WAYANA

TIRIYÓ – TARËNO
11/03/2013
YANOMAMI
12/03/2013

WAYANA

 

Autodenominação: Wayana, mas o significado é desconhecido (exceto yana, que significa ‘gente’ ou ‘povo’) (Barbosa e Morgado 2003). O grafema ‘wa‘ não tem valor semântico. ‘Waja’ é um peso na linha de pesca e o prefixo de diversos termos que não permite uma reconstrução do etnônimo wayana. Os povos guianas se identificam conforme o lugar de origem. O termo wayana pode significar o grupo étnico, falantes da mesma língua etc., os ameríndios em comparação com os não índios, ou o indivíduo humano em contaste com o não humano (Camargo 2008.105, 114).

Outros Nomes: Waiana, Wajana, Uaiana, Upuriu, Aluykuana, Upurui, Roucouyen, Orokokoyana, Urucuiana, Oayana, Oiana e Roucouyennes.

População: Brasil: 415, Suriname: 400, Guiana Francesa: 800 (DAI/AMTB 2010). Brasil: 304 (PIB). 304 (Funasa, 2010); 800 (Lopes, 2002); 500 (Lopes, 2002).

Localização: O Parque Indígena do Tumucumaque (3.071.070 hectares) é situado nos estados do Amapá e do Pará, com 27 mil quilômetros quadrados, abrangendo os municípios de Oriximiná, Almerim, Monte Alegre e Óbidos. É mais antigo que seu vizinho, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque. Vivem no Parque dois mil indígenas em 50 aldeias das etnias: Akurió 10. Apalai (Aparai) 415 (DAI/AMTB 2010) 398 (PIB). 398 (Funasa, 2010), 40 (Eliane Camargo, 2011), 10 (Eliane Camargo, 2011). Relacionados aos Wayana. Kaxuyana 900 (DAI/AMTB 2010) 350 (PIB), 350 (João do Valle Kaxuyana, 2009).  Tiriyó (Trio) Brasil: 1.156, Suriname: 1.400 (DAI/AMTB 2010), 1.464 (Brasil PIB). Waiãpi (Oiãoi), Brasil: 905, Guiana Francesa: 412 (DAI/AMTB 2010).905 (Apina/Funai, 2008) 710 (Tinoco, 2002). Tupi-Guarani, relacionados aos povos do Baixo Xingu.

No interior do Suriname há aproximadamente 400 Wayana vivendo no Rio Tapanahoni, onde têm residido desde meados do século 19, nas aldeias de Palumeu e Pïlëuimë (Apetina) (OLAC www.language archives.org).

Língua: Wayana, classificada Karibe do Norte, Guiana Leste-Oeste, Wayana-Trio. Parcialmente inteligível aos Apalai (Aparai). Falada no Brasil, no Suriname e na Guiana Francesa; a população em todos os países é contabilizada em 750 pessoas. A taxa de alfabetismo é de 10 a 30% e na segunda língua de 25 a 50%. Há um dicionário e o Novo Testamento traduzidos (1979) (SIL). Cada pessoa adulta fala duas ou mais línguas na região do Rio Paru de Leste, como aparai, português e tiriyó. A alfabetização é feita em aparai e português, o aparai é a língua dos livros e dos cultos (Barbosa e Morgado 2003). Vários Wayana e Aparai falam pelo menos duas línguas: o wayana e o aluku (língua crioula de base lexical inglesa) (Camargo 2008.105).

História: Os Wayana têm morado nos Alto e Meio Rio Paru de Leste por muito tempo. No passado, eles assimilaram os Upurui, Kukuyana, Opagwana, Kumarawana, Umuruyana e Upurui. Esses grupos eram inimigos que depois formaram alianças de troca e cooperação para evitar assaltos (Camargo 2008.107). Hoje, os Wayana se consideram ‘misturados’, mas apontam certos indivíduos como descendentes desses grupos. Há muita evidência de redes de contato e intercâmbio entre os povos indígenas, especialmente no comércio de produtos e artefatos que eram distintamente produzidos por um só povo. Foram acrescentados a essas redes, nos séculos 17 e 18, a troca de artigos industriais dos europeus vindos da costa da Guiana Francesa e Guiana Holandesa (Suriname). Os primeiros intercasamentos entre os Aparai e os Wayana aconteceram no século 18, porém, eles não aceitam o rótulo ‘Wayana-Aparai’, alegando que têm histórias e aspectos linguísticos e culturais muito diferentes.

No século 18, escravos africanos de três etnias fugiram das plantações de cana na Guiana Holandesa para as florestas no sul da Guiana Francesa; eles foram chamados de Negros Marrons ou Meikoro pelos Wayana. Eles se estabeleceram nas margens dos rios principais e começaram a comercializar os bens europeus com os Wayana e os Tiriyó nos Meio e Alto Rio Paru de Leste, trocavam bens com os Aparai do sul no Rio Amazonas e com os Waiãpi a leste. Por causa de seus bens de troca, os indígenas eram explorados no comércio com os Negros Marrons. Mas, ao final do século 19, os Wayana e os Aparai aprenderam a ganhar no comércio com os outros povos indígenas no Brasil (Barbosa e Morgado 2003). Os Negros também tentaram escravizar os índios. As aldeias armaram defesas contra os ataques vindos dos macambos ou quilombos, que cresceram em poder com os fugidos da repressão da revolta da Cabanagem, nos anos 30 do século 19 (Hemming 1987.345).

Jules Crevaux visitou os Wayana em 1877 e viu a cerimônia de iniciação dos rapazes. Cada rapaz era segurado por três homens, enquanto o pajé aplicava formigas de fogo no corpo da vítima, até que perdesse os sentidos com a dor das picadas, depois disso, era amarrado à sua rede para sofrer o tormento. (Hemming 1987.342). Em 1900, Olga Coudreau descreveu os índios da região em um processo de desintegração. As áreas abaixo das cachoeiras dos rios estavam completamente despovoadas de indígenas, devido à escravidão e às epidemias (Hemming 1987.345).

Os Wayana deslocaram seus contatos e o comércio para o sul e intensificaram a exploração de castanha-do-pará e batata, avançando para os rios Jari, Paru de Leste, Curuá e Maicuru durante a primeira metade do século 20. Nessa época, os ribeirinhos estavam vindo das vilas de Almeirim, Alenquer e Monte Alegre para morar nas desembocaduras dos rios. Os Wayana e os Aparai ocupavam não só os Médio e Alto Paru de Leste, mas também seu afluente Citaré e o Médio Jari; muitos estavam envolvidos na extração do látex e na troca de castanhas por espingardas, ferramentas e coisas de pouca utilidade (Barbosa e Morgado 2003). Entre os anos 50 e 70, os caçadores de peles de onça e os garimpeiros trocavam bens industriais por alimento e outros serviços. Os índios também sofreram epidemias que reduziram as populações. Muitas das relações comerciais aconteciam entre parceiros individuais.

Na segunda metade do século, a FAB e outros órgãos nacionais começaram a atuar na região; em 1960, a FAB se estabeleceu na aldeia Aparai, nas margens do Rio Paru de Leste. Em 1962, os missionários do SIL começaram a viver entre os Aparai e, em 1973, a Funai montou um Posto no local. No sul, os Tiriyó, os Aparai e os Wayana receberam Edward e Sally Koehn do SIL entre 1962 e 1977, dos quais “os índios se lembram em alta estimo”. Walter S. Jackson da West Indies Mission (atualmente Worldteam), trabalhando no Suriname, produziu uma Gramática em Wayana em 1972. Outros missionários viviam entre os povos até 1992, treinando pastores indígenas para dirigir os cultos e traduzindo o Novo Testamento, que foi concuído em 1988. Os missionários deixaram a maioria dos costumes tradicionais. Os Wayana continuaram a observar as cerimônias na preparação da comida e passaram a dar mais valor aos utensílios tradicionais enquanto usavam os artigos industrializados (Hemming 2003.397). Os missionários do SIL iniciaram um trabalho de “recuperação” de artigos da cultura material aparai e wayana, e organizaram a sua comercialização visando garantir a autossuficiência econômica dos Wayana e dos Aparai, para também familiarizá-los com a economia monetária.

A Funai criou seu primeiro posto em 1973. As agências nacionais trabalhavam para integrar os índios à sociedade nacional através da educação e de um sistema paternalista de troca de bens industriais, isso diminuiu as relações deles com outros povos indígenas e com os Negros Marrons. Hoje, os índios recebem aposentarias do governo do Amapá e serviços assalariados como agentes de saúde e professores. A Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque (Apitu) facilita o comércio de artesanato em Macapá (Barbosa e Morgado 2003). Em 1994, a Apitu fechou acordos com o Governo do Amapá, o qual aumentou o número de índios empregados como professores, agentes de saúde, auxiliares de enfermagem, pilotos e proeiros de lanchas.

Eles moram no Parque Indígena de Tumucumaque, localizado no norte do Pará, entre os rios Marapi, Paru de Leste e Jari e as fronteiras com o Suriname e a Guiana Francesa. Os índios do Parque de 33 aldeias estão participando do mapeamento dos locais e plantas utilizadas pelas etnias com a Funai (PIA). A equipe de vacinação da Coordenação Regional da Funasa no Amapá realizou cobertura em 71% das 50 aldeias localizadas no Parque do Tumucumaque (ISA).

Estilo da Vida: No Brasil, os Wayana convivem há cem anos com os Apalai, morando nas mesmas aldeias e casando entre si. Muitas vezes são tratados como uma só etnia, apesar de terem histórias e formas de cultura diferentes. Os povos afirmam suas identidades distintas e não reconhecem o termo ‘Wayana-Aparai’. Distribuem-se por aproximadamente 16 aldeias com os Aparai e de 415 pessoas nos Alto e Médio Rio Paru de Leste, no Parque indígena e na Terra indígena Rio Paru D’Este (Barbosa e Morgado 2003).

As aldeias consistem em uma família estendida dos pais, dos genros e suas famílias, com casas para as famílias nucleares e uma rancha para o preparo da mandioca. As casas estão situadas ao redor de um pátio pequeno na beira do rio. Tradicionalmente, as casas eram ovaladas, com ou sem um assoalho de paxiúba, e o telhado feito de folhas de ubim e bacaba. Hoje, as casas são baseadas no padrão ribeirinho feitas de madeira com telhado de zinco. Na maioria das aldeias, há uma casa de reuniões para recolher os visitantes, realizar festas ou cultos cristãos. As aldeias antigas eram abandonadas depois que o chefe morria.

Sociedade: Cada aldeia é autônoma, com uma unidade doméstica e seu próprio chefe (tamuxi). O chefe corresponde ao pai/sogro da família extensa de filhos, filhas solteiras e casadas, genros e netos. Mas, quando um(a) Wayana se casa com um(a) Aparai, eles mantêm sua identidade étnica. Por meio de intercasamentos e pela co-residência, consideram-se como ‘família’ (wekï), mas, ainda hoje, a diferenciação interna permanece entre as etnias. Nesses casos, o filho do casal pertence à etnia do pai, ou à etnia de quem o cria, conforme a língua falada por essa pessoa (Camargo 2008.108, 111).

Nas aldeias maiores, alguns chefes de família podem ter autoridade para organizar as atividades da aldeia, como as festas ou atividades de mutirão – limpar as roças ou fabricar canoas – e se relacionar com os chefes de outras aldeias. Essas aldeias maiores incluem os cunhados ou irmãos e as famílias do chefe. O genro presta serviços ao sogro durante a vida e lhe oferece presentes por intermédio de sua esposa.

A presença da Funai incitou um chefe como o representante de todos e essa inovação gerou tensões com os chefes das aldeias e acusações de que eles beneficiavam somente seus parentes. Em 1996, foi criada a Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque (Apitu) para representar todos os indígenas do Parque e da T.I. Rio Paru Déste, mas a organização ainda é liderada por poucos que são familiarizados com a sociedade nacional (Barbosa e Morgado 2003).

Artesanato: Os Wayana têm um repertório mais amplo de motivos gráficos, mas as suas cerâmicas não são pintadas (Barbosa e Morgado 2003).

Religião: Os homens consistem em três aspectos. O corpo (punu), seu princípio vital (uzenu) e a sombra (omore), que é a projeção material de uzenu e pode passar para um estado gasoso. O uzenu pode se separar do corpo pelo ataque de um jorokó no sono, por um feitiço de pajé, por um susto ou no momento da morte. Um pajé pode mandar seu uzenu em uma sessão de cura, quando quer agredir uma pessoa, provocar temor ou matar. O uzenu de crianças se desenvolve com o corpo e não é fixo até cerca dos três anos. Na morte, o uzenu se solta completamente do corpo e sobe ao céu ou à terra boa no nascente do sol onde ninguém envelhece. Os Aparai enterram seus mortos em vez de cremá-los como os Wayana (Barbosa e Morgado 2003).

Cosmovisão: Antes da criação do mundo, havia um poder impessoal. Existiam dois heróis: Ikujuri e Mopó (ou Kujuli, para os Wayana). Ikujuri é quase impessoal, um princípio de energia que formam os elementos transformados em rios, mato etc. e continuam a atuar. Os pajés se aliam a esse poder para combater os jorokó, eles tomam a forma de animais para atacar; os pajés se transformam em onças e outros seres na água se transformam em gente. Ele é mais constante em seu caráter e é chamado ‘pai’ ou ‘irmão’. Mopó ou Kujuli aparece também na criação do mundo. Ele é o ‘pai do céu’ que criou os primeiros artefatos feitos de barro e o poder xamanístico. Seu caráter é ambivalente e é chamado ‘cunhado’. A relação de cunhado na sociedade é tensa e precisa de trocas de favores. Os dois perderam a paciência com as criaturas e se retiraram ao céu. O conflito na criação começa no ambiente das relações dos humanos, os homens precisam fazer trocas em relações de tensão e reciprocidade.

No conceito dos Wayana, e também dos Aparai, a terra tem a forma de uma ilha redonda, cercada por um oceano. Sobre ela, dois céus são suportados por entidades no oeste. Nos tempos antigos, os céus e a terra eram ligados por uma grande montanha ou uma liana. Essa montanha é identificada com uma serra entre os rios Parumo no Suriname e as cabeceiras do Paru de Leste, na serra do Tumucumaque. O céu mais baixo, kapumereu, é o lugar das nuvens mais altas e dos kurumu (os urubus). Os kurumu são chamados ‘gente do céu’ e são divididos em diversas espécies que vivem em aldeias no espaço. As penas deles ajudam os índios na caça e parte da carne é deixada para os aves em troca. O céu mais baixo é também a morada o herói-criador Mopó e dos jorokó, que são temidos. Em cima, há o segundo céu, kapu, onde moram Ikujuru e outros seres, como o Sol e a Lua. Esse céu é uma planície ligada à terra onde vivem seres semelhante aos humanos com pele marrom escura. Embaixo da terra há outra camada onde vivem criaturas com pele coberto de pelos e tem seu próprio sol.

Comentário: Edward e Sally Koehn do SIL viveram entre os Aparai e os Wayana de 1962 a 1977 e, deles, “os índios se lembram em alta estima”. Os missionários mantiveram a maioria dos costumes tradicionais, analisaram as línguas e traduziram o Novo Testamento e uma abreviação de Gênesis em Aparai. De Goeje (1946) e depois Walter S. Jackson (1970) da West Indies Mission, trabalharam entre os Wayana no Suriname e produziram uma Gramática do Wayana. Em 1955, a West Indies Mission (hoje Worldteam), de origem canadense, começou um trabalho que dura até hoje no Suriname entre os Wayana e os Trio (Tiriyó), que receberam a mensagem. Há alguns cânticos, gravações e textos na língua deles (http://www.language-archives.org/language/way).

 

 

 

Bibliografia:

BARBOSA, Gabriel Coutinho, MORGADO, Paula, 2003, “Wayana”, Povos Indígenas do Brasil, Instituto Socioambiental, São Paulo. http://pib.socioambiental.org/pt/povo/wayana/

CAMARGO, Eliane, 2008, “Indentidade e Alteradade em Wayana – Uma Contribuição Linguística” in Campos – Revista de Antropologia Social, UFPR, Vol 9 No 2, pag. 105-137. Tradução do francês por Denise Fajardo.

DAI/AMTB 2010, Relatório 2010 – Etnia Indígenas do Brasil, Organizador: Ronaldo Lidório, Instituto Antropos – http://instituto.antropos.com.br/

HEMMING, John, 1987, Amazon Frontier -The Defeat of the Brazilian Indians, London: Pan Macmillan.

HEMMING, John, 2003, Die If You Must – Brazilian Indians in the Twentieth Century, London; Pan Macmillan.

SIL 2009, Lewis, M. Paul (ed), Ethnologue: Languages of the World, Sixteenth Edition. Dallas, Tex: SIL International. Versão on-line: http://www.ethnologue.com/

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.