com os indígenas em diversos locais, mas a presença do batalhão de construção da estrada prejudicou as relações e, no meio da violência, Figueiredo foi morto em 1974. Seu substituto quis “ensinar aos índios uma lição” e afirmou que a política da pacificação da FUNAI já tinha fracassado (Milliken 1992: 8). A empresa de mineração, Taboco, recebeu direito de extrair estanho no nordeste do território indígena e o governo revogou os decretos que estabeleceram a Terra Indígena. Os capitães indígenas foram enganados e concordaram. Em 1987 o governo estabeleceu de novo o Território Indígena, apesar disso a FUNAI contratou ilegalmente uma empresa para continuar divulgando o resultado de que o Rio Alalaú era muito poluído (Milliken 1992:9). Em 1986 a represa hidrelétrica de Balbina, no Rio Uatumã, já quase completa, foi autorizada pelo governo; ela inundou grande área da floresta do território do povo. A FUNAI continuou a aculturar os Waimiri Atroari e um terço deles foi removido do Rio Abonari, fluente do Rio Uatumã, para Maré e para trabalhar nas plantações com outros empregados indígenas, que não simpatizavam com a cultura deles. Desde 1989 o Programa Waimiri-Atroari da FUNAI é financiado pelo convênio da Eletronorte, provendo os serviços de saúde, ensino, produção e ecologia. A empresa telefônica OI construiu parte da rede de comunicação de fibra óptica que vem dos Estados Unidos até Brasil, de Boa Vista até Manaus ao longo da BR 174 e atravessando a Terra Indígena (ISA).

Desde 1960, há comércio com os Waiwai de produtos como pulseiras e colares, que os Kinja não fabricam por si mesmos. Eles também têm contato com os Pirititi (Piruichichi) que não querem contato com o mundo fora (www.everyculture.com).

Estilo de vida: Hoje moram em dez aldeias estabelecidas pela FUNAI e Eletronorte; em 19 grupos (24 aldeias SIL) e se casam entre as aldeias, mas cada assentamento identifica-se como Waimiri ou Atroari. A casa, a área em redor e o roçado é chamado mydy taha, “a casa grande”. A maloca é circular, coberta por um telhado cônico de palha, o chão é divido com as áreas familiares na periferia e o centro é reservado para os homens e as cerimônias. Antigamente os homens usavam cintos de raízes e as mulheres aventais de fibra de tucum e sementes de bacaba; hoje usam roupa comum. Os homens confeccionam a cestaria e ensinam aos jovens antes de se casar.

O alimento diário é a mandioca. Os homens cortam as roçadas, tanto homens quanto mulheres plantam e somente as mulheres colhem e preparam a farinha. Toda a família pode sair para pescar ou colher frutas silvestres juntos. Os homens caçam com arco e flecha ou com as poucas espingardas. A anta, a queixada, o porco-do-mato cateto e os macacos-aranha formam a maior proporção da caça (Rumor 2000). Pesquisas da caça eram feitas entre 1993 e 1994 e demonstraram não haver redução da população dos animais. Entre 41 espécies, em um ano, 3.004 unidades eram mortas, sendo 87% antas, javalis (Tayassu pecari e Tayassu tajacu) e macacos-aranha. Antigamente os Kinja sempre mudavam as aldeias conforme a disponibilidade da caça, porém o assentamento sedentário era imposto pela FUNAI e, por isso, hoje em dia, necessitam viajar grandes distâncias para caçar.

A pesca é importante também. O Rio Camanaú é de água negra, entretanto há peixe suficiente nos igapós. Os Kinja não usam veneno na caça e reconhecem os perigos de usar timbó na pesca (Milliken 1992.29). O alimento e a caça são compartilhados com todas as famílias da aldeia.

Eles têm uma tradição de construir canoas grandes, mas não usavam fogo para abrir o tronco e aumentar a estabilidade; hoje são substituídas por voadeiras de alumínio, mas as canoas pequenas ainda são fabricadas e usadas para pescar nos igapós. Atualmente os Kinja queimam os mortos e jogam as cinzas nos rios. Os Waimiri Atroari conservam sua rica cultura material de cestarias com grandes variedades de formas; o artesanato é vendido pelo Projeto Waimiri Atroari em Manaus. Uma empresa vende joias, dos Waimiri, feitas de sementes, entre outros materiais.

Sociedade: Os Waimiri Atroari dividem o mundo entre kinja, “nós gente” e todos os outros ka’aminjá. Os Kinja se dividem entre parentes aska e os ba’ashrá,os Waimiri das outras aldeias. Não há organização fora da aldeia, e novas “casas grandes” conforme a pressão de população e a necessidade da caça, pesca e novos roçados. Entretanto as festas, maryba, são oportunidades para as pessoas das aldeias se reunirem e renovarem suas alianças. As festas consistem em danças e cantos.

As pessoas que moram na mesma aldeia, aska, são consideradas parentes, inclusive aquelas que são apenas corresidentes. Os termos para primos paralelos são irmão e irmã, primos cruzados são cunhados. As distinções são usadas somente para as gerações imediatas.

Casam-se entre primos cruzados e somente na mesma aldeia. O casamento entre primos paralelos é considerado incesto. Os últimos são considerados e chamados irmãos e irmãs. As segundas gerações do ego são chamadas pelos mesmos termos conforme ascendendo ou descendendo. Antigamente o marido morava e trabalhava para seu sogro. A FUNAI está tentando modificar os costumes. Desde 1989 existem escolas em dez assentamentos. No passado, os pais que suportavam bem suas famílias tinham influência com os pajés para liderar; atualmente, a FUNAI escolhe capitães novos que têm pouca autoridade. Os empregados da FUNAI predominam nas aldeias, representam os vícios dos caboclos e os novos Waimiri tentam assimilar.

Cosmovisão: O universo dos Waimiri Atroari consiste de domínios de seres mitológicos e homens que são diferentes, mas interpenetram.
Os Waimiri Atroari têm muitos mitos, etiologias sobre os primeiros homens, a origem da agricultura, da mulher, dos brancos e um grande dilúvio. Consideravam que o céu fosse constituído de pedra. Os animais descem do céu para fornecer a caça. Mawá subiu ao céu numa trepadeira para ficar.

Todos os animais e seres mitológicos eram humanos, até um dia que choveu pedras. A casa que suportou esta “chuva” teve um esteio muito forte no meio de pau d’arca (tabebuia). Os Waimiri Atroari ou Kinja são descendentes das famílias que moravam naquela casa e o poste no meio de suas malocas simboliza sua proteção.

Os Waimiri Atroari se denominam kinja (gente verdadeira) em oposição à kaminja (não indígena), à makyma (canhoto) e à irikwa (morto-vivo).

Eles encaram sua mydy taha, a “casa grande”, como segura em comparação ao mato, que é perigoso, especialmente para os não guerreiros, as mulheres e as crianças, essas devem ser acompanhadas. A terra, principalmente a mata, é domínio de feras que chupam o sangue, os irikwa ou yirkwá (os mortos vivos), os iamai (criaturas semelhantes aos morcegos) e o ianana. Ianana morava nos caules das árvores angelim (Hymenolobium petraeum), uma das madeiras mais duras e à prova de água. Porém, a árvore não era à prova do fogo que os Kinja acenderam para matar Ianana, mas o filho dele sobreviveu e foi adotado pelo Kinja. O filho de Ianana tinha muita sorte nas caças, mas o povo não acreditou em sua explicação e ele voltou a morar na floresta (R. do Vale 1991).

Os Waimiri Atroari contam que, antigamente, existiam dois grupos denominados Iky e Wehmiri. Os Iky viviam na cabeceira do rio e tinham a pele sakra (mais clara) e os Wehmiri moravam próximo à foz e tinham a pele tapyryma (mais escura que os Iky). Esses dois grupos habitavam também o fundo do rio, pois eram parentes do xiriminja, o Povo Peixe mitológico. Os Kinja acreditam que os xiriminja ainda moram nos leitos dos rios e que, antigamente, ensinaram o povo a ter sexo e se casar, malhar os cestos, cantar, dançar e plantar manivas nas roças (R. do Vale 1991).

A Marba é uma festa de três dias de danças, canções e comida, recordando todo aspecto da vida e das crenças dos Kinja. Os meninos recebem iniciação com três anos. Os jovens são iniciados como adultos e os casamentos e amizades são feitos e desfeitos. A myda maryba é celebração de uma nova maloca para garantir que raios bons percorram a casa, os irikwa (os mortos-vivos) não se aproximem e a construção dure por muitos anos.

Os Waimiri-Atroari chamam o Deus Cristão de Papai no Céu. Há poucos pajés hoje em dia. Eles não usavam alucinógenos e tabaco para contatar os espíritos.

A morte: Antigamente acreditavam que o espirito (akta) deixava o corpo e voltava pela floresta para um lugar da aldeia onde havia morado. Hoje aceitam a ideia cristã de que a alma vai para o céu com Deus e enterram os mortos orientados para o leste, conforme as instruções da FUNAI.

 

Bibliografia:

ISA: Instituto Socioambiental.

MILLIKEN, W. et. al. 1992 Ethnobotany of the Waimiri Atroari Indians of Brazil, Kew: Royal Botanical Society.

SIL 2009: Lewis, M. Paul (ed.),. Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth edition. Dallas, Tex.: SIL International. Versão on line: www.ethnologue.com.

R. DO VALE, Maria Carmen, 1991: “The Trauma of Contact”, Survival: Newsletter, Londres : Survival International, n. 29, p. 8-9.

SOUZA-MAZUREK, Remor De, Rosélis, et. al. 2000, “Substistence hunting among the Waimiri Atroari Indians in Central Amazonia, Brazil”, Biodiversity and Conservation, Amsterdam: Kluwer Academic Publishers, Vol. 9, No. 5, Pag. 579-596.

“Waimiri-Atroari” www.everyculture.com/South-America/Waimiri-Atroari acessado Julho 2010.

 

 

 

 

 

 

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