WANANO (Kotiria)

WAIMIRI ATROARI
09/04/2011
Algumas advertências no processo de adquirir uma língua
10/04/2011

WANANO (Kotiria)

Nome Próprio: Kotiria (Chenela 1993; Socioambiental), Kótedia, Kótirya.

Nomes: Conhecido no Brasil (português) como o Uanano ou Uanana, Wanâna; na Colômbia (espanhol) Guanano ou Guamana, confirmando a prática de traduzir a língua geral. São chamados Okotikana pelos Tukano, Okodyswa pelos Kubeo e Panumapa pelos Tariana.

População: Os 1.500 Wanano constituem-se entre 20 ou mais grupos linguísticos que casam entre si mesmos no Rio Uaupés. No Brasil, Chernela diz que há dez assentamentos Wanano no Rio Uaupés, separados de 3 a 24 quilômetros, cada aldeia tem entre 30 e 160 pessoas.  DSEI/FORN: 735 no Brasil (2005). A estimativa da população Wanano no Brasil é de 500 a 600 indivíduos (550 no Brasil: AMTB 1995), incluindo a população na margem sul da Colômbia o total seria 1.500 a 1.600 pessoas.  Instituto Antropos (2009): 1.619 (Brasil: 506; Colômbia: 1.113).

Língua: Wanano pertence ao grupo Tukano Oriental, uma das duas do subgrupo do norte; Guanano (SIL). Diferenças de dialeto existem entre rio acima e rio abaixo. O Novo Testamento chegou em 1982; os alfabetos são compostos 5% em sua língua e entre 25 e 50% em português.

Localização: Estão no extremo noroeste do Estado do Amazonas, no Brasil, às margens do Alto Rio Uaupés; entre Arara e Taracuá são hegemônicos, acima de Taracuá até Mitú, na Colômbia, convivem com os Kubéo. Os Tariana estão rio abaixo e os Baniwa ao norte, no Rio Aiari, um afluente do Rio Içana. Também há mil no Rio Vaupé, Santa Cruz, Colômbia.

História: Os Portugueses entraram no Rio Uaupés em 1730, quando tropas foram mandadas para as cabeceiras a fim de definir a fronteira. Entre 1740 e 1750, 20 mil índios foram escravizados. Nos 50 anos que seguiram, os Portugueses estabeleceram uma base militar na foz do Rio Uaupés, no Rio Negro, e mandaram expedições de reconhecimento para cima. Eles mandaram índios para cultivar suas roças, fabricar coisas e demarcar as fronteiras. Os indígenas resistiram e em 1782/3 muitos fugiram dos seus assentamentos no Baixo Rio Uaupés. A primeira missão católica foi estabelecida em 1849 para os rios Uaupés e Içana. Em 1880 o governo da Província convidou os franciscanos e o Frade V. Zilocchi fundou a missão em Taracuá. Dois outros frades chegaram e estabeleceram um povoado dos Tariana em Ipanoré e impuseram trabalho obrigatório aos índios. Tentaram controlar o comércio dos regatões. Um dos frades ridicularizou os pajés e expôs as flautas sagradas às mulheres. Em 1888 os índios revoltaram-se, expulsaram os franciscanos e voltaram para suas malocas. Os indígenas tornaram-se vítimas do sistema de escravidão de dívida para com os comerciantes, que também levaram as mulheres e as crianças como escravas.  Depois dessa reversa com os franciscanos, o Papa Pio X deu autoridade aos salesianos na missão do Rio Negro, em 1914.  Em 1929 os salesianos estabeleceram uma missão 60 quilômetros rio abaixo do território dos Wanano.

A coleta de borracha alcançou o território Wanano entre 1880 e 1912 e muitos aproveitaram para ganhar uma renda tanto na Colômbia como no Baixo Rio Negro. Os Wanano sofreram com os internatos salesianos pela intolerância da sua cultura e língua, assim como com os outros povos da região. Esse sistema terminou somente quando foram cortadas as verbas federais, em 1987. A Terra Indígena Alto Rio Negro foi estabelecida em 1996.

Substância: As aldeias ficam em terra firme à beira do rio. (Chernela 1993.4). As casas são feitas de barro ou casca de árvore, com telhados de palha, construídas ao redor de uma “praça” retangular com vista para o rio. Cada casa tem uma porta de frente dando para a “praça” e outra que leva para os trilhos, roças e floresta. Há cerca de 40 cachoeiras no rio entre Santa Cruz e Yabaraté, associadas com eventos na história dos Wanano ou Guanano (Waltz, C. 1985). As cachoeiras de Villa Fátima recordam um grande dilúvio. Suas plantações de mandioca e a pesca formam também o meio de troca do dia-a-dia entre os grupos. A floresta da região é relativamente esparsa e o solo e os rios são de baixo nível de nutrimento para sustentar plantas e animais.

Artesanato: Trocam carajuru (um pó corante feito com as folhas de um cipó) usado na pintura dos bancos rituais Tukano, outros artefatos rituais e nos seus corpos. Fabricam cestos e objetos de tururi.

Sociedade: Os Kotiria ou Wanano têm um sistema social de hierarquia singular na região. Eles têm 25 sibs ou clãs em uma hierarquia, conforme a ascendência de cada ancestral no mito da sua origem. A posição na hierarquia ou “patente” é o princípio que governa relações entre clãs, famílias e indivíduos. Os clãs são patrilineares e exogâmicos. Cada clã usa um grupo exclusivo de nomes que são repetidos a cada geração. Eles não têm genealogias profundas, é suficiente demonstrar pelo nome e pela maneira de cumprimentar os outros a qual clã pertence e sua posição na hierarquia. Os descendentes dos ancestrais mais velhos têm prioridade sobre os outros e no dia-a-dia são usados os títulos de parentela, não conforme a idade do indivíduo, mas conforme a posição do clã na hierarquia. Os homens do clã, na hierarquia mais alta, são descendentes do irmão mais velho, são chamados “nossos irmãos mais velhos” e “chefes”; os dos clãs mais baixos são conhecidos como “os irmãos mais novos”, “os últimos” ou “os servidores” (Chernela 1993).

Na Colômbia formam uma fratria de mais ou menos 13 clãs patrilineares, em uma hierarquia conforme a idade dos ancestrais e quando chegaram à região. Os Wirou chegaram por último – nas costas de aves – e são considerados servos dos outros, porém, há uma tendência na conversa a atribuir a seu próprio clã uma posição mais alta na hierarquia (Waltz 1985.44).

A posição mais baixa na hierarquia social é prevista conforme o ancestral mais recente no mito de origens; acredita-se que ele não veio do Lago de Leite chegando à região de outra maneira e, por isso, são considerados servos para caçar para os outros, entre outras coisas. Chernelo escreve que as sociedades indígenas do Rio Uaupés – Vaupés são uma exceção no conceito de hierarquia social. A posição ou status na hierarquia é fixo, porém os grupos não têm poder econômico ou militar para suportar sua posição. Outros grupos e indivíduos podem aproveitar a flexibilidade social.  A população Wanano acha-se em assentamentos maiores do que outros povos estudados (C. Hugh Jones 1979; I. Goldman 1963). As sociedades assentadas rio abaixo têm mais recursos, mais fertilidade das roças, melhor pesca e mais mão de obra. Os Wanano cabem nessa situação, comparados a outros povos estudados. A Amazônia noroeste mostra uma zona de hierarquia: os grupos rio acima mantêm a ideologia de hierarquia, mas com poucas manifestações dela, enquanto os grupos rio abaixo são envolvidos dia a dia na prática da hierarquia social (Chernela 1993.13).

Outro aspecto das sociedades do Alto Rio Uaupés é a exogamia, apesar da distinção de identidade pelos ancestrais mantida pelos homens nos clãs, todos os povos são relacionados por casamento: há 14 mil falantes de diversas línguas e etnias sobre uma área de 150 mil quilômetros quadrados (Chernela 1993).

Um grupo de adolescentes participou de uma oficina organizada por diversas entidades para ser multiplicador das informações, em suas aldeias, sobre alcoolismo, consumo de drogas e suicídio entre os povos indígenas (Socioambiental – Noticias 09/03/09).

Cosmovisão: (seguimos Waltz, C. 1985 nesta seção). A cosmovisão é semelhante à dos Barasana, porém estes falam de muitas “canoas anacondas”, não de uma só, trazendo os ancestrais dos indígenas para a região (Hugh-Jones, S 1979). Os pajés Kotiria ou Wanano interpretam o mundo em termos de água, rocha e fumaça, partes do universo que têm seus próprios povos e são associadas aos seres primordiais: Anaconda, Onça, Águia e seis classes de pessoas que devem ser controladas, especialmente Bisiu do reino da fumaça.

Os Wanano chamam-se “O Povo d’água” e preferem viajar por canoa em vez de andar na floresta. Preferem também a pesca à caça.

O povo ancestral foi criado por Cohamacu no lugar chamado Wapari Duri, rio abaixo de Yauaraté, no Brasil; seus ancestrais subiram na Canoa Anaconda e desembarcaram no buraco em baixo da água, na rocha em Santa Cruz. Cohamacu deu presentes a cada um, mas a maioria o temia. Barea não tinha medo e recebeu uma espingarda; ele é o ancestral dos não-indígenas, os estrangeiros, os brancos. Cjene foi o irmão mais velho dos ancestrais Wanano e o capitão da Canoa, por isso o clã Cjenoo é o mais alto na hierarquia. Os Wanano explicam porque o “branco” tem uma cultura material mais avançada: é devido ao medo dos ancestrais Wanano que receberam somente penas, caapi e cerveja de mandioca (Waltz, C. 1985.55).

O Mundo d’água está situado na profundeza do rio e é habitado pelo Povo Peixe (Wahi Masa). Anaconda é o animal chave desse mundo e é o avô dos habitantes. Eles têm a pele pálida como os estrangeiros, mas vestem-se da casca da anaconda. É imaginado que eles vivam em suas casas praticando as coisas dos estrangeiros, como sentar à mesa, usar garfo, prato e, por consequência, suspeita-se que os estrangeiros são o Povo Peixe. A mulher Wanano precisa se proteger deles, pois podem raptá-la para ser esposa. Especialmente as moças, ao início da puberdade, pintam o rosto de vermelho para tomar banho no rio; os pajés sopram fumaça de tabaco sobre elas – depois que dão a luz – e cantam à Mulher Ancestral (Pahonori Masono) que mora com Cohamacu no Lago Leite. Ela originou o costume de fumar tabaco e soprou a fumaça para adormecer o Povo Peixe. O pajé trabalha para defender o povo do Povo Peixe.

Cohamacu criou sua mulher de uma árvore, mas em pouco tempo eles brigaram, ele a matou e tomou uma Mulher Anaconda. Mas seu sogro Anaconda tentou o esmagar e as piranhas o morderam. Depois, Cohamacu achou uma linda moça Wanano a quem ensinou a roçar, plantar mandioca, assar farinha e fermentar a cerveja da mandioca. Porém, sua sogra conversava de mais todo o tempo, isso fez crescer erva daninha na roça e a mandioca ganhou uma casca dura para protegê-la. Até hoje as mulheres têm que trabalhar descascando a mandioca.

A segunda categoria é o Mundo da Rocha.  É a terra onde moram os Wanano e o animal chave é a onça. O Povo Rocha foi criado por Cohamacu num tempo longínquo, mas, depois, o sol, a lua e as estrelas apareceram. Formado em Diroa, Cohamana, quando essa se transformou em rocha, foi atingido por um raio. O avô rocha chegou à rocha, que tem forma de uma bacia em Yabareté. O Povo Rocha queria destruir a Canoa Anaconda para não deixar os indígenas ancestrais chegarem à região, mas foi destruído por Wanari Cohanacu e seu Irmão, que hoje moram nas rochas perto de São Gabriel da Cachoeira, Brasil. Por isso o Povo Rocha não ameaçava mais.

Os Seres da Mata (Macarasa Macaina) moram ao lado das rochas e têm influência para prejudicar os Wanano; os pajés gastam muito tempo tentando controlá-los. As almas de todo tipo de animais habitam no interior das rochas, a maioria é pacífica. Porém, Boraro, o chefe das almas dos animais, é perigoso. Outro ser, Wahi Wai Toro, chicoteia gente para ir à sua casa. A onça tem a alma mais forte porque se alimenta de gente. Os pajés tentam ter poder sobre as almas dos animais usando um cristal (wijõ) para abrir a casa da Alma Animal e soltar animais para a caça.

O cristal pode ser usado para matar gente e, pelo menos antigamente, o sacrifício de uma criança era necessário para contrariar esse poder. Isso explica porquê o pajé não tem filhos, ele não deve comer pimenta chili por um ano depois de cheirar o cristal e, em seguida, cantar por um dia. Se quebrar esse tabu alguém vai morrer.

Todo Wanano que morre vai para as casas dos mortos, que são os rochedos: um é chamado Lugar Alto (Buhi Cohto), perto da aldeia de Matapi, outro é a Ilha da Geração Velha (Bucu Turu Nuco), perto de Cemeteria. Os mortos que eram maus em vida ficam na cova, são chamados Almas do Diabo e considerados uma ameaça para os vivos. Qualquer danificação da casa é atribuída a elas; o vapor de pimenta chili fervida é usado para proteger a casa. Mas eles temem as almas dos pajés, pois, antigamente ele era enterrado no chão da maloca – que era queimada completamente.

A terceira categoria é O Mundo da Fumaça ou o Céu: quando o pajé fuma e sopra a fumaça do tabaco, faz contato com o Mundo do Céu e os Seres de lá. Um é o Pai das Águias (Cja Bucu), uma águia enorme e brava, o Pajé do Céu, que se alimenta de seres humanos. A fumaça faz o Pai do Céu dormir para que a alma do pajé, depois de tomar caapi, possa entrar na Casa do Céu e aprender do Chefe de Diabos, Bisiu, as soluções de problemas ou curas.

Conforme os mitos, enquanto Bisiu ensinava os primeiros Wanano a dança de compartilhar frutas e a iniciação (Yurupary), matou alguns jovens que o atormentavam. Os Wanano ficaram com raiva e o queimaram em uma fogueira; a fumaça do corpo de Bisiu ascendeu ao céu, onde mora até hoje. Os primeiros venenos vieram das cinzas da fogueira, por isso Bisiu é responsável por todas as maldições, envenenamentos etc. Igualmente, fornece as curas para as doenças aos pajés.

Bisiu é também Yurupary, o antepassado legendário que, considera-se, compareça ao rito de iniciação pela música ou som das cornetas. Ele vem acompanhado por seus demônios, por isso as mulheres devem fugir. Os jovens iniciantes devem demonstrar sua coragem enfrentando Bisiu e os demônios, provando assim sua qualificação para ser homem do povo. Entre os Barasana, Yurupary é chamado pelas flautas sacras por apresentá-lo como um dos ancestrais do povo (Hugh-Jones, S 1976); um exemplo de que um rito ou elemento cultural semelhante entre diversas culturas nem sempre recebe a mesma interpretação.

Bisiu, chamado também Cohamacu Trovão (Wapo Cohamacu), é chefe dos Guardiões do Wijõ, o cristal, residentes da Casa do Céu que também é conhecida como Casa de Trovão. Um índio é considerado doente porque sua alma desapareceu e o pajé ganha uma nova de Bisiu para substituí-la. A morte não é considerada o resultado de um acidente ou de uma doença, mas a quebra de um tabu. A alma deixa o corpo no momento da morte.

A Humanidade: O homem tem corpo, porém recebe uma alma “respirada para dentro” (yajeripohna) ou “oferenda de respiração” como Wanri Cohamacu que, inicialmente, formou sua primeira esposa de uma árvore e respirou sua vida ou alma para dentro dela. A alma fornece os atributos pessoais, como ser agradável, bondoso ou compassivo; ela é a fonte da vida moral. Os estrangeiros não têm alma porque os primeiros encontrados, borracheiros, traficantes de escravos etc., eram cruéis.  O estômago e o coração são a fonte das emoções. Ter misericórdia (pja ñu) significa literalmente “barriga de misericórdia”. Os animais possuem almas também, a onça e a anta têm almas “fortes” e, conforme seu comportamento, mostram ter almas com compaixão ou inteligência.

Os espíritos: São “seres invisíveis” (bajueraina) e de muitos tipos, mas não podem ser controlados pelos homens, os pajés usam um vapor de pimentas fervidas para fazê-los sair. Os da floresta são maus, que esmagam e comem gente. Há só um bom espírito, Macucu, que tem deixado de comer pessoas. Os espíritos que moram nas cavernas e nas rochas não se alimentam de seres humanos.

Os pajés: O pajé tem uma grande responsabilidade, sofre por sua própria saúde, pelo tabu em não comer para conseguir o poder do cristal e ganha inimigos quando não tem sucesso em curar. Waltz cita o caso de um pajé que estava sempre na casa dela para receber alimento e medicina, outro rejeitou a cosmovisão para converter-se ao Cristianismo. Com o acesso à medicina moderna poucos jovens querem ser pajés, assim, as tradições são esquecidas e os Wanano buscam a vida moderna devido às estradas e o comércio.

 

Bibliografia:

CHERNELA, Janet Marion,1983: Hierarchy and economy in the uanano kotiria speaking peoples Colombia Universiy.

CHERNELA, Janet M, 1993: Wanano indians of the Brazilian Amazon, University of Texas.

Derbyshire, Desmond C. and Geoffrey K. Pullum, editors. 1998: Handbook of Amazonian languages, vol 4. Berlin/New York: Mouton de Gruyter. [ix] 646 p.

GOLDMAN, Irving, 1963:. The Cubeo Indians of the North West Amazon. Urbana: University of Illinois Press.

HUGH-JONES, Christine, 1979: From the Milk River: Spatial and Temporal Processes in Northwest Amazonia. Cambridge: CUP.

HUGH-JONES, Stephan, 1976: “Like Leaves on the Forest Floor: Space and Time in Barasana Ritual” 42nd International Congress of Americanists, Paris.

HUGH-JONES, Stephen: The Palm and Pleiades, Cambridge: CUP 1979, also 1972.

WALTZ, Carolyn: “Water, Rock and Smoke: Guanano View of the World” in Five Amazon Studies on Worldview and Cultural Change, Ed; William R. Merrifield, Dallas: International Museum of Anthropology, 1985.

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